25º domingo do Tempo Comum ¬– Ano C – Um convite ao servir à vida, no amor e na justiça

Fonte: wikipedia.commons

16 Setembro 2022

 

"Na visão de Jesus não é possível organizar a vida a partir da priorização da busca por mais e mais dinheiro. Aquele que vive em função desta busca por sucesso econômico, ainda que vivendo uma vida reta e de oração, perde uma experiência fundamental do cristão: ser livre. É essa liberdade que permite ao ser humano, sem apegos exagerados, enxergar o próximo, principalmente os mais invisíveis, e suas necessidades de justiça e dignidade. Não se chega ao Reino somente através de uma vida reta. É necessário muito mais. A busca pelo Reino exige liberdade, ação, luta pela justiça e dignidade para todos e compromisso com os que não tem voz nem vez. Foi assim que Jesus Cristo viveu: livre dos apegos e completamente aberto à justiça do Reino."

 

A reflexão é de Maria de Lourdes da Fonseca Freire Norberto. Ela é graduada em Letras e teologia e mestra em teologia sistemática pela PUC-Rio e doutora em teologia sistemática pela PUC-Rio.

 

 

Leituras do dia

 

1ª leitura: Am 8,4-7
Salmo: Sl 112(113),1-2.4-6.7-8 (R. 1a.7b)
2ª leitura: 1Tm 2,1-8 ou ou mais breve 16,10-13
Evangelho: Lc 16,1-13

 

Neste 25º domingo do tempo comum, Lucas narra a parábola do administrador desonesto que esbanja os bens do Senhor. No primeiro momento, parece que Jesus incentiva os discípulos a fazerem o mesmo, quando diz que o senhor havia elogiado a astúcia do empregado. Na realidade, ele se utilizou desta narrativa, aparentemente controversa, para chamar a atenção para o fato que todos devemos ser espertos em relação ao que diz respeito ao Reino de Deus. Cruzar os braços e não fazer nada é a atitude daqueles que não buscam o Reino.

 

Ele mostra também preocupação com o dinheiro que chama de “dinheiro injusto” e, ao afirmar que não é possível servir a dois senhores, atesta a impossibilidade da busca concomitante do Reino de Deus e do lucro desenfreado.

 

A sociedade do tempo de Jesus, como ainda hoje, era profundamente dividida entre os poucos que tinham muito e a maioria que praticamente nada possuía e onde a prosperidade era percebida como sinal de bênção divina. Ao exigir uma opção entre o dinheiro e Deus, ele se coloca na contramão desta visão de mundo, afirmando que a busca excessiva pelo dinheiro afasta o ser humano da proposta do Reino e favorece a injustiça contra os menos favorecidos.

 

Na visão de Jesus não é possível organizar a vida a partir da priorização da busca por mais e mais dinheiro. Aquele que vive em função desta busca por sucesso econômico, ainda que vivendo uma vida reta e de oração, perde uma experiência fundamental do cristão: ser livre. É essa liberdade que permite ao ser humano, sem apegos exagerados, enxergar o próximo, principalmente os mais invisíveis, e suas necessidades de justiça e dignidade. Não se chega ao Reino somente através de uma vida reta. É necessário muito mais. A busca pelo Reino exige liberdade, ação, luta pela justiça e dignidade para todos e compromisso com os que não tem voz nem vez. Foi assim que Jesus Cristo viveu: livre dos apegos e completamente aberto à justiça do Reino.

 

 

As demais leituras deste domingo fazem eco à mensagem do Evangelho. Na primeira leitura, o profeta Amós, séculos antes de Jesus Cristo, corrobora com suas palavras, ao denunciar os comerciantes sem escrúpulos, preocupados em aumentar seus ganhos mesmo ao custo do sofrimento e da miséria dos mais pobres e ao afirmar que o Senhor adverte os injustos para com os mais pobres e promete jamais esquecer suas ações. Já no Primeiro Testamento, o povo de Israel já tinha consciência que seu Deus não suporta a exploração e a injustiça. Nesta mesma linha, o Salmo deste domingo é um canto de louvor ao Deus já então percebido como aquele que eleva os pobres.

