28° Domingo do tempo comum – Ano C – A fé que nasce da Palavra floresce na gratidão

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07 Outubro 2022

 

"A gratidão do samaritano curado nos recorda a gratuidade das coisas que nos humanizam e nos curam: a arte, a religião, a beleza das coisas, a natureza, as relações... Num mundo tão pragmático, falta-nos lançar um grito de admiração e de ação de graças diante do imenso amor de Deus que nos supera. A liturgia é uma experiência que nos conecta com esta lógica. O belo, a música, o ritmo, o espaço sagrado, o silêncio, os gestos, o encontro, a escuta, tudo pode nos conduzir a vivência do amor de Deus por toda a humanidade. E, podermos como o samaritano, louvar e glorificar a Deus e nos renovar e fortalecer para a missão na vida."

 

A reflexão é de Soraia Dojas Melo Silva Carellos. Ela possui graduação em psicologia pela PUC Minas (1983) e mestrado em psicologia pela Universidade do Rio de Janeiro - UFRJ (2001). É membro da Rede Celebra, coordenadora da Equipe de Liturgia na Paróquia Igreja de Santana Serra em Belo Horizonte, onde também participa de grupos de leitura orante da Palavra.

 

 

Leituras do dia

 

Primeira Leitura: 2Rs 5,14-17
Salmo: 97,1-4
Segunda Leitura: 2Tm 2,8-13
Evangelho: Lc 17,11-19

 

Neste 28º domingo do tempo comum, fazemos a memória da salvação que Deus manifestou em seu Filho. Jesus continua seu caminho para Jerusalém (Lc 17,11-19), entrando agora na terceira e última etapa. Caminho em que Ele enfrenta dificuldades e confrontos e ensina a seus discípulos, preparando-os para os desafios e exigências de ser um seguidor seu.

 

Faz o caminho entre a Samaria, considerada infiel, inimiga e a Galileia. Ao entrar é abordado à distância por dez leprosos, que são obrigados a ficar fora do povoado. Importante lembrar que as leis contidas no Levítico determinavam que leprosos deveriam viver fora do povoado, eram considerados impuros. Viviam um grande sofrimento com a doença, e o maior deles, a exclusão do convívio com as pessoas. A experiência do abandono era uma constante. Juntos, solidários em seus sofrimentos, clamam a Jesus por compaixão. Eles usam em grego o mesmo verbo que em nossa liturgia resultou na súplica “tem piedade”, no nosso texto traduzido por compaixão. Algo como “olha Jesus, para minha dor e meu sofrimento”. O que primeiro nos chama a atenção é que entre eles há judeus e um samaritano. A dor, a doença, os une, as diferenças são superadas. Eles chamam Jesus pelo nome, que significa “Deus salva”, o reconhecem mestre. A palavra mestre (em grego epistátes), não refere-se apenas a um detentor do saber, mas a uma autoridade plena, a alguém que está acima e supervisiona tudo, que detém um conhecimento superior. Por isso ele dispõe de um ensinamento que recompõe a vida, a ponto de curar. Ao detentor dessa Palavra que mais que instruir, salva os que a ele recorrem. Eles pedem, aos gritos, a compaixão de Jesus que passa.

 

Ao ser abordado Jesus os envia aos sacerdotes e eles obedecem. Escutam a ordem de Jesus e ao percorrer o caminho vão sendo purificados. A confiança na Palavra vai crescendo, como na vida vamos nos transformando, e deixando-nos transformar, não é de imediato. É preciso caminhar.

 

O texto continua e nos leva além, quando um deles ao perceber-se curado, volta a Jesus, lhe agradece e glorifica a Deus. O evangelho frisa que ele é um samaritano, pertencente a um grupo um apóstata da religião judaica. Algo vai além do milagre da cura e desemboca na fé que permite reconhecer que a graça vem de Deus, como faz o único curado que retorna para agradecer, prostrando-se diante do Mestre. Jesus ao recebê-lo, pergunta pelos os outros nove que foram aos sacerdotes. Esta pergunta provoca em nós uma inquietação. O que aconteceu de diferente entre o que volta e os que não voltam? Parece que o samaritano dá um passo além, superando o esquema da religião judaica quando volta a Jesus. É necessário a fé que nasce da Palavra, cresce no caminho e floresce na gratidão. Aos nove faltou o último passo, pois a gratuidade é o segredo de quem agradece. Não há mérito em questão, apenas amor, bondade e compaixão...

