A cultura da infantolatria: o desafio da geração que não aceita ser contrariada. Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Taylor Flowe | Unsplash

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13 Novembro 2025

"A criança precisa de afeto, mas também de limites. Precisa ser ouvida, mas também precisa aprender a ouvir. A frustração, longe de ser um mal, é uma etapa fundamental da maturidade. É por meio dela que o estudante aprende a superar dificuldades, a desenvolver resiliência e a compreender que a vida nem sempre corresponderá aos seus desejos", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

Nas últimas décadas, as escolas têm enfrentado um fenômeno cada vez mais evidente: estudantes que não suportam ser contrariados, que reagem com descontentamento diante de qualquer forma de frustração e que encontram enorme dificuldade em lidar com limites. Esse comportamento é reflexo direto de uma realidade mais ampla: a cultura da infantolatria, isto é, a tendência de colocar a criança no centro da vida familiar e social, transformando-a em uma figura quase intocável.

A intenção inicial dos pais é, geralmente, nobre. Desejam oferecer aos filhos uma infância feliz, sem traumas e com todas as oportunidades que eles, gerações anteriores, não tiveram. Contudo, o excesso de proteção, o medo de dizer “não” e o esforço constante para evitar qualquer sofrimento têm produzido o efeito oposto ao desejado. Ao crescer em um ambiente onde todas as vontades são atendidas, a criança não aprende a lidar com a contrariedade e desenvolve uma baixa tolerância à frustração. Quando chega à escola, esse comportamento se manifesta em conflitos com professores, dificuldade de seguir regras e resistência a qualquer tipo de correção.

Hoje, é comum observar estudantes que se sentem ofendidos quando recebem uma nota baixa, que questionam as normas escolares e que esperam que tudo se adapte a suas vontades. Em vez de enxergar o erro como oportunidade de aprendizado, reagem com irritação ou desânimo. Essa atitude revela uma fragilidade emocional preocupante: muitos alunos não foram ensinados a suportar o desconforto natural do crescimento, nem a compreender que o aprendizado exige esforço, disciplina e, às vezes, frustração.

Para os educadores, essa realidade representa um desafio constante. O professor, que deveria ocupar o lugar de mediador e orientador do processo formativo, frequentemente é colocado na posição de vilão, ou seja, aquele que “frustra” o estudante. A autoridade pedagógica, antes respeitada como instrumento de formação, agora é questionada, relativizada e, em alguns casos, rejeitada. O resultado é um ambiente escolar mais tenso, com relações frágeis e um aprendizado comprometido.

Diante desse cenário, é urgente que família e escola retomem o diálogo e reconheçam sua corresponsabilidade na formação emocional e ética dos jovens. A criança precisa de afeto, mas também de limites. Precisa ser ouvida, mas também precisa aprender a ouvir. A frustração, longe de ser um mal, é uma etapa fundamental da maturidade. É por meio dela que o estudante aprende a superar dificuldades, a desenvolver resiliência e a compreender que a vida nem sempre corresponderá aos seus desejos.

Portanto, combater a cultura da infantolatria é uma tarefa educativa, social e, acima de tudo, familiar.

É preciso resgatar o valor da autoridade (não autoritarismo), a importância das regras e o papel formador da escola como espaço de convivência e crescimento. O verdadeiro amor não está em evitar que a criança sofra, mas em prepará-la para enfrentar a vida com coragem, equilíbrio e respeito ao outro. Só assim poderemos formar estudantes emocionalmente fortes, capazes de reconhecer que aprender também significa aceitar o limite, o erro e o desafio como partes inevitáveis e enriquecedoras do processo de viver.

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