“A diplomacia de Francisco se mantém numa atitude de neutralidade e de afirmação da paz”

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05 Agosto 2022

 

"A diplomacia de Francisco enquadra-se, assim, na atitude de neutralidade e de afirmação da paz, que inclui a oferta dos próprios bons ofícios de mediação, mas acrescenta um aspecto suplementar de misericórdia e fraternidade, no cerne da posição teológica de Bergoglio – um fato que permite compreender a recusa do Papa de dar legitimidade teológica à luta contra os inimigos internos ou externos", escreve Filip Ivanovic, pesquisador no Instituto de Estudos Avançados da Universidade de Montenegro, PhD em Filosofia e Estudos Religiosos pela Universidade Norueguesa de Ciências e Tecnologias e possui um título em Prática Diplomática pelo Instituto das Nações Unidas para a formação e a pesquisa em artigo publicado por Le Monde, 03-08-2022. A tradução da versão italiana é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Em 1915, um editorial do American O Journal of International Law afirmava: "Há razões para acreditar que o Papa pode exercer uma influência maior e mais benéfica no mundo no futuro do que no passado". Esse comentário referia-se à perda de poder temporal do Papa provocada pela anexação do Estado Pontifício pela Itália em 1870, ressaltando assim que, no passado, a imagem da Santa Sé oscilava entre imperium e sacerdotium, ou seja, entre autoridade temporal e autoridade espiritual.

 

As atividades diplomáticas do Papa remontam aos primeiros séculos do cristianismo, o édito de Milão de 313 marca um ponto de virada que vê o número de representantes pontifícios se multiplicar no exterior. Já em 343, o concílio de Sardica [hoje Sofia] afirmava que o bispo de Roma podia enviar delegados, o que indicava o reconhecimento formal da capacidade do pontífice de designar enviados para agir em seu nome.

 

As origens da diplomacia papal moderna, no entanto, remontam aos séculos XV e XVI, com a formação dos estados-nação, quando os núncios apostólicos foram enviados a Veneza, Florença, para a França, etc. É o momento em que a atividade diplomática papal assume gradualmente o papel de mediação e abandona suas prerrogativas de autoridade temporal e espiritual sobre as outras nações.

 

Como testemunha o historiador italiano Paolo Prodi (1932-2016) em Il sovrano pontefice, Il Mulino, 2013, é muito revelador o despacho enviado a Rodolfo Pio (1500-1564), núncio na França de 1535 a 1537, que afirma que o Papa, (Paulo III) "não pode e não deve deixar de ser neutro e pai comum", e que qualquer concessão a autoridades religiosas locais era impossível porque teria mostrado que o papa "não era mais neutro".

 

Da mesma forma, o núncio em Colônia, Pier Luigi Carafa (1581-1655) recebe uma instrução em 1624 afirmando que o Papa permaneceria "igualmente amoroso com todos os príncipes católicos e faria de tudo para manter a paz entre eles". Esse período marca o início de uma diplomacia da Santa Sé caracterizada pelos papéis de neutralidade e de mediação.

 

Por isso, a linguagem do editorial citado acima não surpreende - mesmo no período 1870-1929, quando a Santa Sé não tinha soberania territorial, manteve ativo seu serviço de mediação, como na controvérsia das Ilhas Carolinas entre Alemanha e Espanha.

 

Assim, a diplomacia da Santa Sé no mundo contemporâneo não se baseia no poder econômico ou territorial, mas na autoridade moral do Papa como chefe da Igreja Católica, cujas atividades internacionais se baseiam nos princípios de paz e de dignidade humana. Esse papel não é mais inspirado por preocupações temporais, mas por uma abordagem realmente teológica da diplomacia, como meio para alcançar a paz, o amor e a fraternidade.

 

Essa forma de entender a diplomacia foi manifestada pelo Papa Francisco, apenas um dia após a invasão russa da Ucrânia, por meio de uma inusitada inversão das práticas cerimoniais – o próprio Papa foi à embaixada russa para expressar sua preocupação em relação à guerra na Ucrânia. Foi um gesto sem precedentes, porque em situações graves são os embaixadores que pedem para serem recebidos pelo secretário de Estado da Santa Sé e, em casos excepcionais, pelo Papa.

 

Desde então, o Papa convida à paz e a uma solução diplomática para a controvérsia entre a Rússia e a Ucrânia. De fato, durante cem dias de guerra, o papa fez cinquenta declarações que remarcaram a necessidade de paz e a cessação das hostilidades. Ao fazê-lo, Francisco habilmente evitou tomar posição e manteve a doutrina da neutralidade, bem como a ideia da diplomacia do amor, acrescentando a ela o ingrediente franciscano da misericórdia. "A nossa linguagem política e diplomática faria bem em se inspirar na misericórdia, que nunca perde a esperança", declarou Francisco em 2016.

 

Combinando misericórdia com diplomacia, o Papa reafirma os princípios de neutralidade e de não legitimação de qualquer das partes em conflito. A neutralidade, estabelecida por seus predecessores há séculos, é enriquecida por Francisco com o adendo da misericórdia, que se recusa a aceitar a dimensão puramente política da autoridade pontifícia.

 

Evitando ser queimado pelo imperium, afirma fortemente seu sacerdotium, e se recusa a oferecer qualquer legitimidade espiritual ou moral a qualquer uma das partes. Parece que o Papa está realmente profundamente entristecido pela guerra e que se sente levado a cumprir seu dever de conciliação, com constantes apelos à paz.

 

Ele mostrou isso organizando uma procissão da Sexta-feira Santa em Roma, durante a qual uma mulher ucraniana e uma russa carregaram a cruz, com o objetivo de mostrar que a reconciliação é possível. Por outro lado, Francisco afirmou claramente, em uma conversa com o Patriarca Kirill, que "[eles] não [são] coroinhas do Estado", enquanto, ao mesmo tempo, o núncio na Ucrânia e um membro do clero russo estavam tentando iniciar a ajuda humanitária.

 

Nas últimas semanas, o Papa não hesitou em denunciar a guerra como uma "agressão violenta" ou um "ato sacrílego", mas também convidou a iniciar verdadeiras negociações, condenou a corrida armamentista e evitou qualquer retórica partidária.

 

A diplomacia de Francisco enquadra-se, assim, na atitude de neutralidade e de afirmação da paz, que inclui a oferta dos próprios bons ofícios de mediação, mas acrescenta um aspecto suplementar de misericórdia e fraternidade, no cerne da posição teológica de Bergoglio – um fato que permite compreender a recusa do Papa de dar legitimidade teológica à luta contra os inimigos internos ou externos.

 

De fato, como observa em um artigo recente Antonio Spadaro, diretor de La Civiltà Cattolica e jesuíta muito próximo ao Papa, Francisco não aceita uma linguagem do bem e do mal absoluto nas relações internacionais, e opta pela compreensão mútua e pelo exercício do “soft power”, que está no centro do modo de entender a estratégia internacional pontifícia. É nessa perspectiva que os esforços diplomáticos do papa devem ser entendidos e, em última análise, levados a sério.

 

 

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