Padre Cláudio Perani e a Educação Popular na Amazônia

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23 Dezembro 2021

 

"Já em 2008, Perani observava que os partidos, Congresso e Governo perdiam sua importância e abriam caminhos políticos para 'outros atores sociais, como os vários movimentos populares e outras iniciativas da sociedade civil'", escreve Márcia Maria de Oliveira, doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia, professora da Universidade Federal de Roraima, assessora da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), da Cáritas e do Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM).

 

Eis o artigo.

 

Padre Cláudio Perani (Foto: Arquidiocese de Manaus)

Passados quase 13 anos da Páscoa do Padre Claudio Perani (14 de agosto de 1932 – 08 de agosto de 2008), seu legado para as classes populares, camponesas e ribeirinhas da Amazônia ainda se faz atual. Em abril de 2004, um grupo de jesuítas começou a se reunir em Manaus, coordenado pelo Padre Cláudio Perani, para pensar coletivamente num projeto de formação de lideranças do meio popular. A educação popular tem sido amplamente acionada para a formação de lideranças dos grupos de base e dos movimentos sociais.

 

Logo, este grupo foi se ampliando e contando com a participação ativa e efetiva de educadores e educadoras populares, especialistas em educação ligados à universidade e aos sindicados de trabalhadores/as, lideranças pastorais, representantes das comunidades de base, dos grupos populares, movimentos sociais e Organizações não Governamentais. A esta equipe de discussão, que tinha característica de um Grupo de Trabalho, o Padre Claudio Perani denominou equipe pedagógica.

 

Padre Claudio não estava “inventando a roda” com esta iniciativa. A formação de lideranças populares fazia parte e era a continuidade de outros projetos sociais que ele coordenou à frente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Nordeste; e do Centro de Estudos e Ação Social (Ceas), em Salvador, Bahia, desde quando chegou ao Brasil, ainda na sua tenra juventude.

 

Naquelas pequenas e depois mais volumosas rodas de conversa ou “encontros pedagógicos”, como ele assim os definia, foram nascendo ideias de um projeto maior de formação popular que deu origem ao Serviço de Ação, Reflexão e Educação Social (Sares), inaugurado em julho de 2004, na avenida Ramos Ferreira, número 382, no Bairro Aparecida, numa parceria com os Irmãos Maristas, com a Arquidiocese de Manaus e, mais tarde, com o Instituto Missões Consolata.

 

Além das instituições religiosas que se somaram, muitas organizações sociais foram se agregando ao projeto, que já no seu início contava com a participação ativa e efetiva da CPT, da Central Única dos Trabalhadores (CUT), do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), da Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Amazonas (Fetagri), do Sindicado dos Sociólogos e Sociólogas do Amazonas (Sindsocio), das Associações de Moradores de diversos bairros de Manaus, dos coordenadores/as de Comunidades Eclesiais de Base, dos agentes de pastorais sociais, dentre muitas outras instituições sociais, que em pouco tempo eram dezenas. Em pouco mais de um ano, o Sares tornou-se um referencial na formação de lideranças populares em Manaus, com dois cursos de formação sistemática.

 

Desde o início dos trabalhos, Cláudio Perani coordenava a equipe pedagógica responsável pela elaboração do projeto de Educação Popular do Sares e tinha como compromisso elaborar dois cursos voltados para a formação de lideranças populares, inicialmente em Manaus e depois em outros municípios do Amazonas. Algumas pessoas, a maioria mulheres, vinculadas às universidades, aos sindicatos e aos partidos políticos, especialmente ao Partido dos Trabalhadores (PT), especialistas em educação popular somaram-se ao projeto.

 

O primeiro curso, Formação para Ação Social (FAS), tinha como objetivo atender as lideranças das bases dos movimentos sociais, dos grupos e das organizações populares. O FAS era voltado para pessoas que não possuíam nível de formação acadêmica e atuavam na organização dos movimentos sociais, grupos de reflexão das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), no movimento indígena e tantos outros seguimentos sociais. O segundo curso, Formação para Intervenção Política (FIP), era uma proposta de especialização em Ética e Política, concretizado em 2006, em convênio com a Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

 

Ao longo de 10 anos, o FAS e o FIP formaram centenas de lideranças populares. Entretanto, o período mais intenso de formação foi nos quatro primeiros anos que contaram com o Padre Claudio à frente dos trabalhos. Acredita-se que a educação popular proposta e desenvolvida por Claudio Perani contribuiu para importantes mudanças nos paradigmas de libertação e transformação social na Amazônia.

