A paz antes da vitória. A Igreja e a invasão russa da Ucrânia. Artigo de Alberto Melloni

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09 Mai 2022

 

"Francisco ao dizer que pode haver paz antes da vitória, que ele está disposto a ir a qualquer lugar desde que pelo menos uma vida seja salva que de outra forma seria perdida, ele dá uma contribuição política: para pensar que a paz só poderá vir depois da vitória, é preciso prepare-se para o pior. E o pior para a Igreja não é apenas o risco atômico. É um mundo que finalmente voltou a ser bipolar e vê armando-se uns contra os outros os poucos que têm direitos, água, comida, poder, e os muitos que não os têm, mas os odeiam", escreve Alberto Melloni, historiador italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII, de Bolonha, em artigo publicado em La Repubblica, 07-05-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Alguém olha incrédulo para o que está acontecendo no catolicismo italiano e além.

 

É verdade que na homilia dominical a maioria dos párocos prega contra a guerra em geral, em vez de tomar partido "do lado da Ucrânia"? Sim, é verdade. Aliás, é tão verdade que mais cedo ou mais tarde surgirá a intolerância pela grosseria daqueles que chamam indulgência para com o agressor a esperança (cristã) de ver cessar um conflito já em seu oitavo ano. Por outro lado, se Jürgen Habermas é censurado por ter escrito que ajudar a Ucrânia é um dever, mas esperar vencer Putin uma aposta ditada por um "fervor moral" que poderia levar à escalada que hoje ninguém deseja e ninguém exclui - é inevitável que párocos e bispos possam ser julgados portadores saudáveis de neutralismo.

 

É verdade que esta posição se nutre da teimosia com que o Papa continua a falar de paz e não de vitória? Sim, é verdade. Mas não é apenas o magistério papal que torna sólida uma posição duramente estigmatizada pelos greco-católicos ucranianos que esperavam que o papa declarasse Putin como um demônio. Há, de fato, algo mais tipicamente cristão: bem exemplificado pela generosidade com que a Igreja está acolhendo os refugiados ucranianos - a mesma que usou com aqueles que não tiveram o bom gosto de se afogar a tempo, atravessando o Mediterrâneo.

 

É verdade que essa posição fortalece o "distinguismo" da Liga e do M5S e poderia ter efeitos políticos nas próximas eleições? Não, pelo contrário. Reduzir a obediência ao mandamento evangélico que recomenda tomar a "porta estreita" aos cálculos abjetos da politicagem significa ignorar a força da Igreja, que em meio à miséria e à infâmia, porém, tem uma fonte que a regenera. E significa esquecer que, como vimos na era Bannon, é quando o patrimônio religioso é sequestrado com astúcias propagandísticas por uma direita que surgem sérios problemas, tanto para crentes quanto para moderados, nunca vice-versa.

 

Mas o Papa não deveria dizer hoje algo mais e diferente? Acho que não: seu movimento, às vezes dividido entre diplomacia e profecia, não precisa daquela "clareza" que algumas vozes lhe pediram do Il Regno. O Bergoglio-pensamento de hoje é de fato o efeito de intuições e convicções há muito solidificadas: do jejum pela Síria, de quando ele falou da "terceira guerra mundial em capítulos", de quando decidiu em tempos insuspeitos fazer o que nenhum Papa e nenhum concílio jamais havia feito, isto é, condenando tanto o uso quanto a posse das armas atômicas.

 

Portanto, quem se surpreende não entende que o comprimento de onda de Francisco é realmente diferente do que prevalece na Europa e (menos) nos EUA. O Papa usou palavras claras sobre a invasão; ele não escondeu a sua distância de Kirill - mesmo que chamá-lo de "coroinha de Putin" se equivoque nos méritos (no máximo, é o contrário) e no método (o noticiário russo disse apenas que o papa havia definido como "irmão" o patriarca de Moscou e de todas as Rússias). Mas ao dizer que pode haver paz antes da vitória, que ele está disposto a ir a qualquer lugar desde que pelo menos uma vida seja salva que de outra forma seria perdida, Francisco dá uma contribuição política: para pensar que a paz só poderá vir depois da vitória, é preciso prepare-se para o pior. E o pior para a Igreja não é apenas o risco atômico. É um mundo que finalmente voltou a ser bipolar e vê armando-se uns contra os outros os poucos que têm direitos, água, comida, poder, e os muitos que não os têm, mas os odeiam.

 

A esperança de uma paz antes da vitória é o que Paulo de Tarso chamava de katékon - uma tentativa de conter a maldade final não contra Deus, mas contra o ser humano criado à sua imagem e semelhança.

 

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