Cassação de Renato Freitas não surpreende por seu desfecho, surpreendente foi a postura acovardada de quem deveria defendê-lo

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23 Junho 2022

 

O desfecho da cassação do Renato de Freitas (PT) vindo da Câmara Municipal de Curitiba não surpreende. A surpresa ficou por conta do PT, da Arquidiocese de Curitiba e da Companhia de Jesus em suas posturas tímidas na defesa do vereador, escreve Cesar Sanson, professor na Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN e ex-coordenador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores – CEPAT com sede em Curitiba.

 

(Foto: Reprodução | Redes Sociais)

 

Eis o artigo.

 

A confirmação da cassação do mandato do vereador Renato Freitas (PT) em segundo turno na Câmara de Curitiba não surpreende. Já era de conhecimento público que a votação, indo para a plenária, teria este desfecho.

 

Os vereadores da bancada evangélica, da base do prefeito e dos partidos da direita estavam ávidos e sedentos para tirar Renato da Câmara. O vereador se tornou indesejável desde que chamou vereadores pastores de trambiqueiros por exortarem o uso da cloroquina.

 

A ira, porém, não parou por aí. Renato também se tornou insuportável para a maioria dos vereadores porque denunciava os seus conchavos, seus conluios, a fidelidade ao prefeito em troca de favores. A coragem de um vereador jovem, negro, oriundo da periferia em confrontar seus pares quebrou o pacto presente na maioria dos legislativos, a do que nunca se devem tornar públicas as podridões que eventualmente se conheçam. Somado a isso também a face racista de vereadores e vereadoras brancos da classe média curitibana exposta com clarividência pelo jornalista Rogério Galindo.

 

O episódio da Igreja, portanto, foi comemorado pela maioria dos vereadores; era o pretexto que procuravam para expulsar Renato Freitas da Câmara.

 

Se o desfecho da cassação de Renato Freitas pela Câmara Municipal não surpreende, o que surpreendeu em todo o processo foi o comportamento de instituições que deveriam ter tido uma atitude mais corajosa na defesa da verdade. Falo aqui, particularmente, do seu partido, o Partido dos Trabalhadores, da Arquidiocese de Curitiba e da Companhia de Jesus, os jesuítas, que respondem pela Igreja do Rosário onde ocorreu o episódio que desatou tudo o que veio pela frente.

 

Ficou evidente que o PT se acovardou na defesa do vereador com receio que o caso respingasse na campanha Lula. Aliás, o próprio Lula, dias após o ocorrido na Igreja Rosário, esteve em Curitiba e em uma entrevista a uma rádio condenou a atitude da entrada na Igreja: "O que não tem sentido é invadir a igreja, transformar um templo religioso em um lugar de protesto. Não foi correto, ele sabe que errou”, disse Lula. É fato que o PT municipal acompanhou de perto e deu todo o apoio, mas a fala da maior liderança do PT foi uma senha para  que o partido mantivesse prudência e distância com o caso.

 

A maior decepção, porém, foi a da Igreja de Curitiba. Adotou desde o início uma postura medrosa. Acuada pelos setores conservadores, protocolou na polícia civil boletim de ocorrência incriminando Renato de Freitas. Posteriormente, em uma tímida nota pediu que o vereador fosse poupado da cassação. O estrago já estava feito. Entre o registro do boletim de ocorrência e a nota da arquidiocese passou-se um longo tempo e o silêncio ensurdecedor da Igreja colaborou para que o vereador fosse duramente atacado. A postura da Igreja foi comemorada pelos setores da direita. O longo silêncio da Igreja, o seu receio em defender o vereador e a tardia nota foram decisivos para a sua condenação e, mesmo que se considere que não tenha sido, foi um contratestemunho evangélico.

 

Registre-se a postura corajosa da Pastoral Afro da arquidiocese de Curitiba que mesmo intimidada permaneceu firme e resoluta na defesa do vereador.

 

Outra instituição que se acovardou na defesa de Renato Freitas foi a Companhia Jesus. Foi na Igreja do Rosário, sob responsabilidade dos jesuítas, que tudo aconteceu. Em nenhum momento os jesuítas se pronunciaram sobre o caso. A única voz que se ouviu foi a do padre responsável pela Igreja, que de uma postura um tanto confusa no começo dos acontecimentos evoluiu para o belo testemunho do abraço ao vereador num ato na frente da Câmara. Destaque-se, entretanto, que muitos cristãos das pastorais sociais e movimentos esperavam uma atitude mais clara e corajosa da Companhia de Jesus considerando-se a sua longeva e respeitada presença na cidade de Curitiba. Um possível posicionamento público da Companhia de Jesus, que não veio, poderia também ter contribuído para que a arquidiocese saísse do seu silêncio incômodo.

 

A surpresa com este triste desfecho da cassação do Renato de Freitas não veio portanto da Câmara Municipal, mas das instituições que deveriam tê-lo defendido com mais coragem e se acovardaram. Ao partido faltou comprometimento com a verdade dos fatos e à Igreja de Curitiba e à Companhia de Jesus faltou profetismo.

 

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