26º domingo do tempo comum – Ano C – Subsídio exegético

23 Setembro 2022

 

Subsídio elaborado pelo grupo de biblistas da Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana – ESTEF

Dr. Bruno Glaab
Me. Carlos Rodrigo Dutra
Dr. Humberto Maiztegui
Me. Rita de Cácia Ló

 

Leituras do dia

 

Primeira Leitura: Am 6,1a.4-7
Segunda Leitura: 1Tm 6,11-16
Salmo: 145, 7-10
Evangelho: Lc 16,19-31

 

O Evangelho

 

No Evangelho de hoje Jesus continua seu ensinamento sobre o perigo das riquezas e a necessidade de cada um comprometer-se pessoalmente com os valores do Reino de Deus. A parábola tem duas partes: o que acontece aqui neste mundo (vv. 19-21) e o que acontece no outro mundo (vv. 22-30).

 

Nos vv. 19-21, Jesus exagera na descrição do rico, para mostrar que ele é alguém muito nobre e importante na sociedade: rico, vestes de púrpura e linho fino, baquetes todos os dias (v. 20). Jesus também exagera na descrição do pobre, para mostrar que ele está na extremidade oposta do rico, alguém considerado descartável: pobre, chamado Lázaro, coberto de feridas e passa fome todos os dias (v. 21). Nosso olhar vai da extrema riqueza à miséria extrema. Portanto, a realidade apresentada pela parábola é um contraste escandaloso.

 

O pobre se chama Lázaro. Este nome em hebraico – ‘El’azar’ – significa “Deus socorreu”. Desprezado pelo rico, o pobre será socorrido por Deus. Em outras palavras, o nome do pobre é o resumo da parábola! É importante observar que o rico conhece o pobre por seu nome (vv. 23.24), manifestando assim que o conhecia bem e que, portanto, sua omissão era consciente.

 

Na época de Jesus, havia uma mentalidade segundo a qual a pobreza era o castigo por algum pecado e a riqueza era a recompensa por uma vida honesta e exemplar. Jesus rompe com esta mentalidade. Pobreza e riqueza não podem ser vistas como a retribuição em troca de um comportamento. Há riquezas injustas, assim como há sofrimentos não merecidos.

 

Nos vv. 22 e 23 continua o contraste, mas agora invertido. Antes, nos vv. 19-21, Lázaro está jogado, comendo o que cai da mesa do rico; agora o mesmo Lázaro é levado pelos anjos para o seio de Abraão. Diferentemente, o rico agora é rebaixado e sepultado e está na mansão dos mortos, atormentado por uma visão: Abraão com Lázaro no seu seio (v. 23). A frase “no seio de Abraão” pode ser entendida em dois sentidos. Em primeiro lugar, em sentido familiar, afetivo, da mesma forma que o Filho Unigênito está no seio do pai, em Jo 1,18. O segundo sentido é o honorífico, isto é, um lugar de honra em um banquete, como o discípulo amado, que se reclina no seio de Jesus, em Jo 13,23. Os dois sentidos não são excludentes. Ou seja, Lázaro, que durante sua vida foi excluído dos banquetes do rico, agora ocupa o lugar íntimo e de honra no banquete do pai Abraão.

 

O rico faz três solicitações a Abraão.

 

No v. 24, ele clama por piedade e pede água em meio à sua aflição nas chamas. O que mais deve nos preocupar nesta parábola é que ela não diz que o rico é um explorador ou um criminoso. O que a parábola denúncia é modo de vida extravagante de alguém que nem percebe o pobre que jaz à sua porta. Esta é a injustiça indireta causada pelo egoísmo.

 

Na segunda solicitação, o rico quer que Abraão envie alguém à casa de seu pai (v. 27). O pedido do rico é em benefício dos irmãos (v. 28). A resposta de Abraão é curta e grossa: Eles têm Moisés e os profetas. Que os ouçam! (v. 29). Não é fácil imaginar cinco milionários consultando a Bíblia, na busca da mensagem social da legislação do Pentateuco e dos profetas!

 

O rico insiste e sua terceira solicitação repete a segunda: Mas, se alguém dentre os mortos for até eles (v. 30). A resposta de Abraão – Se eles não ouvem Moisés nem os profetas, eles não serão persuadidos nem mesmo se alguém dos mortos ressuscitar – corrige os que estão na Igreja à espera de uma intervenção extraordinária e se esquecem da seriedade das prescrições da revelação relativa ao amor, ao serviço ao próximo e à partilha com os pobres.

 

Em resumo, o contraste entre o esbanjamento do rico e a extrema penúria de Lázaro mostra que Jesus quer alertar seus discípulos sobre o perigoso poder que a riqueza tem: ela deixa o ser humano cego e indiferente ao sofrimento dos outros. O rico é condenado porque as riquezas o tornaram insensível ao próximo e o distanciaram do verdadeiro Deus. A ilusão da autossuficiência, que faz o homem e a mulher não sentirem necessidade de Deus, constitui uma forma de impiedade.

 

Nem mesmo os milagres mais espetaculares – como a suposta volta de um morto à vida – são capazes de abrir o coração de quem faz da riqueza o seu deus.

 

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