 

Na segunda leitura, o autor da Primeira Carta a Timóteo convida todos os que creem a fazer do seu diálogo com Deus uma oração inclusiva que abarque todos os irmãos. Embora não esteja diretamente ligada ao tema do evangelho, essa leitura é um convite feito a cada crente para que saia de seu egoísmo e assuma os valores universais de amor, partilha e fraternidade. O autor da carta cita nominalmente os governantes e os que ocupam altos cargos tornando o texto profundamente atual no contexto que agora vivemos em nosso país, nos despertando para nossa responsabilidade frente às eleições que se aproximam.

 

A forma pela qual hoje organizamos nossa vida em sociedade nos faz extremamente dependentes do dinheiro. De alguma forma, somos todos, em alguma medida, necessitados e desejosos do dinheiro e, por isto, devemos estar sempre vigilantes para não sermos escravizados pelo poder que ele exerce e nos fecharmos à consciência da nossa humanidade em comum com os demais.

 

O próprio papa Francisco, em sua Exortação apostólica Evangelii Gaudium, nos lembra que quando o ser humano se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, entre eles os pobres, e a voz de Deus não pode mais ser ouvida. Nesta exortação, ele ainda chama atenção para o fato de que este fechamento egoísta é um risco certo e permanente a que estão sujeitos todos os homens e mulheres, inclusive os crentes. Por isto, em sua visão, os cristãos são hoje instados a viver na partilha, sem excluir ninguém, atraindo os demais através do testemunho.

 

Cada pessoa comprometida com a justiça do Reino de um Deus que é Amor inclusivo é instada a fomentar o amor, o respeito e justiça na esfera social. É urgente defender a vida sob todas as suas formas, recuperando a humanidade de todos os seres humanos, praticando a solidariedade e o amor, sobretudo com aquelas pessoas injustiçadas, exploradas e excluídas dos direitos de uma existência digna.

 

 

Todas as leituras deste domingo nos questionam acerca da nossa relação pessoal e social com o ganho econômico numa sociedade onde milhões de seres humanos passam fome e muitos sofrem e morrem em consequência da busca desenfreada por lucro de uns poucos. E nos questionam, principalmente, em relação ao que acontece em nosso próprio país.

 

A fome dobrou nas famílias com crianças de até 10 anos de idade, entre 2020 e 2022. E o número total de pessoas que passam fome hoje no Brasil superou os 33 milhões. Esta é uma piora absurda em um cenário que já era inaceitável. E de modo desolador, enquanto a fome cresce de forma exponencial e o país volta a patamares da década de 1990, a força solidária também perde força.

 

A própria crise ecológica que o planeta enfrenta também está conectada com a busca egoísta de sucesso econômico de uns poucos. Segundo a Laudato Si, muitos daqueles que detêm mais recursos e poder econômico parecem se concentrar principalmente em mascarar os problemas ou ocultar seus sintomas, procurando apenas reduzir alguns impactos negativos da mudança climática (LS 21). Embora todos nós iremos sofrer as consequências desses impactos, as maiores vítimas são as camadas mais pobres da sociedade. Sem recursos para se adaptarem aos impactos climáticos e ao enfrentamento de situações catastróficas, gozando inclusive de acesso reduzido a serviços sociais e de proteção (LS 25), sofrem mais diretamente as consequências desses impactos.

 

Aqui no Brasil, nos deparamos com a ameaça que ronda a Floresta Amazônica, onde a exploração desenfreada de petróleo, madeira e ouro, juntamente com megaprojetos hidroelétricos, rodovias interoceânicas, monoculturas agroindustriais e redes criminais de narcotráfico destroem a floresta e expulsam indígenas, ribeirinho e afrodescendentes de suas terras, os obrigando a viver em condições sub-humanas nos grandes centros mais próximos.

 

As leituras de hoje nos convidam a pensar na essência do Reino de Deus ao qual somos todos convidados a participar como um projeto. Para ser seguido, implica em um compromisso com Jesus Cristo, dentro de um espírito de partilha que inclui todos e prioriza os que estão à margem do mundo e da história – e inclui a partilha justa dos bens econômicos entre todos os seres humanos.

 

Quem vive esse projeto encontra mais resistência do que acolhimento, mas é justamente a partir desta resposta que damos ao convite de Deus para encontrá-lo nas vicissitudes do mundo que nos tornamos corresponsáveis nesse projeto e passamos a ter um papel na intervenção de Deus no mundo, que se faz sentir na resposta de cada um que diz sim a Ele. Nessa resposta, a presença do Reino já se faz sentir na história.

 

Que as leituras de hoje nos fortaleçam no sim que damos a Deus com nossas vidas.

 

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