Cleptocracia, um histórico modo de governar. Artigo de Edelberto Behs

Foto: Divulgação | Polícia Federal

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24 Agosto 2023

"Quem é capaz de ludibriar o Estado no pouco, explorando subalternos com salários – nas rachadinhas -, mostra o quanto foi capaz de fazer quando no cargo mais elevado da nação", escreve Edelberto Behs, jornalista.

Eis o artigo. 

Depois da revista Veja anunciar na capa que o tenente-coronel Mauro Cid confessaria a venda do Rolex – segundo o seu advogado que, entrementes, já afirmou que não era bem isso -, o capitão saiu da toca e disse, em entrevista para O Estado de S. Paulo, que o seu ajudante de ordens tinha autonomia. Ou seja, mostrou o que sempre foi: tirou o corpo fora e colocou a bomba nas mãos dos outros. É covardia?

Então, imaginemos, o ajudante de ordens viu rolando pelo palácio um Rolex e pensou: “vou vender, fazer uns cobres para o meu capitão!” E assim se fez, para “surpresa” do capitão.

O caso das joias é instigante, uma negociata que não passa, aliás, de uma extensão, mais sofisticada é verdade, das famosas “rachadinhas”. Os patridiotas que saíram às ruas sob o mote “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, o que têm a dizer quando mensagens descobertas em celulares deixam à mostra o comércio diamantino do capitão e dos militares do “meu exército”?

Estranho é o silêncio do Exército que vê envolvido gente de suas fileiras, da alta patente, arrastados na lama das negociatas e ficar em silêncio. Ainda faltam provas? Então, que se aprofundem as investigações para chegar além do fundo do poço.

Constrangedor é o silêncio desses pastores que do alto dos púlpitos somavam-se às vozes do capitão com um dos seus versículos preferidos (João 8,32) “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O Brasil está conhecendo uma verdade que, imagino, como seria escamoteada caso Luiz Inácio Lula da Silva não tivesse vencido as eleições presidenciais de 2022!

E a angelical primeira-dama, que via o capeta sentado na cadeira presidencial se o seu marido não vencesse a corrida eleitoral? Esqueceu uma caixa de papelão contendo joias embaixo da cama em Londres, “destinadas” ao rei Charles! E o capitão, que não se cansava de lembrar que as eleições eram a luta do “bem contra o mal”. Claro, o bem era ele, o mal, o adversário.

Quem é capaz de ludibriar o Estado no pouco, explorando subalternos com salários – nas rachadinhas -, mostra o quanto foi capaz de fazer quando no cargo mais elevado da nação.

O biólogo Jared Diamond, autor de “Armas, Germes e Aço”, traz um conceito interessante no seu livro: a cleptocracia. Ele define a cleptocracia como a cobrança de impostos de um poder central que, no entanto, transfere a maior parte dessa riqueza líquida do Estado para as classes sociais superiores, devolvendo pouco ao povo. É aplicado há séculos mundo afora. “Um mecanismo para os cleptocratas conquistarem o apoio público é elaborar uma ideologia ou uma religião que justifique a cleptocracia”, explicou.

Tem alguma semelhança com o Brasil dos últimos anos? E ainda tem patridiotas que disparam pix (atenção, é dinheiro e não balas, como gosta o capitão) ao inelegível, que se gaba de ter faturado 17 milhões de reais num semestre. Deve ser para o programa “Meu Rolex, minha vida”!

Cabe perguntar: quantas pequenas e médias empresas brasileiras conseguem apresentar um lucro de 17 milhões de reais em seis meses? Por que o capitão recebeu presentes tão valiosos de governos orientais? Outros mandatários estrangeiros foram agraciados da mesma forma?

Conheceremos a verdade? Politólogos terão que desenvolver mais um conceito: a famigliacracia.

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