Isolamento: o mal escuro. Artigo de Massimo Recalcati

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09 Mai 2023

"O circo da sociedade do espetáculo e do consumo, do individualismo e do lucro, tende a isolar todos aqueles que não têm condições de manter um nível adequado de desempenho".

A opinião é de Massimo Recalcati, psicanalista italiano e professor das universidades de Pávia e de Verona, publicada por La Stampa, 05-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Sabemos que existe uma força e uma poesia na solidão. Sabemos que sem a “capacidade de ficar sozinhos”, como dizia o grande psicanalista Winnicott, não existe possibilidade de gerar laços sociais fecundos. Sabemos também que na solidão o Outro permanece sempre presente, mesmo na forma de ausência. É a solidão que muitas vezes acompanha a sublimação artística ou espiritual que, como tal, são experiências altamente criativas. Por outro lado, a fisionomia do isolamento parece ser totalmente diferente. Aqui não há nenhuma força nem poesia. Aqui não há mais nenhum Outro, senão o impulso a que seja zerado. Aqui não há no horizonte nenhuma experiência criativa, mas apenas uma mortificação da vida. De fato, o isolamento aniquila a dimensão social da nossa existência.

Enquanto a solidão pode brotar de uma escolha vital, o isolamento parece mais uma condição que se sofre, fruto de uma impossibilidade de escolha, de um naufrágio, de um abandono da existência. Em nosso tempo, o isolamento tornou-se um verdadeiro flagelo social. Isso significa que a nossa condição de vida que assim se apresenta mais exposta aos estímulos e contatos sociais em comparação com o passado, corre o risco de ser apenas uma aparência.

Em uma sociedade onde a vida média é extraordinariamente alongada, o aumento da população idosa está associado com muita frequência ao afastamento dos laços sociais, da comunidade, da vida. Esse afastamento é ainda mais potencializado quando vem associado a condições de precariedade econômica e fragilidade subjetiva que muitas vezes acompanham a vida dos nossos idosos. Com o trágico acréscimo de que a agressividade darwiniana da Covid os atingiu com particular virulência dizimando-os literalmente, agravando a sua condição de abandono. Mas não são apenas os idosos que experimentam o aperto mortal do isolamento. O circo da sociedade do espetáculo e do consumo, do individualismo e do lucro, tende a isolar todos aqueles que não têm condições de manter um nível adequado de desempenho.

O isolamento torna-se então uma espécie de prisão-refúgio que protege das feridas e das humilhações imposta por uma vida social concebida como uma competição sem limites. Não por acaso são muitos os jovens que abrem mão da liberdade de se retirar, de sair do carrossel infernal de uma vida que obriga a vencer. A terrível experiência da pandemia exacerbou essa tendência que, no entanto, já estava presente em todo o Ocidente. O isolamento não atinge apenas os idosos e os jovens às margens do ciclo produtivo, mas também aqueles que aparecem como seus protagonistas.

É, por exemplo, o isolamento daqueles que vivem exageradamente empenhados em seu trabalho, mas que não são mais capazes de cultivar laços generativos de qualquer tipo. É o isolamento de muitos - homens e mulheres - que tendo consagrado sua vida à profissão percebem que deixaram terra arrasada ao seu redor. Nesse sentido, trata-se de uma praga social que reflete o outro lado do discurso do capitalista. É a sombra densa que segue a aparente euforia permanente a que parece nos obrigar a civilização hipermoderna. Ela pode encontrar seu próprio paradigma clínico na figura inquietante dos acumuladores compulsivos (de acordo com o MSD "distúrbio de acumulação") que abarrotam suas próprias casas de objetos de todos os tipos, desprovidos de qualquer utilidade e amontoados desordenadamente. Trata-se de objetos mortos, despidos de qualquer finalidade, de objetos desvitalizados que têm como única finalidade preencher um vazio insuperável. Mas, na realidade, esse preenchimento de forma alguma subtrai a vida do seu isolamento, mas o aumenta ainda mais. É a triste verdade que acompanha, em geral, a chamada sociedade do consumo.

As coisas tomaram o lugar das pessoas, mas sua presença em excesso, ao invés de construir laços, os desfaz tornando-os impossíveis da mesma forma que se torna impossível mover-se nos corredores e quartos das casas abarrotadas de objetos mortos acumulados por pessoas com transtorno de acumulação. É o mesmo que acontece, para citar outra figura clínica típica do isolamento hipermoderno, na hiperconexão tecnológica. O ideal positivo da conexão sistêmica se reverte aqui em uma desconexão dramática e silenciosa alcançada justamente como resultado paradoxal de uma hiperconexão ilimitada, sem pausas, sem trégua. É provável que o isolamento se torne, se já não o fez, a característica antropológica mais inquietante da civilização hipermoderna. A multiplicação ilimitada dos "contatos" e a expansão da tecnologia que os possibilita mascaram a realidade escabrosa dessa nova condição de vida

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