Na trilha do verdadeiro rosto de Adão. Artigo de Gianfranco Ravasi

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03 Novembro 2021

 

À Sua imagem. A pesquisa de Böttigheimer sobre a figura humana, sob vários pontos de vista, do psicológico ao teológico "Adão, onde você está?". A famosa pergunta do Criador, no início da Bíblia e da própria história humana, poderia hoje ser transcrita como “Adão, quem é você?”, uma pergunta destinada a ultrapassar a indiferença amorfa ou a fluidez da antropologia atual. Uma visão já secularizada, mas também amoral, pela qual valeria a retomada satírica da cena do paraíso terrestre sugerida por Jacques Prévert: “E Deus, surpreendendo Adão e Eva, disse: Continuem, por favor, não se preocupem comigo, façam como se eu não existisse".

 

O comentário é do cardeal italiano Gianfranco Ravasi, prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 31-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Precisamente nessa nebulosidade atual, em que todas as figuras são amorfas ou polimórficas, muitas vezes aparecem reflexos que tentam clarear a névoa e realçar algumas tipologias. É o que fazem muitos pensadores de diferentes origens, também interceptados por alguns teólogos, capazes de criar intersecções com as linguagens e os sistemas "leigos". Vamos agora escolher um entre muitos, talvez menos conhecido, mas que propomos justamente por sua capacidade dialógica inter e transcultural. Trata-se de um professor da Universidade alemã de Eichstätt-Ingolstadt (Baviera), Christoph Böttigheimer, nascido em 1960.

 

Christoph Böttigheimer
Riconosciuti da Dio
Queriniana, pp. 301, € 31

Sua pesquisa segue basicamente duas trajetórias consecutivas. A primeira é marcada por três categorias antropológicas capitais. Em primeiro lugar, a "persona", palavra talvez de origem fenícia com o significado de "máscara", semântica acolhida pelo latim e, se quiserem, também do grego prósopon, literalmente "o que se pode ser", portanto o rosto e o objeto visível da criatura humana, uma máscara que esconde a hipóstase, "o que está por baixo", a "substância" justamente. O certo é que o perfil primário da persona está contido na relação com o outro, e assim nasce a segunda dimensão central do ensaio do teólogo alemão, o "reconhecimento".

Ele o delineia por meio da contribuição de uma legião de pensadores, começando por Hegel para chegar a Ricoeur, Todorov, Taylor e sobretudo ao filósofo social Axel Honneth. Através do reconhecimento recíproco alimenta-se a autêntica relação interpessoal comunitária, a intersubjetividade, o próprio amor e, por causa do limite humano, também o conflito, quando o identitarismo egoísta "reconhece" no outro um obstáculo ou um perigo. Só com o reconhecimento se concretiza a "formação da personalidade", a terceira categoria do viés mais psicológico, que "inclui todas as peculiaridades características da natureza de uma pessoa que a distinguem na sua inconfundível singularidade e na sua individualidade insubstituível".

Nesse ponto, entra em ação a segunda trajetória de estudo de Böttigheimer, aquela estritamente teológica, em que as categorias anteriores são aplicadas ao registro transcendente. A relação interpessoal, então, abre-se verticalmente para Deus de quem o homem e a mulher são "imagens" (Gênesis 1,27), cujo protótipo é Jesus Cristo "imagem do Deus invisível" (Colossenses 1,15). Este "reconhecimento" por parte de Deus envolve primeiro a salvação, que é precisamente um abraço interpessoal entre o Criador e a criatura, concretizado na história, isto é, na construção do reino de Deus de que participam Deus e o filho humano de Deus, através da fé e das obras.

Porém, quando a liberdade humana se desencadeia dando lugar a um “reconhecimento” agressivo - teologicamente falando, com o pecado – eis que é acionada a outra dimensão da salvação, que é a redenção. E aqui entram em cena temas fundamentais como o sacrifício, a expiação e a figura sacrificial de Cristo na sua morte, ato de radical partilha em solidariedade com os pecadores.

Naturalmente, tratando-se de perspectivas cristológicas que suscitaram uma reflexão secular sobre teologia, a análise adquire-se densa ramificações que, no entanto, acabam por convergir para o tronco central do “reconhecimento” de Deus da sua criatura em todo o seu percurso pessoal infame ou glorioso, assimétrico ou convergente com ele e com o próximo.

Nesse ponto, sugerimos aos nossos leitores, que também gostam de trilhar as veredas mais altas da especulação filosófica e teológica, uma parada numa espécie de planalto verdejante com um olhar que abraça o horizonte, no silêncio e na solidão. Isso pode ser feito - sempre permanecendo no campo da antropologia - com um novo encantador livro de um de nossos principais psiquiatras dotado, no entanto, de um extraordinário temperamento humanista (basta seguir as suas citações), Eugenio Borgna. O texto é intitulado precisamente Em diálogo com a solidão (em tradução livre) e é uma joia de meditações profanas e religiosas, profundas e transparentes, realistas e oníricas.

Esses oximoros não são retóricos porque aqueles que lerem essas páginas se encontrarão no frescor encantado da solidão, a verdadeira dieta da alma, mas também na gélida sala do isolamento que é, em vez disso, o campo de jogo de Satanás, como escrevia Nabokov. Viverão a experiência suprema das "flores branco do jasmim" de Etty Hillesum, ou dos "fragmentos do céu" de Virginia Woolf, mas também o isolamento / solidão da criança, do adolescente, do idoso, do enfermo, da casa de repouso, do paciente psiquiátrico, do autismo. O que domina, porém, nesse escrito é o fascínio da verdadeira solidão que é silêncio e palavra, é celebração e catarse, é escuta do infinito, é poesia (o "pássaro solitário” de Leopardi), é o nascer e o ocaso ... Esta, no entanto, não é uma resenha, mas um convite a um diálogo silencioso, mas intenso, com o autor.

 

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