A festa acabou. Destaques da semana

Financeirização, corporativismo e o estado neoliberal em crise. "O capitalismo não só não pode crescer, como diminui catabolicamente, isto é, devorando-se, destruindo as bases físicas, naturais e humanas da produção e boicotando e impossibilitando a reprodução social"

Arte: Marcelo Zanotti | IHU

Por: Cristina Guerini | 04 Novembro 2024

Essa semana falamos sobre as eleições municipais, a COP16 sobre a biodiversidade, a insistência em ampliar a exploração de combustíveis fósseis e da derrocada do Planeta. Seguimos acompanhando o cenário dos Estados Unidos, de olho na abertura das urnas no dia 05 de novembro. Israel continua com sua guerra contra Gaza, ampliando a carnificina. Na igreja, final do Sínodo sobre a Sinodalidade e o encontro dos “evangelizadores” na CNBB também estiveram no radar. Esses e outros assuntos nos Destaques da Semana do IHU.

Confira os destaques na versão em áudio.

Fetiche consumista

Como bem define xamã yanomami Davi Kopenawa, somos o “povo da mercadoria”, que não enxerga os limites de planeta e conduz o mundo à catástrofe. Inebriados, não conseguimos ver uma saída para a grande crise capitalista e o mito do crescimento infinito. Como definiu Dário Bossi, estamos “aprisionados pelo fetiche do consumo, ‘objetificamos a natureza e não conseguimos vê-la como uma fibra encadeada e conjunta que gera a vida’”. Ao propor possíveis saída para esse labirinto, o padre Dário enfatizou que “os direitos da natureza são uma das pautas que podem unificar as propostas dos povos originários, das comunidades tradicionais e do mundo urbano”.

Entre as outras “ideias para adiar o fim do mundo”, está o decrescimento, que talvez pode ser um sonho, mas que tem plenas condições de ser realizado. "O decrescimento é uma utopia, sem dúvida, mas uma utopia urgente, radical e desesperadamente necessária para traçar uma linha de fuga do pesadelo capitalista que ameaça as nossas vidas e toda a Vida", sublinhou Fernando Llorente Arrebola. O ativista ambiental ainda adverte: "temos de estabelecer limites à acumulação de capital, porque já provamos que, acima de um certo ponto, é antissocial e antiecológico, e temos de desmantelar, a todo o custo, toda esta bolha financeira que é o verdadeiro cancro metastático da civilização". Na sua análise, Arrebola enfatiza que a festa do capitalismo acabou. 

Extinção em massa, do Homo Sapiens

A COP16 sobre a Biodiversidade acabou e ainda não há um acordo para superar os obstáculos sobre o financiamento para a conservação da natureza. Como a possível extinção em massa que nos aguarda, "será que o homo sapiens é uma dessas espécies ameaçadas?”, questionou Carlos Joly ao falar sobre a cúpula. Em termos pragmáticos, a perda de biodiversidade coincide com a perda de possibilidades de futuro, advertiu a pesquisadora Aliny Pires. Outro tema sensível, debatido há 30 anos, também saiu da COP16 sem uma solução. Em parte, explicou Joly na entrevista que citamos acima, por conta dos interesses financeiros dos países ricos (os mesmos que travam o financiamento): o uso de recursos genéticos e a proteção do banco digital dessas moléculas. 

Dana

Na volta ao mundo dos desastres climáticos, agora foi a vez da costa mediterrânea na Espanha. Com mais de 150 mortes causadas pela tempestade Dana, as chuvas torrenciais causaram estragos no sul e leste do país. Na região de Valência, choveu em oito horas mais que nos últimos 20 meses. Mais um aviso de que os eventos extremos chegaram para ficar e que sim, a “atmosfera está louca”. Não podemos deixar de citar a crise climática que não está nas manchetes: a brutal seca na África continua ameaçando milhões de pessoas com a falta de comida.

O negacionismo bate à porta

Na ânsia de explorar petróleo a qualquer custo na Foz do Amazonas, a presidente da Petrobras, Sylvia dos Anjos adotou o negacionismo como tática ao dizer que os corais da Amazônia são fake news. Isso após o Ibama, mais uma vez, recomendar a rejeição da licença de operação, além de indicar irregularidades em relação aos povos indígenas. As petroleiras continuam gastando muito com marketing para garantir a permanência dos combustíveis fósseis, mesmo diante ao novo recorde de emissões de CO2 na atmosfera e à ameaça de um aquecimento do planeta acima dos 3º C, aumentando a mortalidade e piorando a saúde das pessoas. Enquanto o mundo clama pelo fim dos combustíveis fósseis, os países da Troika das COPs – Emirados Árabes Unidos, Azerbaijão e Brasil – planejam expandir a produção de petróleo e gás em 32% até 2035, desconsiderando os alertas.

“É guerra...