 

Esta situação apresentada no evangelho de hoje aponta para a questão da graça de Deus, da fé e da gratidão.

 

Jesus diz a ele: “Levanta-te e vai. Tua fé te curou”: o verbo levantar (anístemi) sugere algo mais que uma cura, mas um restabelecimento da vida como superação da morte. O encontro com Jesus, a adesão a ele nos põe em prontidão. Diante deste grande e gratuito dom de Deus, aderir pode ou não ser a nossa resposta, como aconteceu com os demais curados. O samaritano respondeu com um sim profundo, o seu retorno diz o seu reconhecimento de quem é Jesus, o Salvador, e a graça que vem de Deus. É um ato de fé, podemos experimentar pelas palavras do texto quão profunda é sua transformação e gratidão. Escutar a Palavra e estar em íntima relação com Jesus é o que pode nos dar a direção a seguir e fortalecer-nos para a missão. Deus é quem cura. Na primeira leitura é comovente a gratidão do general sírio, Naamã. E a relação com Eliseu, o profeta que quer todo o tempo que Deus apareça, o agir gratuito de Deus, ao não aceitar recompensas. São dois estrangeiros, o que nos leva a supor uma liberdade maior frente aos condicionamentos religiosos daquele tempo. Será que por não terem os preceitos religiosos ficam mais livres para perceber a ação de Deus? Vivemos hoje no nosso tempo como se tudo fosse nosso, e mérito nosso. As pessoas se apropriam da religião e se tornam a medida para julgar as outras pessoas. Na relação com o planeta, com a natureza nos colocamos como proprietários. E, ainda, dividimos só para alguns. Tudo é graça e para todos. Serem dois estrangeiros nos lembra que a salvação é para todas as nações. Não há privilégios. Parece tudo tão distante do que experimentamos nesta vida. Muita posse, muita desigualdade, muita crença em si mesmo, sem nenhum espaço para Deus.

 

A segunda leitura (2Tm 2,8-13) nos traz o testamento de Paulo que confia a Timóteo o anúncio da ressurreição do Senhor. É um convite a sermos firmes na escuta da Palavra e na adesão ao Cristo, assim ressuscitaremos com Ele. E o final nos impacta, porque nos lembra como podemos ser infiéis. A fidelidade e a graça são sempre de Deus. O amor ao Evangelho deve nos mover a nos empenhar cada vez mais na percepção de nós mesmos e na escuta da Palavra.

 

A gratidão do samaritano curado nos recorda a gratuidade das coisas que nos humanizam e nos curam: a arte, a religião, a beleza das coisas, a natureza, as relações... Num mundo tão pragmático, falta-nos lançar um grito de admiração e de ação de graças diante do imenso amor de Deus que nos supera. A liturgia é uma experiência que nos conecta com esta lógica. O belo, a música, o ritmo, o espaço sagrado, o silêncio, os gestos, o encontro, a escuta, tudo pode nos conduzir a vivência do amor de Deus por toda a humanidade. E, podermos como o samaritano, louvar e glorificar a Deus e nos renovar e fortalecer para a missão na vida.

 

Essa gratuidade do ato salvífico de Deus nos converte em buscadores da vida plena para os outros em ações igualmente gratuitas e capazes de promover a saúde ou, em termos religiosos, a salvação. São muitas as iniciativas que gratuitamente se organizam em favor do próximo: clínicas de medicina natural, pastoral da saúde, pastoral dos enfermos, hospitais mantidos por iniciativa popular e voltados para populações pobres, profissionais de saúde em trabalhos voluntários e outros ... Tudo isso é assumido e compreendido à luz da fé como prolongamento da ação salvífica de Cristo e de sua compaixão.

 

Gostaria de terminar destacando os inúmeros verbos que a aparecem neste trecho do Evangelho. Verbo é ação, é movimento. Que nunca deixemos de caminhar, de nos inquietar. O encontro com Jesus na Eucaristia, a escuta da palavra, a partilha e caminho com os irmãos são fundamentais na transformação de cada um de nós e do mundo. Os outros “nove” são responsabilidade nossa, é preciso ir ao encontro deles e anunciar, não basta cumprir a lei, é preciso reconhecer a graça e transpor fronteiras. Essa proporção de nove para um, mostra o que faz a diferença em nossa vida... pode ser que não demos atenção suficiente às coisas e pessoas que, por outras vias, nos dão acesso á plenitude e à salvação.

 

 

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