Teorizar em primeira pessoa, a prática de liberdade na escrita de bell hooks

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27 Novembro 2023

“Educar é um processo que afeta de dentro para fora, silenciosamente germinando ideias de emancipação, nas palavras de bell hooks, 'capaz de se dirigir diretamente à dor que está dentro das pessoas e oferecer-lhes palavras de cura, estratégias de cura, uma teoria da cura'”, escreve Neli Gomes da Rocha, professora da Escola de Educação e Humanidades da Pontifícia Universidade Católica do Paraná – PUCPR e pesquisadora-visitante do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal, e do Centro de Estudos Africanos da Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique.

O livro Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade, de bell hooks, foi o tema do último encontro da iniciativa Abrindo o Livro – Negritude e novos olhares, que tem como objetivo estimular a leitura e o exercício do debate, lançando questionamentos e luzes sobre o universo das relações étnico-raciais e seus desafios transversais.

A iniciativa do CEPAT, com o apoio de diversos parceiros, ocorreu na noite do dia 23 de novembro, na PUCPR.

Eis a resenha.

Você gosta de descobrir outros mundos através da leitura? Já se perdeu no tempo imerso em algum livro? A inspiração advinda da escrita de alguém pode mudar trajetórias de vida? Homens e mulheres escrevem da mesma maneira? A escrita literária e a escrita acadêmica possuem igual reconhecimento? As questões acima mencionadas são um convite para conhecer uma autora que inspira gerações.

Participantes do debate sobre o livro "Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade", dentro da iniciativa "Abrindo o Livro – Negritude e novos olhares"

Nossa autora teoriza em primeira pessoa, sob a ótica feminina e feminista nos espaços universitários e para além deles, provoca e afeta de diferentes maneiras o campo intelectual e cultural, além de incorporar a dimensão da subjetividade que desafia a perspectiva pretensamente racional do pensar acadêmico. Essas ideias podem ser encontradas na produção de Gloria Jean Watkins, ou como a conhecemos bell hooks. Intelectual afro-americana, professora, escritora, ativista que movimenta o agir antirracista não se limitando ao território dos EUA e sua obra se ramifica pelo mundo.

Em nossa reflexão destinamos maior foco ao livro Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade de bell hooks (WMF Martins Fontes, 2013) e configura leitura revolucionária quando expõe em primeira pessoa a vivência da autora no espaço universitário exercendo a docência na perspectiva da prática libertadora.

Para hooks (2013), “a academia não é o paraíso. Mas o aprendizado é um lugar onde o paraíso pode ser criado. A sala de aula, com todas as suas limitações, continua sendo um ambiente de possibilidades. Nesse campo de possibilidades temos a oportunidade de trabalhar pela liberdade, de exigir de nós e dos nossos camaradas uma abertura da mente e do coração que nos permita encarar a realidade ao mesmo tempo em que, coletivamente, imaginamos esquemas para cruzar fronteiras, para transgredir. Isso é a educação como prática da liberdade”.

Escrever enquanto engajamento no ato de ensinar, transgride e tenciona a própria dinâmica pedagógica do ensino. A intelectual afro-americana dedicou a maior parte da sua vida acadêmica aos estudos decoloniais [1], construindo práticas da educação libertária e engajada. Para a autora, teoria e prática são indissociáveis e a sala de aula é concebida como espaço dialógico e de escuta mútua e atenta.

“Desde o começo, foi a insistência de Freire na educação como prática da liberdade que me encorajou a criar estratégias para o que ele chamava de “conscientização” em sala de aula. Traduzindo esse termo como consciência e engajamento críticos, entrei nas salas de aula convicta de que tanto eu quanto todos os alunos tínhamos de ser participantes ativos, não consumidores passivos” (hooks, 2013).

Algumas temáticas são eloquentes em sua escrita: educação libertária; política, resistência e luta antirracista; multiculturalismo; currículo contra-hegemônico. Procuramos compreender como a autora aborda a relação entre educação e os direitos humanos em seus livros, assim como a sua atuação como ativista e professora universitária.

“A pedagogia engajada foi essencial para o meu desenvolvimento como intelectual, como professora, pois a essência dessa abordagem ao aprendizado é o pensamento. [...] É uma expressão de ativismo político. Pelo fato de nossas instituições educacionais investirem tanto no sistema de educação bancária, os professores são mais recompensados quando seu ensino não vai contra a corrente. A opção por nadar contra a corrente, por desafiar o status quo, muitas vezes tem consequências negativas. E é por isso, entre outras coisas, que essa opção não é politicamente neutra” (hooks, 2013).

Profª Dra. Neli Gomes da Rocha (PUCPR) apresentando "Ensinando a transgredir: a educação como prática da liberdade"

A educação e a cultura movimentam as estruturas sociais através da mudança no agir e no pensar. São alicerces cruciais para a inserção de pautas outrora silenciadas. Educar é um processo que afeta de dentro para fora, silenciosamente germinando ideias de emancipação, nas palavras da autora, “capaz de se dirigir diretamente à dor que está dentro das pessoas e oferecer-lhes palavras de cura, estratégias de cura, uma teoria da cura” (hooks, 2013, p. 97). Neste sentido, quando a autora afirma que a teoria nasce do concreto para entender as experiências vividas e intervir criticamente está propondo educação e direitos humanos na prática, “nenhuma teoria que não possa ser comunicada numa conversa cotidiana pode ser usada para educar o público” (hooks, 2013).

Nesse sentido, a escrita de si é uma costura de ideias e sentimentos inseridos no papel e ganham o mundo. O direito de expressar sentimentos é uma conquista que deve envolver os mais diferentes grupos sociais. Para hooks (2013), “as mulheres têm, antes de mais nada, de provar que são pensadoras, o que é mais fácil quando acatam o protocolo que prega a separação entre o pensamento sério e um sujeito encarnado na história”.

Queremos provocar e situar sobre a produção intelectual de mulheres, negras, e construções emancipatórias de agir e pensar inspirando as novas gerações. Para bell hooks (2013), “aprendemos desde cedo que nossa devoção ao estudo, à vida do intelecto, era um ato contra-hegemônico, um modo fundamental de resistir”, e continua: “o mais importante em meus livros é a substância e não quem sou eu”. Por isso, a provocação na escrita de seu nome – bell hooks – utilizando letras minúsculas.

Nota

[1] A perspectiva decolonial se constitui em um importante movimento de renovação epistemológica para a renovação crítica e utópica das ciências sociais na América Latina no século XXI. A mesma vem sendo fortalecida a partir do final da década de 1990 com a formação do Grupo Modernidade/Colonialidade (M/C), formado por diversos intelectuais latino-americanos situados em diversas universidades das Américas (Ballestrin, 2013).

Referências

BALLESTRIN, Luciana. A América latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, n. 11, Brasília, maio-agosto de 2013, p. 89-117.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da tolerância. Organização, apresentação e notas Ana Maria Araújo Freire. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2013.

FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis. São Paulo: Paz e Terra, 2014.

hooks, bell. Ensinando a transgredir: a educação como prática de liberdade. Tradução de Marcelo Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013.

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