Carta aos que protestam pela paz: livres juntos da guerra. Artigo de Matteo Zuppi

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04 Novembro 2022

"Os caminhos para a paz realmente existem, porque o mundo não pode viver sem paz. Agora estão escondidos, mas existem. Não vamos esperar por uma tragédia pior. Tentemos ser nós os primeiros a percorre-los, para que outros tenham a coragem de fazê-lo", escreve Matteo Zuppi, cardeal arcebispo de Bolonha e presidente da Conferência Episcopal Italiana – CEI, em artigo publicado por Avvenire, 03-10-2022. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

Cara amiga e caro amigo, estou feliz que você esteja se mobilizando pela paz. Seja qual for sua idade e condição, deixe-me chamá-lo de "você".

As guerras sempre começam porque não se conseguem mais conversar de maneira amigável entre as pessoas, como aconteceu com os irmãos de José que tinham inveja de um deles, José, em vez de desfrutar a alegria de tê-lo como irmão. Assim Caim viu apenas um inimigo em seu irmão Abel.

Estou usando o tratamento "vocês" porque, como irmãos, estamos assustados por um mundo cada vez mais violento e guerreiro. Por isso não podemos ficar parados. Alguns dirão que se manifestar é inútil, que existem problemas maiores e explicarão que sempre há algo mais importante a fazer. Quero dizer-lhe, seja você quem for - porque a paz é de todos e precisa de todos – que, pelo contrário, é importante que todos vejam quão grande é o nosso desejo de paz. Depois cada um acertará as contas consigo mesmo. Nós não queremos violência e guerra. E lembre-se que você também se manifesta pelos muitos que não podem fazê-lo. Pense: ainda existem lugares no mundo onde falar de paz é crime e se a pessoa se manifestar é presa! Grite pela paz também por elas!

Quantos morrem dramaticamente por causa da guerra. Os mortos não são estatísticas, mas pessoas.

Não queremos nos acostumar com a guerra e ver imagens devastadoras. E sem esquecer quanta violência permanece invisível nas muitas guerras realmente esquecidas. É por tudo isso que pedimos com toda a força de que somos capazes: “Socorro! Estão mal! Estão morrendo! Vamos fazer alguma coisa! Não há tempo a perder porque o tempo significa mais mortes!" A dor torna-se um grito de paz.

A paz coloca em movimento. É um caminho. “E, além disso, ladeira acima”, ressaltava Dom Tonino Bello, que acrescentava: “É preciso uma revolução de mentalidade para entender que a paz não é algo dado, mas uma conquista. Não um bem de consumo, mas o produto de um compromisso. Não uma linha de partida, mas uma faixa de chegada”.

Os caminhos para a paz realmente existem, porque o mundo não pode viver sem paz. Agora estão escondidos, mas existem. Não vamos esperar por uma tragédia pior. Tentemos ser nós os primeiros a percorre-los, para que outros tenham a coragem de fazê-lo. Vamos fazer entender de que lado queremos estar e para onde precisamos ir. E isso é importante para que ninguém diga que o sabíamos, mas não dissemos nem fizemos nada.

Você não é ingênuo. Quem dá de ombros e diz que tudo é inútil não é realista. Queremos dizer que a paz é possível, indispensável, porque é como o ar para respirar. E nestes últimos meses ar está faltando bastante.

É realmente verdade que matar um homem significa matar um mundo inteiro. Então, quantos mundos temos que ver acabados para parar?

"Quantas balas de canhão precisam voar antes de serem banidas para sempre?" "Quantas orelhas um homem precisa ter antes que possa ouvir as pessoas chorarem?" "Quantas mortes serão necessárias até que ele saiba que pessoas demais morreram?" "Quando o homem poderá aprender a viver sem matar?"

Você, eu e muitos não queremos lutos piores, talvez definitivos para o mundo, antes de parar essas guerras, aquela da Ucrânia e todas as outras peças da única guerra mundial. As mortes já são demasiadas para não entender! E se continuar, não será sempre pior?

Aqueles que lutam pela paz são realistas, na verdade são os verdadeiros realistas porque sabem que não há futuro se não juntos. É a lição que aprendemos com a pandemia. Não queremos esquecê-la. O único caminho é nos redescobrirmos como “Fratelli tutti”. Você faz bem em não carregar nenhuma bandeira, apenas você mesmo: a paz reúne e ilumina todas as cores.

Pedir a paz não significa esquecer que há um agressor e um agredido e, portanto, reconhecer uma responsabilidade precisa. O Papa Francisco com muita insistência pediu para parar a guerra. Pouco tempo atrás, ele disse: "Vamos pedir ao presidente da Federação Russa que pare, também por amor ao seu povo, essa espiral de violência e morte e vamos pedir ao presidente da Ucrânia que esteja aberto a sérias propostas de paz". Então peça a paz e, com ela, a justiça.

A humanidade e o planeta devem se libertar da guerra. Vamos pedir ao Secretário-Geral das Nações Unidas que convoque com urgência uma Conferência Internacional pela Paz, para restabelecer o respeito ao direito internacional, para garantir a segurança mútua e comprometer todos os Estados a eliminar as armas nucleares, reduzir os gastos militares em favor de investimentos que combatam a pobreza. E vamos pedir à Itália que ratifique o Tratado de Proibição de Armas Nucleares da ONU não apenas para impedir a lógica do rearmamento, mas porque estamos cientes de que a humanidade pode ser destruída.

Deus, cujo nome é sempre o da paz, liberte os corações do ódio e inspire escolhas de paz, especialmente naqueles que são responsáveis pelo que está acontecendo. Nada se perde com a paz. O homem de paz é sempre abençoado e se torna uma bênção para os outros.

Meu abraço fraterno.

Matteo Zuppi

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