...contra a natureza”, declarou a jornalista Eliane Brum. A fala não é à toa, chegamos a maior degradação da Amazônia dos últimos 15 anos e continuamos a subsidiar os combustíveis fósseis. Enquanto uns tentam apontar as saídas para esse “brete” em que nos metemos, outros tentam nos imobilizar ainda mais. Caso da Assembleia Legislativa do Mato Grosso que está avançando em um projeto que pretende recategorizar a vegetação de tropical como Cerrado, visando a redução das áreas de proteção, e atacam a moratória da soja. Técnicas e subterfúgios não faltam para despistar os crimes ambientais. A bola da vez é desmatar usando veneno para fugir do satélite.  

Giro eleitoral

O pleito municipal terminou e as análises se multiplicam tentando interpretar o que levou a derrota da esquerda. Enquanto alguns acreditam que a esquerda perdeu o diálogo com a periferia ou que o problema é a falta de apoio ao empreendedorismo ou que falta aproximação com os neopentecostais, Lincoln Secco foi além e aposta que “seria preciso confrontar em algum nível a coalizão de rentistas e empresários industriais e do agronegócio que mobilizam o rancor dos assalariados de renda média. Quebrar essa aliança é a verdadeira disputa de hegemonia”. Rodrigo Nunes pontuou os “nós” que nos permitem compreender melhor a situação das eleições municipais. Também publicamos duas entrevistas que aprofundam o debate e trazem diferentes perspectivas para compreender o resultado das urnas: Construir alianças no combate à desigualdade e melhorar a vida dos trabalhadores é o desafio das políticas municipais e Eleições de 2024 trazem vitória do centrão, uma esquerda em reconstrução e o bolsonarismo enfraquecido

Confira outros textos que trataram do assunto:

Giro ao Norte

Na próxima semana os norte-americanos vão escolher o novo presidente. Por lá, a eleição presidencial tem significado o surgimento de uma nova guarda católica conservadora. Não à toa a escolha de Donald Trump para compor sua chapa: J.D. Vance. Segundo explicou a reportagem, trata-se de “um fenômeno discreto, mas real, nos últimos anos, muitos membros da nova guarda conservadora americana estão se convertendo ao catolicismo, potencialmente influenciando o futuro da direita americana a longo prazo”. Uma vitória de Kamala Harris ou de Trump  terá efeitos opostos no cenário geopolítico mundial. Na América Latina, questões como imigração, comércio, estabilidade política e meio ambiente serão diretamente afetadas a depender da escolha. “Os anúncios de Trump estão dizendo aos eleitores que ela representa um risco maior do que ele por sua adesão ao extremismo cultural, que em vez de se preocupar com questões cotidianas, como o custo das compras, ela está obcecada com marcadores bizarros da identidade liberal.”  

Carnificina

Israel avança cada vez mais com sua carnificina e dá um passo além ao banir a agência de ajuda humanitária da ONU em Gaza, UNRWA . O banimento da agência vai privar mais de 100 mil civis, encurralados no norte da Faixa, de receber farinha, além de condenar à morte de um maior número de crianças. O que representa mais uma forma de punição coletiva. O Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, declarou que a presença da agência é indispensável, uma vez que ela é a principal fornecedora de ajuda humanitária aos palestinos. Enquanto isso, o ataque a civis prossegue, o cerco aos hospitais e agentes de saúde  e o acirramento do conflito generalizado no Oriente Médio.

Evangelizadores digitais

Essa semana a CNBB promoveu um encontro com 17 padres que “evangelizam” no ambiente digital. Entre os “evangelizadores” presentes, nomes bastante controversos, como o do padre Paulo Ricardo, um ultraconservador que já teve fake news desmentida pela embaixada da Suécia, apareceu segurando em arma  ao lado do falecido Olavo de Carvalho e faz campanha para a extrema-direita. Pesquisador do tema há muitos anos, o professor Moisés Sbardelotto é categórico ao afirmar que “o evangelista digital permanece fiel às Escrituras e, fundamentalmente, ao Evangelho”. Em artigo publicado essa semana, enquanto o evento estava em curso, Sbardelotto afirmou que o diálogo com figuras midiáticas não é simples. “A dificuldade desse diálogo explicita-se, por um lado, na presença no encontro de presbíteros que atuam em sentido contrário, senão até abertamente contraposto, às próprias diretrizes da CNBB sobre a ação evangelizadora”, assinalou. Em outra análise, Alzirinha Souza questionou qual o tipo de evangelização que a Igreja do Brasil pretende fazer. “Que tipo de anúncio queremos propor para aqueles/as cristãos que se encontram aos cuidados da nossas Igrejas locais?”, pontuou.

Sabor agridoce

Terminou o Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade, realizado em duas etapas no Vaticano. As conclusões foram publicadas no documento final – de sabor agridoce  – e o papa Francisco trouxe mais uma novidade: avisou que não vai elaborar uma exportação apostólica pós-sinodal. O debate esfriou e ficou em aberto na questão do diaconato feminino e dos católicos LGBTQ+. John Allen Jr. fez uma avaliação do resultado.

Desejamos uma boa semana a todos e todas!