A (milenar) paixão segundo Maria: uma viagem no mistério feminino do Evangelho. Artigo de Giovanni Maria Vian

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11 Novembro 2025

"A sutileza dos comentaristas antigos e contemporâneos é indicativa da riqueza, mas também da dificuldade, dos textos bíblicos sobre Maria. Assim, mesmo o texto mais antigo, a Carta aos Gálatas, ditada pelo Apóstolo Paulo no ano 55, alude a ela, sem a nomear: 'Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos'. A fórmula 'nascido de mulher' é neutra, segundo alguns, enquanto outros notaram que a ausência do nome do pai é surpreendente e, consequentemente, atribuíram-lhe forte significado", escreve Giovanni Marian Vian, professor italiano de filologia patrística e jornalista, em artigo publicado por Domani, 09-11-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

O mais recente documento do órgão doutrinal da Santa Sé sobre a Virgem Maria está gerando discussões e descontentamentos, especialmente nos setores mais tradicionalistas. Intitulado Mater populi fidelis — mas o latim se limita ao título, como uma folha de figueira — e apresentado de forma não usual na Cúria Geral dos Jesuítas, é uma longa "nota" de cerca de cinquenta páginas sobre alguns títulos "referidos à cooperação de Maria na obra da salvação": em outras palavras, sobre seu lugar na doutrina católica. Em resumo, o termo "corredentora" é rejeitado e o de "medianeira" é apenas parcialmente aprovado. O objetivo, que certamente não é uma novidade, é salvaguardar o papel único de Cristo.

Na recente disputa, críticos e defensores do documento do Vaticano colocaram seus pontas de lança em frente opostas. João Paulo II — devoto a Maria a ponto de escolher as palavras Totus Tuus (Todo Teu), uma frase que vinha sendo referida à Virgem Maria há séculos, como seu lema episcopal e papal — e seu braço direito teológico e sucessor, Joseph Ratzinger. O primeiro a favor das críticas à nota, enquanto o segundo a favor da nota. O texto cita ambos, e muito mais, para explicar que é necessário um equilíbrio “entre a única mediação de Cristo e a cooperação de Maria na obra da salvação”.

Uma nota técnica

Para além da extensa nota do Vaticano, muito técnica e que poucos lerão, nos anos que antecederam o Concílio, Montini formulou a mesma preocupação em uma nota: “A necessidade de justificar o culto a Maria e o esforço para tornar essa devoção lógica, fundamentada e teológica não acabam diminuindo, na prática, a expressão espontânea da piedade e a intensidade da relação religiosa e cordial que devem caracterizar nossa conversação espiritual com a Mãe de Cristo e, portanto, nossa Mãe? Ou a podem aumentar?", perguntava-se retoricamente o arcebispo, inclinando-se para a segunda alternativa. Novamente, Montini, falando em 1961 no Sacro Monte de Varese, destacava que Nossa Senhora ocupa um "lugar importante na piedade católica. Vocês sabem que isso não acontece nas outras confissões cristãs, as dissidentes, onde o culto a Maria é negado; agora um pouco menos: elas também reconhecem que, se alguém deseja honrar Cristo, não pode negligenciar a honra à Santíssima Virgem Maria. Mas chegam a essa conclusão com dificuldade, e sempre com o receio de que honrar Maria queira dizer diminuir a honra a Cristo."

À sua preocupação ecumênica, o cardeal acrescentava a crítica porque "às vezes a fantasia vai ainda mais longe e associa títulos à Virgem Maria que não seriam muito apropriados: no sul da Itália, encontrei até uma Nossa Senhora... das galinhas!"

Como papa, Montini por fim publica a exortação apostólica Marialis cultus em 1974, um texto decididamente inovador e em consonância com a reforma conciliar. Maria está presente, com diferentes ênfases, em todas as tradições cristãs. E fascina para além das fronteiras confessionais, como demonstrado recentemente pelos livros que dois intelectuais italianos — Massimo Cacciari (La passione secondo Maria, Il Mulino) e Vittorio Sgarbi (Natività. Madre e Figlio nell’arte, La nave di Teseo) — dedicaram à Virgem.

Não é fácil, porém, falar de Maria, tão cara às tradições cristãs orientais como a "mãe de Deus", em grego theotókos, título encontrado já em um papiro do século III e consagrado em Éfeso pelo Concílio Ecumênico de 431. Sua presença nos textos do Novo Testamento, contudo, não é proeminente.

Isso foi ressaltado pelo padre Cesare Angelini, que se dedicou a um livro encomendado pela Fiat em 1965, A Vida de Jesus Narrada por Sua Mãe (republicado pela Lindau), "um verdadeiro quebra-cabeça onde, dado o tema, nada deve ser inventado e tudo deve ser conjecturado. Porque, se existe uma criatura no Evangelho que nunca fala, é precisamente ela, a sua mãe", escreveu ele a Giuseppe Prezzolini.

O padre letrado estava exagerando, pois dois evangelhos colocam textos bem conhecidos na boca da Virgem: Lucas, a quem a tradição oriental, mas também a ocidental, atribui os ícones marianos mais antigos, narra o diálogo com o anjo Gabriel, do qual se extrai a oração da Ave Maria, o cântico conhecido pelo seu título em latim como Magnificat, e a dolorosa repreensão a Jesus, aos doze anos, encontrado no templo. No Evangelho de João, porém, poucas palavras são trocadas com seu filho nas bodas de Caná, o primeiro dos "sinais" realizados por Cristo a convite discreto de sua mãe.

Maria é silenciosa em outras ocasiões. Retrocedendo, é Lucas, novamente no início dos Atos dos Apóstolos, quem relata sua presença, juntamente com outras mulheres e parentes de Jesus, ao lado dos apóstolos. Com outras mulheres — e desta vez é João, o único evangelista a relatar isso — Maria está aos pés da cruz de Jesus.

Sua mãe nem sequer fala durante o nascimento e a infância do filho, mas "guardava todas essas coisas em seu coração", repete Lucas duas vezes. E, enquanto nos presépios a mãe do menino Jesus aparece ao lado de José, o evangelista Mateus escreve que os misteriosos Magos vindos do Oriente "viram o menino com Maria, sua mãe", sem mencionar o pai legal de Jesus.

Devoto de seu patrono, Bento XVI, no terceiro volume de sua obra sobre Jesus de Nazaré, ponderou sobre a razão dessa ausência e reconhece que não havia encontrado "uma explicação plenamente convincente". Mas acrescenta que Joaquim Gnilka, autor de um importante comentário, provavelmente está certo "quando diz que Mateus, com isso, relembra o nascimento de Jesus da Virgem e qualifica Jesus como o Filho de Deus". Além disso, em meados do século IV, Hilário de Poitiers, comentando o mesmo texto de Mateus, já o havia interpretado com argúcia na mesma linha.

O que dizia o Apóstolo

A sutileza dos comentaristas antigos e contemporâneos é indicativa da riqueza, mas também da dificuldade, dos textos bíblicos sobre Maria. Assim, mesmo o texto mais antigo, a Carta aos Gálatas, ditada pelo Apóstolo Paulo no ano 55, alude a ela, sem a nomear: "Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei, Para remir os que estavam debaixo da lei, a fim de recebermos a adoção de filhos". A fórmula "nascido de mulher" é neutra, segundo alguns, enquanto outros notaram que a ausência do nome do pai é surpreendente e, consequentemente, atribuíram-lhe forte significado.

Em quase vinte séculos, a reflexão sobre Maria, desde os mais antigos pensadores cristãos até os apócrifos, e até a evolução da teologia contemporânea, levou aos dois últimos dogmas: em 1854, a Imaculada Conceição de Maria – a única criatura livre do pecado original — e, em 1950, sua Assunção ao Céu "em corpo e alma".

Crenças de fascínio transversal e questões intensamente debatidas por séculos, muito mais do que os títulos na mira do antigo Santo Ofício. Talvez porque Maria, protótipo da humanidade, é também a única presença feminina realmente importante na tradição cristã.

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