 

Toda esta formação contou com um manual chamado “Guia Metodológico da Educação Popular”, proposto por Cláudio Perani e desenvolvido de forma interativa com as lideranças populares no decorrer de sua formação. Os resultados dessa experiência comprovam a capacidade transformadora das lideranças em processos simultâneos de formação e intervenção social e celebram o legado de Cláudio Perani ainda muito presente nas trajetórias dos movimentos sociais na Amazônia.

 

A base teórica dessa metodologia encontra-se estreitamente relacionada com o método dialético materialista proposto por Karl Marx na formação da classe operária e coincide também com a proposta da Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa de Freire ao afirmar que “ensinar não é transferir a inteligência do objeto ao educando, mas instigá-lo no sentido de que, como sujeito cognoscente, se torne capaz de inteligir e comunicar o inteligido” (FREIRE, 1998, p. 134).

 

A educação popular pensada e desenvolvida por Paulo Freire é a grande orientação da formação desenvolvida no Sares, que implica, dentre outras metodologias, na multiplicação de agentes sociais comprometidos com a transformação social. Em meados de 2006, atendendo às diversas demandas de movimentos sociais e instituições fora de Manaus, criou-se o curso de Formação para Ação Social no Interior do Amazonas (Fasim). Desta forma, o projeto de formação, baseado na educação popular, foi se replicando para outras realidades, assumindo parcerias, como a Associação Dom Jorge Marskell, em Itacoatiara; com a Diocese do Alto Solimões, em Tabatinga; com a Paróquia dos Santos Mártires, do Município de Presidente Figueiredo; e assim por diante. Tinha como objetivo fornecer elementos do campo teórico-crítico para aprofundar e fortalecer a práxis do trabalho popular nas diversas realidades e contextos da Amazônia.

 

Padre Cláudio Perani (Foto: Jesuítas Brasil)

 

Com o objetivo de desenvolver um programa de formação voltado para o aprofundamento da práxis social e política de lideranças das várias organizações populares e movimentos sociais que atuam na Amazônia, a fim de estabelecer a interação entre o conhecimento acadêmico e a práxis social, aprofundando os conhecimentos populares e a produção de novos conhecimentos que conjugam teoria e a práxis política e social, o FAS e o Fasim vinham reforçando a intervenção social e política das lideranças populares.

 

A saída para outras realidades e municípios contribuiu para promover ou intensificar o intercâmbio das várias experiências e realidades dos movimentos sociais, das comunidades e grupos populares que se fortaleciam nesses processos recíprocos de formação continuada.

 

Nascia, nessa fase do Sares, outra contribuição importante de Cláudio Perani, que foi a proposta de formulação e embasamento teórico do curso, com o objetivo de subsidiar a ação prática e pedagógica de atores sociais, fortalecendo a sua práxis efetiva nos seus respectivos movimentos, grupos, instituições, organizações sociais. A partir da prática concreta dos participantes em diferentes movimentos e trabalhos populares, os grupos de estudos se encarregaram de levantar os problemas pedagógicos que se encontravam no dia a dia, para enriquecer as possibilidades educativas da prática social e da elaboração de uma metodologia popular mais democrática e participativa.

 

Trabalhando conjuntamente com as turmas, a Equipe Pedagógica confirmava e ampliava a proposta do “Guia Metodológico da Educação Popular”, que Cláudio acreditava ser útil para orientar a formação nos grupos de base também nos outros municípios, mantendo uma orientação participativa sem descuidar do aprofundamento. Assim, o FAS/Fasim avançavam numa constante prática pedagógica participativa, na qual as lideranças participavam diretamente da organização e desenvolvimento da formação, assumindo funções de auto-organização no decorrer do curso.

 

A relação estabelecida na estrutura do curso continuou sendo de parceria entre assessores/as, participantes e instituições parceiras, definindo assim um processo eminentemente participativo. No final de 2006, essas experiências começaram a ser publicadas em fascículos simultâneos, denominados ‘Cadernos Populares’, com publicação bimestral. A primeira publicação foi justamente o “Guia Metodológico da Educação Popular”, em dezembro de 2006, com tiragem de mil exemplares, distribuído às lideranças sociais que realizavam os diversos cursos vinculados ao FAS e ao Fasim e para coordenadores(as) e animadores(as) das comunidades eclesiais de base que manifestavam interesse em aprofundar e melhorar sua metodologia de trabalho popular.

 

Os Cadernos Populares do Sares publicaram diversas reflexões que, em linguagem simples e popular, como o nome indica, mas, sem perder a dimensão do aprofundamento, subsidiaram a atuação de diversos grupos e movimentos sociais na Amazônia. Com distribuição gratuita, chegou às comunidades mais longínquas nos “beiradões” dos rios e lagos da Amazônia, bem como às centenas, talvez milhares de comunidades espalhadas pelas periferias das cidades dessa imensa região.

 

De forma didática e objetiva, os ‘Cadernos Populares’ representavam o reconhecimento da capacidade interpretativa das lideranças sociais e comprovava ser possível desenvolver importantes tratados teóricos com as classes populares, com a única exigência de um cuidado metodológico que priorizasse uma linguagem mais simples e direta, respeitando seus interlocutores.

 

Os fascículos foram bem aceitos pelas lideranças populares nas suas rodas de conversas e na formação permanente no interior das comunidades, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos. Cláudio usou esse meio para se comunicar com lideranças de toda a Amazônia, compartilhando um pouco do seu saber de forma clara e direta, aprofundando a proposta da metodologia do trabalho popular.

 

Seguindo as mesmas orientações metodológicas do FAS, o FIP também se consolidou como um referencial na especialização de militantes políticos. Em parceria com as Ciências Humanas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), o FIP atuou na formação de quadros dos partidos mais comprometidos com as transformações sociais. Além do PT, representantes do Partido comunista do Brasil (PCdoB), Partido Socialista Brasileiro (PSB), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), dentre outros. Na formação dos quadros, contribuiu com a formação do atual deputado federal José Ricardo (PT), do vereador por Manaus Waldemir José (PT), da vereadora Lúcia Antony (PCdoB), dentre outras lideranças políticas que fizeram toda a diferença em seus mandatos e na formação dos quadros dos seus respectivos partidos.

 

Padre Cláudio Perani (Foto: Jesuítas Brasil)

Essa síntese deixa clara a orientação metodológica proposta por Cláudio Perani como ferramenta da educação popular nos paradigmas de libertação e transformação social na Amazônia. No último texto escrito por ele e publicado nos Cadernos Populares Edição Especial, ele afirmava que “o tema sociedade civil, movimentos sociais e ONGs no Brasil é extremamente importante, atual e muito debatido hoje na conjuntura política brasileira”. Dada a atualidade de seu pensamento, Cláudio Perani acreditava que existia no meio popular “um grande pessimismo ao considerar os políticos e suas instituições”. Ele observava que as pessoas haviam perdido o crédito na política partidária e que uma grande maioria pensava que os políticos são corruptos e visam somente seus interesses.

 

Já em 2008, Perani observava que os partidos, Congresso e Governo perdiam sua importância e abriam caminhos políticos para “outros atores sociais, como os vários movimentos populares e outras iniciativas da sociedade civil”. “Simplificando”, dizia ele, “podemos dizer que, em princípio, será necessário não excluir nenhum caminho político, mas procurar mudar e fortalecer tudo que possa favorecer a organização popular e seu poder” (OLIVEIRA, 2018, p. 259).

 

A lucidez com que tratou as questões sociais no seu último texto revela a profundidade teórica que cultivou ao longo de sua vida, mantendo uma rotina de leituras sempre atualizadas e com enorme disciplina. Compartilhar conhecimento foi uma marca importante na trajetória de Cláudio Perani, que fez dessa prática uma importante ferramenta da metodologia da educação popular que tanto contribuiu e continua contribuindo para os processos de transformação social da Amazônia.

 

Atualmente, o Sares passou por profundas mudanças na sua orientação interna, tornando-se uma referência nas questões ambientais. Após um longo processo de reestruturação, em setembro de 2016, passou a definir o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental. Voltado para outros objetivos, não abandonou, portanto, seu compromisso com as causas sociais.

 

Por fim, recordar a atuação do Padre Claudio Perani à frente do Sares, é recordar um processo de formação altamente participativo, fundamentado nos princípios da educação popular pensada por Paulo Freire, como uma das ferramentas de transformação social mais eficaz e capaz de promover as transformações sociais mais profundas e necessárias em qualquer estrutura de sociedade que aposta na participação popular, como força viva que movimenta e sustenta as decisões populares.

 

Apostar na força do povo e na sua capacidade de permanente mudança e reconstrução foi a marca registrada do Padre Claudio Perani e representa um grande legado para todos aqueles e aquelas que o recordam como uma atualidade permanente e necessária.

 

Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 7. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1998.

OLIVEIRA, Marcia Maria de. Cláudio Perani e o papel da educação popular nos paradigmas de libertação e transformação social na Amazônia. Cadernos do CEAS, Salvador/Recife, n. 244 - Especial Claudio Perani, p. 242-261, 2018.

 

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