“A tecnologia não irá nos salvar, nós é que temos que nos salvar”. Entrevista com Marta Peirano

Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Mais Lidos

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


10 Junho 2022

 

A jornalista Marta Peirano (Madri, 1975) faz um chamado à ação em seu último livro, Contra el futuro, publicado [em espanhol] por Debate. Nele, afirma que diante da ganância das empresas e a incompetência dos governos, é vital a cooperação entre a comunidade científica e a sociedade civil. Para isso, propõe que as pessoas se tornem “um exército civil” contra a crise climática.

 

A entrevista é de Elisenda Pallarés, publicada por La Marea-Climática, 09-06-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Você escreveu anteriormente sobre tecnologia, segurança e privacidade. O que a motivou a escrever este livro sobre a crise climática?

 

Minha tese há muitos anos é que estamos investindo nosso tempo e esforços em tecnologias que não estão delineadas para nos ajudar a enfrentar a crise de nosso tempo, que é a crise climática. Estão delineadas para nos controlar e nos enfrentar.

 

No meu livro anterior [El enemigo conoce el sistema], falava dessas tecnologias que dominam o mundo, tecnologias de gestão de pessoas. Agora, pretendia escrever um livro sobre tecnologias de gestão do clima. Poderia ter sido denominado Este não é um problema técnico.

 

Temos soluções para gerenciar o clima e que não exigem investimentos absurdos. Por outro lado, se efetivamente fossem necessários, é interessante pensar no que se diz, que “não temos dinheiro para salvar o mundo”, como se dinheiro fosse algo que se acaba, como a água. Ao escrever o livro, percebi que essas tecnologias já existem e não as utilizamos.

 

Nele, aborda como o consumidor é constantemente responsabilizado e como a culpa se transforma em vergonha. Esse é o melhor repelente contra o ativismo ambiental?

 

Sim, é uma estratégia muito deliberada. A ideia da pegada de carbono é uma campanha de marketing da BP, uma empresa que naquele momento era uma das maiores poluidoras do planeta. Tais campanhas envergonham até a sua sujeição.

 

Quem é você para criticar a BP ou a Amazon, se utiliza carro ou avião e, portanto, é do mesmo modo tão egoísta? Isso é um absurdo! Claro que você utiliza o carro, você é uma pessoa que vive no século XXI. A única pessoa que não tem uma pegada de carbono é a que está morta.

 

Por que ainda se aposta em combustíveis fósseis, como petróleo e carvão?

 

A transição para um modelo de energia mais sustentável é complicada, exige grandes decisões das administrações e não seriam populares. Há um imediatismo no processo político que faz com que tomar decisões desse calibre seja um suicídio eleitoral.

 

Vimos isso com os coletes amarelos. Você pode reduzir o número de carros poluentes que existe no país, mas para isso precisa ajudar as pessoas que moram nas redondezas e não possuem condições de ter um carro elétrico.

 

Você afirma que precisamos de líderes que “motivem a população para uma década de esforço coletivo, com a ciência como única certeza e o futuro como única recompensa”. Temos políticos assim na Espanha?

 

É uma pergunta muito difícil. Penso que, por exemplo, a prefeita de Barcelona é uma líder muito corajosa, que toma decisões muito corajosas. As grandes empresas ligadas aos combustíveis fósseis e ao agronegócio são os grandes poderes de nosso tempo e por isso têm a capacidade de causar mais danos do que ninguém.

 

Frente ao problema dos recursos limitados, você explica que Elon Musk e Jeff Bezos não competem para salvar a humanidade, mas para se livrar dela. Precisamos colonizar outros planetas?

 

É um dos futuros contra os quais o livro se rebela. Um futuro em que um punhado de milionários vive em condomínios fechados na estratosfera. É um idílio que interessa a Bezos porque é uma vida em que se depende da tecnologia para tudo.

 

Obviamente, não estão nos vendendo um futuro em Marte, mas uma comunidade exclusiva onde só existem ricos e criados e que se separa do que mais temem: a revolução. Vivem suspensos em uma esfera a qual os milhares de milhões de pobres migrantes resultantes da mudança climática não têm acesso. É um futuro sem guilhotina para eles.

 

Embora a população mundial tenha triplicado, entre 1950 e 2010, considera que a humanidade diminuirá. A superpopulação é um problema?

 

A grande premissa dessa ideia de conquistar as estrelas é que a Terra se torna pequena para nós. Parece-me um paradoxo que os dois homens que competem para ver quem é o mais rico do mundo pensem que existem pessoas demais na Terra, quando viajam de jato particular.

 

Há lugares suficientes na Terra para todas as pessoas que há e haverá nos próximos anos. O que não há são lugares suficientes para mais Jeff Bezos. Existe uma situação de absoluta desigualdade.

