Assédio, cinema e hipocrisia

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24 Janeiro 2023

Parece-nos que a reflexão de Lucetta Scaraffia, mesmo que se aprofunde nos assédios sexuais em áreas específicas, sem entrar no complexo mundo da Igreja Católica, é sempre muito útil para refletir sobre a realidade do próprio fenômeno, mas no âmbito das comunidades eclesiais. Inclusive porque se trata de assédio que atinge em grande parte mulheres consagradas, religiosas e, pelo que emerge em algumas investigações, envolve não poucas leigas que prestam serviço, especialmente doméstico, em comunidades de presbíteros.

O artigo de Lucetta Scaraffia é publicado por La Stampa, 18-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

A opinião pública parece espantada, ou melhor, indignada com os dados que a associação Amleta recolheu sobre os assédios sexuais e, em particular, sobre o fato de 40% dos assediadores parecerem ser diretores de cinema. Mas não ocorre a ninguém, a esse respeito, que talvez as atrizes sejam as mais propensas a falar por óbvias razões de publicidade? E talvez haja também outras categorias de mulheres que exercem outras profissões - advogadas, magistradas, jornalistas, professoras universitárias - que talvez tenham menos interesse em fazê-lo, mas também foram alvo de assédio de forma maciça?

Acho que o fenômeno dos assédios nas décadas seguintes à Segunda Guerra Mundial tenha sido endêmico e, portanto, impossível de quantificar e muito menos punível hoje. Foi a reação de uma classe de homens no poder que de repente viu mulheres jovens, muitas vezes bonitas e geralmente sem informações, irromperem em sua esfera profissional. Um misto de irritação pela imprevista concorrência somava-se assim à percepção nunca sequer sonhada de novas possibilidades de transgressão sexual: aquelas transgressões que até então se limitavam às empregadas domésticas e, mais em geral, às mulheres pertencentes às camadas mais baixas da sociedade. Quase todos se aproveitaram disso, mas desta vez, ao contrário do que acontecia com as empregadas domésticas, tiveram de oferecer algo em troca: ofertas de trabalho, promoções, essencialmente uma facilitação da carreira. E, se quisermos ser honestas, isso não foi ainda assim uma melhoria? É preciso então refletir sobre o outro lado do problema, ou seja, que não foram poucas as mulheres que ganharam com o sistema que acabei de mencionar: fazendo carreira por esse caminho, uma carreira rápida e às vezes pouco merecida. Às vezes, ao contrário, foi apenas um empurrão que ajudou algumas mulheres merecedoras que, em um mundo de homens, teriam tido dificuldades em abrir o caminho. Os casos que tenho em mente - e são muitos, mesmo só no ambiente universitário - são bem diferenciados. Conheço muitas, que às vezes encobriram os assédios com um véu de relação amorosa, outras que às vezes os esconderam. Mas depois de fazer carreira, quem se lembra do que aconteceu?

Devo dizer a verdade: num país como o nosso, onde a concorrência meritocrática é pouco praticada, e onde muitas vezes são os filhos que usufruem dos atalhos privilegiados nas profissões exercidas com sucesso pelos pais - já repararam, por exemplo, em quantos filhos de professores universitários exercem a mesma profissão? - a promoção, digamos assim por ‘mérito sexual’, me parece menos desonrosa. Aquelas pobres mulheres quase sempre tiveram que ceder a homens mais velhos, quase nunca de aparência agradável, um tanto prepotentes: em certo sentido, elas mereceram muito mais sua promoção do que tantos filhinhos de papai. Claro, há também aquelas que ficaram presas nos escalões mais baixos porque não se ativeram ao jogo, aquelas que tentaram subir honestamente e não conseguiram, e isso sem dúvida constitui uma verdadeira injustiça. Mas não esqueçamos: a chegada das mulheres às profissões masculinas foi uma verdadeira batalha, travada sem tréguas por ambos os lados. A história foi esta.

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