Argentina. Em 2025, houve mais de 11 mil tentativas de suicídio no país

Foto: PRIYANSHU Kumar/Unplash

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05 Janeiro 2026

Os números alarmantes, publicados no Boletim Epidemiológico, abrangem o período até outubro. São quase 39 casos por dia. Cinco por cento são consumados. Afeta principalmente os jovens, em sua maioria mulheres. Como o contexto influencia isso? A emergência na saúde mental e a falta de orçamento.

A reportagem é de Luciana Rosende, publicada por El Tiempo Argentino, 03-01-2026. A tradução é do Cepat.

O último Boletim Epidemiológico Nacional do ano passado, publicado esta semana, trazia em sua capa a imagem de um panfleto com o slogan “o suicídio pode ser prevenido”. A escolha do foco não é acidental. A emergência de saúde mental na Argentina (amplamente ignorada) se traduz em números alarmantes: até 31 de outubro de 2025, foram registradas 11.799 tentativas de suicídio. Ou seja, mais de 33 pessoas por dia tentaram suicídio no país durante o último ano. Uma estatística devastadora que não inclui todos os incidentes que não são notificados no registro oficial. Sabe-se que o número real de casos é muito maior.

De acordo com esse boletim, divulgado pelo Ministério da Saúde, houve 724 mortes por suicídio até aquela data. Esses são os casos notificados pelos profissionais do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS). No entanto, o relatório do Sistema Nacional de Informações Criminais (SNIC) do Ministério da Segurança, publicado recentemente, indicou que houve 4.249 suicídios no país em 2024. Esse documento reflete que, “devido ao aumento persistente de casos nos últimos quatro anos, desde 2023 o suicídio é a principal causa de morte violenta no país, representando 41,7% dos casos em 2024”.

“O suicídio é uma prioridade global, tanto que, sob a coordenação da Organização Mundial da Saúde (OMS), a maioria dos países está aumentando seus orçamentos para a implementação de políticas específicas de prevenção do suicídio. Infelizmente, apesar de nosso país possuir uma lei nacional de prevenção do suicídio, não sabemos qual orçamento está sendo utilizado ou quais recursos a Direção Nacional de Saúde Mental, vinculada ao Ministério da Saúde>, está colocando em prática”, afirma Alberto Trímboli, representante da Associação Argentina de Saúde Mental (AASM). Ele acrescenta: “A Lei Nacional de Saúde Mental estipula que o Ministério da Saúde deve destinar 10% do orçamento da saúde para políticas e programas de saúde mental. Parte desse orçamento deveria ser reservada para políticas de prevenção do suicídio. Isso, claramente, não está acontecendo hoje”.

Horas antes do início de 2026, aliás, foi anunciada uma nova rodada de demissões no Hospital Nacional Laura Bonaparte, especializado em saúde mental e tratamento de dependências. O comitê interno do sindicato ATE no hospital denunciou: “Em meio a uma crise de saúde mental, o influenciador do Instagram que magicamente se tornou um funcionário público (referindo-se a Bruno Panzuto, nomeado pelo governo de Javier Milei para chefiar a instituição) está agravando o desastre ao demitir psicólogos, enfermeiros e psiquiatras”.

“A demanda está aumentando constantemente”

O psiquiatra Guillermo Jemar chefia o Pronto-Socorro do Hospital Psiquiátrico Interdisciplinar Borda. Os casos de automutilação e tentativas de suicídio que chegam aí estão relacionados a alguma patologia subjacente: “Somos um hospital especializado em saúde mental e temos estratégias em diferentes níveis para prevenir o suicídio, mas estamos sobrecarregados porque a demanda está aumentando constantemente”.

Além das tentativas de suicídio, observa-se um número crescente de casos de automutilação, que não são especificamente incluídos nas estatísticas. “Uma porcentagem significativa de pessoas que se automutilam considera a morte como a solução imediata, uma vez que a automutilação deixa de ser suficiente”, explica. Observa esse sintoma em idades cada vez mais jovens: “É preocupante. Há adolescentes de apenas 11 anos, quando antes a média era de 14 a 16 anos”.

Embora tenha múltiplas causas, as tentativas de suicídio estão relacionadas à “falta de perspectiva do indivíduo: ele acredita que, por se sentir mal agora, se sentirá assim pelo resto da vida. Não é o mesmo que querer se matar. É não querer viver como vive agora”, esclarece. Os fatores subjacentes incluem “frustrações, falta de esperança e condição socioeconômica. Há cada vez mais casos influenciados pelo contexto: o individualismo e a competitividade, o isolamento e o medo da integração geram níveis constantes de frustração”, explica o especialista.

Entre 1º de abril de 2023 e 31 de outubro de 2025, segundo dados do Ministério da Saúde, foram notificados 22.249 casos ao Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (SNVS). Noventa e cinco por cento (20.928) foram tentativas de suicídio sem fatalidade e 5% (1.218) foram suicídios consumados.

“Uma época de extremo risco”

Nos últimos dias de 2025, o tema ganhou destaque após uma série de suicídios entre jovens soldados: quatro em menos de uma semana. Em dois dos casos, a situação econômica foi apontada como fator contribuinte, embora os fatores por trás de cada caso sejam múltiplos.

“Uma pessoa comete suicídio não porque quer morrer, mas porque está vivenciando tanto sofrimento, angústia e desespero que sente que não há solução, nenhuma saída, e que a única maneira de escapar desse sofrimento é fugir da vida”, explicou o médico Héctor Basile, presidente honorário do Capítulo de Suicidologia da Associação de Psiquiatras da Argentina (APSA), a este jornal, com base nesses casos.

Além das recentes notícias locais, o tema é motivo de preocupação mundial. Segundo a OMS, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, sendo esta a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

“O suicídio, assim como outros problemas de saúde mental, está relacionado aos determinantes sociais da saúde. Ou seja, às condições em que as pessoas nascem, crescem, estudam, trabalham e constroem vínculos. Entre os fatores mais relevantes, que atualmente se encontram em níveis alarmantes em nosso país, estão o desemprego, a pobreza, a insegurança laboral, as dívidas, a insegurança econômica e a perda de projetos de vida, que, em conjunto, aumentam o sofrimento psicológico e os sentimentos de desesperança”, explica Trímboli.

O especialista conclui: “Se considerarmos que estamos vivenciando a pior crise econômica e social da nossa história recente, sobre uma base de vulnerabilidade criada pela pandemia, somada à falta de políticas governamentais, atravessamos uma época de extremo risco em relação ao problema do suicídio. Falar de suicídio significa falar de direitos, desigualdade, acesso a cuidados e da responsabilidade do Estado e da sociedade. O suicídio pode ser evitado se houver políticas públicas sólidas, serviços acessíveis, abordagens comunitárias, apoio familiar, cobertura midiática responsável e uma comunidade que não abandone aqueles que sofrem”.

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