 

Afirma que são efetivados mecanismos de controle populacional, como as histerectomias para mulheres migrantes em centros de detenção.

 

Sim. Isso é selvagem e tem ocorrido desde 2018 [nos Estados Unidos], pelo que sabemos!

 

Descartado o cenário de escapismo planetário, que soluções os cidadãos devem adotar diante da crise climática?

 

As grandes soluções tecnológicas que nos propõem são ilógicas. Uma das coisas que abordo no livro são as tecnologias de gestão de carbono, captura e sequestro de CO2, que precisamos desesperadamente que funcionem. Precisamos delas, mas não são a solução.

 

Existe a ideia de que essas máquinas funcionarão e poderemos continuar consumindo da mesma forma. E não, há diversas questões que não se resolvem assim. O aquecimento global é o mais visível porque nós o sentimos, mas a acidificação dos oceanos que absorvem o CO2 da atmosfera é o nosso problema fundamental.

 

Aponta que seria necessário implantar medidores de água nas residências.

 

Pesquisei quais países com capacidade técnica estavam ficando sem água. Deparei-me com o exemplo de Cidade do Cabo, a única cidade que considerou que um dia não sairia água das torneiras. A solução que implementaram, e que os levou a conservar água até hoje, foi conscientizar a população sobre a necessidade de uma gestão inteligente, coletiva e responsável da água.

 

Comparo isso com pessoas que investem em criptomoedas e que ficam o dia todo verificando se aumentam ou diminuem. Imagine que sejamos capazes de fazer isso com água. Existem sensores inteligentes que deveriam ser instalados em todas as casas para que indiquem a quantidade de água que você consome. Oferecem um espelho sobre o seu consumo e, gerido coletivamente, proporciona informação sobre o estado das instalações de seu edifício.

 

Você saberia se está pagando pela água que consome ou se está pagando por um vazamento de água. São soluções para o estado de cinismo que faz com que você viva em uma sociedade de serviços, em vez de viver em uma comunidade que compartilha serviços.

 

Também menciona soluções mal planejadas, como as campanhas de plantio em massa de árvores que não são nativas. São estratégias de greenwashing?

 

Sim, normalmente do político de plantão. Costumam plantar espécies que não são nativas, que consomem os recursos hídricos e arruínam o ecossistema. E ainda por cima não costumam sobreviver.

 

Penso que é muito mais valioso equipar os moradores de cada comunidade com recursos e informações suficientes para que encontrem as soluções para seu espaço.

 

Uma das soluções mais sustentáveis é a mudança de dieta?

 

Sim. Eu a proponho como contraposição às soluções que imaginamos que poderiam ter um grande impacto. Imaginamos soluções muito caras que exigem uma mudança de infraestruturas, como acabar com indústrias inteiras.

 

Do ponto de vista científico, a solução, que também é gratuita, é parar de comer carne. Teria um impacto absolutamente monumental. E não apenas na produção de gases do efeito estufa.

 

Além disso, liberaria uma enorme quantidade de terra que poderia ser transformada em máquinas de captura de carbono muito mais eficientes e sustentáveis do que as que estamos tentando desenvolver.

 

Mas, cita Fredric Jameson e afirma que “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

 

Sim, mas, então, não podemos dizer que a crise climática é um problema insolúvel, mas, sim, que não vale a pena resolvê-lo. É como dizer: “Se eu tiver que parar de comer bacon, prefiro morrer”. Além disso, o consumo de carne é uma das principais causas de morte.

 

Os problemas cardiovasculares estão diretamente relacionados ao consumo insano de carne, nos últimos 50 anos. Ao longo de nossa história como espécie comemos pouca carne. Agora, comemos carne todos os dias do ano e isso está nos matando.

 

Também diz que somos a espécie mais evoluída emocionalmente do planeta. Estamos a tempo de mudar?

 

Historicamente, fomos capazes de fazer coisas muito difíceis. Uma das questões cruciais é o que precisa acontecer para que adotemos algumas das medidas fáceis, em vez de esperar que Jeff Bezos nos proponha uma solução totêmica e capitalista.

 

A tecnologia não irá nos salvar, nós é que temos que nos salvar. Há tecnologias que podem nos ajudar, mas aqueles que nos salvam são nossos vizinhos.

 

Uma das propostas do livro que me parece a mais radical é algo que William James já propôs, criar uma espécie de treinamento militar para o social. Levar a disciplina, o companheirismo, os valores para o cívico. Transformar as pessoas no que eu chamo de exército civil contra a mudança climática.

 

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

“A tecnologia não irá nos salvar, nós é que temos que nos salvar”. Entrevista com Marta Peirano - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV