Um enigma de amor chamado Jesus. Artigo de Eugenio Scalfari

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02 Dezembro 2021

 

"Considero o atual Papa não apenas a autoridade máxima da Igreja Católica, mas também um Profeta e um Pastor. Sua profecia é que Deus é uno em todo o mundo, e isso exclui os fundamentalismos e qualquer guerra religiosa. Porque Cristo é o amor de Deus, um amor que vence a morte", escreve o jornalista italiano Eugenio Scalfari, fundador do jornal La Repubblica, em artigo publicado por La Repubblica, 01-12-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

Nos últimos tempos aconteceu-me (acredito que não só comigo) pensar sobre Jesus de Nazaré: o fascínio que esta figura ainda exerce é muito forte. Assim como poderosos são o mistério e os questionamentos que colocam a sua vida, sua morte e o subsequente nascimento da Igreja. Uma série de reflexões que volto a abordar agora, enquanto volto a ler meu livro Il Dio unico e la società moderna.

 

Il Dio unico e la società moderna.
Incontri con papa Francesco e
il cardinale Carlo Maria Martini

 

Afinal, o discurso religioso é tão antigo quanto o homem. E é nessa busca contínua do divino que se insere a parábola de Jesus, que desperta o interesse até de não crentes como eu. Em primeiro lugar, devemos lembrar que não foram os apóstolos que consideraram o ensinamento daquele homem vindo de Nazaré como o nascimento de uma nova fé: para eles era uma das tantas expressões das comunidades judaicas. O passo decisivo para a fundação de uma doutrina completamente nova foi Paulo de Tarso, cujo nome originário era Saulo. Uma "revolução" que se encarna na famosa lenda de sua queda do cavalo no caminho de Damasco: um anjo o levantou do solo, entrou em sua alma e lhe revelou a verdade.

Mas então, antes - e para além - da conversão de Paulo, quem era Jesus, filho de José da tribo de Davi e de Maria? Personalidade formidável, um filho que deixou a família apenas aos trinta anos, um homem carismático capaz de entusiasmar seus seguidores. Essa pessoa contada pelos Evangelhos provavelmente existiu, mas depois foi teologizada, tornou-se doutrina, liturgia, direito canônico. Foram os outros, depois de sua morte, que lhe atribuíram uma qualidade divina. Em particular, com Paulo se construiu de fato a Igreja, que sobreviveu e se fortaleceu continuamente, nos séculos seguintes, apesar das perseguições a que foram submetidos os fiéis.

No primeiro período conturbado da história desta instituição, viveu e expressou seu pensamento filosófico e teológico uma das mentes mais brilhantes e multifacetadas de todo o mundo cristão: Agostinho (354-430 d.C.), bispo de Hipona. O ponto central da especulação doutrinária desse grande pensador gira em torno do tema da graça. Rompendo com os debates da época em torno de um conceito crucial, de fato, ele defendeu que a Graça é concedida a todos, mas todos, em qualquer momento da vida, podem renunciar a ela sem arrependimentos. Neste último caso, a vida se desenvolve de acordo com a própria vontade pessoal: cada um pode permanecer sem pecado ou pecar, indo de encontro, neste último caso, à justiça sagrada do Todo-Poderoso.

Avançando vários séculos, outra figura fundamental na história e evolução da Igreja foi Gregório VII, proclamado Papa em 1073. Vindo do convento de Cluny, nos anos do seu pontificado mudou profundamente o mundo cristão, especialmente nas relações de força entre a autoridade religiosa, que ele personificada, e o poder de soberanos e imperadores. Reivindicando sua autonomia na luta pelas investiduras, deu um passo decisivo para a consolidação definitiva de uma instituição que sobrevive há cerca de dois mil anos e que agora é representada com grande força pelo Papa Francisco. Naturalmente houve, no curso de seus dois mil anos de história, papas mais ou menos carismáticos, mais ou menos capazes. Mas, de uma forma ou de outra, a exigência de modernização nunca parou.

Para compreender o pontificado de Bergoglio, creio ser necessário para todos nós reler o Cântico das Criaturas de Francisco de Assis, fonte de inspiração de sua primeira encíclica, Laudato si'. Um texto, o do Francisco nosso contemporâneo, ecológico no sentido mais amplo do termo, no qual o autor se dirige não só aos cristãos, mas a todos os homens que habitam a Terra, convidando-os a cuidar dela. Temas caros também ao Santo de Assis e que colocam o pontífice em continuidade com sua pregação, inclusive para além do nome que escolheu.

É por isso que considero o atual Papa não apenas a autoridade máxima da Igreja Católica, mas também um Profeta e um Pastor. Sua profecia é que Deus é uno em todo o mundo, e isso exclui os fundamentalismos e qualquer guerra religiosa. Porque Cristo é o amor de Deus, um amor que vence a morte.

E a essa altura me despeço de vocês, meus caros leitores, com alguns versos de Federico García Lorca, um dos meus poetas preferidos.

Às cinco horas da tarde. Eram cinco da tarde em ponto. Um menino trouxe o lençol branco às cinco horas da tarde. Um cesto de cal já prevenida às cinco horas da tarde. O mais era morte e apenas morte às cinco horas da tarde”.

 

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