Com a guerra se aproxima também o fim do mundo

Explosão das bombas nucleares lançados no Japão pelos Estados Unidos. (Foto: Reprodução | Universo Racionalista)

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30 Janeiro 2023

Por 75 anos, o Doomsday Clock, o Relógio do Juízo Final tem sido uma metáfora das ameaças que pairam sobre a existência humana. Esse relógio sinaliza o quanto estamos perto de destruir o mundo com tecnologias perigosas de nossa criação. Quando foi criado, em 1947, o posicionamento do Relógio do Juízo Final baseava-se na ameaça representada pelas armas nucleares, o maior perigo da época. Hoje foi regulado para o horário mais próximo da meia-noite de todos os tempos.

A reportagem é de Francesco Sylos Labini, publicada por Il Fatto Quotidiano, 27-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Leo Szilard, o físico húngaro que foi junto com Enrico Fermi no centro do Projeto Manhattan, era fortemente contrário o uso da bomba na guerra. Junto com o Prêmio Nobel James Franck e outros cientistas do Projeto, assinou um documento argumentando que os Estados Unidos deveriam anunciar uma demonstração pública da arma em uma área desabitada e depois usar a ameaça para pressionar o Japão a se render. Infelizmente, como se sabe, em agosto de 1945, os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki. Szilard e muitos outros cientistas do Projeto se reuniram imediatamente após esses eventos horríveis; formaram o Bulletin of the Atomic Scientists com a missão de "fornecer ao público, aos responsáveis políticos e aos cientistas as informações necessárias para reduzir as ameaças antrópicas à nossa existência". Por 75 anos, o Bulletin continuou a ser uma organização independente e sem fins lucrativos, publicando um site de acesso gratuito e uma revista bimestral.

Em 2007, o Boletim passou a incluir em suas deliberações de posicionamento dos ponteiros também as catástrofes causadas pelas mudanças climáticas e pelas tecnologias mais ameaçadoras, entre as quais a biossegurança e cibersegurança. O Conselho de Ciência e Segurança do Boletim é um grupo de 18 especialistas, com formações diversas que vão da política à diplomacia, da história militar à ciência nuclear, se reúne duas vezes ao ano e em janeiro anuncia o novo ajuste dos ponteiros. O ajuste mais distante da meia-noite foi de menos 17 minutos: aconteceu em 1991, após a queda da União Soviética e a assinatura do Tratado de Redução de Armas Estratégicas.

Até recentemente, o relógio havia sido acertado duas vezes para dois minutos para a meia-noite: primeiro em 1953, quando os EUA e a URSS testaram armas termonucleares, e depois em 2018, devido à "ruptura da ordem internacional" dos atores nucleares, além da contínua falta de ação sobre as mudanças climáticas. Depois, em 2020, o relógio se aproximou mais do que nunca: 100 segundos para a meia-noite. Este ano, o Comitê adiantou o relógio principalmente (embora não exclusivamente) devido aos crescentes perigos de guerra na Ucrânia. O relógio está agora a 90 segundos da meia-noite, o momento mais próximo da catástrofe global que já tenha ocorrido.

Não é mais uma questão de debate se o conflito na Ucrânia é ou não por procuração entre OTAN e Rússia.

A ideia de que poderia haver uma guerra nuclear limitada entre as duas superpotências é simplesmente um conto de fadas para tranquilizar a opinião pública. A única saída dessa situação é a via diplomática, mas parece que os diplomatas hoje estejam mais engajados na guerra. Pelo contrário, muitos pensam, com a primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, que “não há outra possibilidade senão a vitória da Ucrânia”. Cabe nos perguntar: há adultos na sala? Parece que não, aliás, parece que em pouco tempo a lição do pós-guerra sobre os equilíbrios internacionais tenha desaparecido.

No ano passado, graças a uma propaganda invasiva, houve o envenenamento dos poços do discurso público para tornar a conclusão que a única solução é a guerra aceitável e necessária. Essa tem sido a tarefa da maior parte das mídias: substituir uma análise racional pela mensagem emocional de que sim, será um pouco difícil, mas é preciso dar uma lição a esses russos, caso contrário, estará liberada a lei do mais prepotente. No fundo, essa é a mensagem hipócrita e tresloucada que passou apoiando-se no anticomunismo ou, de toda forma, na russofobia que está muito mais enraizada e que remonta a vários séculos atrás. Não devemos cair na armadilha de ir atrás da promessa da nova arma que mudará o rumo da guerra e devemos fazer toda a pressão possível para que os ponteiros do relógio não se aproximem ainda mais da meia-noite. Ao contrário do que afirma o secretário da OTAN, Jens Stoltenberg, "as armas são - de fato - o caminho para a paz", preferimos recordar a lição de George Orwell que usou quase as mesmas palavras, "a guerra é paz", para pintar uma imagem distópica do mundo que gostaríamos de ver apenas no cinema.

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