“A alma dos Estados Unidos morre com aqueles refugiados perseguidos”. Entrevista com André Aciman, refugiado

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23 Setembro 2021

 

Fala o escritor sobre as imagens de migrantes haitianos perseguidos por guardas no Texas "Sem estrangeiros este país não teria prosperado. Foram eles que construíram os Estados Unidos." 

O refugiado André Aciman, olha incrédulo às fotos dos refugiados haitianos, que fogem no Texas perseguidos pelos guardas da fronteira dos EUA a cavalo: “A sensação é que este país perdeu sua alma. É horrível". O escritor André Aciman nasceu no Egito, foi forçado a emigrar primeiro para a Itália e depois para os EUA, e essa experiência pessoal o torna sensível às imagens que chegam de Del Rio. Milhares de haitianos estão acampados ali após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, na esperança de cruzar o Rio Grande, antes que o governo Biden os capture para deportá-los.

A entrevista com André Aciman é editada por Paolo Mastrolilli e publicada por La Stampa, 22-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

O que você pensa, olhando aquelas fotos?

Existem dois pontos de vista. De acordo com o primeiro, todo país tem o direito de proteger suas fronteiras. Os refugiados estão atacando os EUA que, portanto, tem o direito de se defender, se essa é a interpretação correta, o que eu não acredito. Depois, há a longa tradição histórica, nos EUA como na Europa, de acolher os refugiados. Pessoas que fogem da pobreza, do crime, ou como você quiser chamar, têm o direito de ser hospedadas. Nesse sentido, a Itália sempre foi particularmente de ajuda. Os EUA, devido a Trump, desenvolveram uma atitude totalmente regressiva e arrogante, criando uma atmosfera entre as forças da ordem que as leva a serem muito mais hostis do que seria necessário. Ver as fotos de uma menina fugindo, perseguida por um cowboy a cavalo, deixa muita gente feliz, porque é um gesto viril e masculino, mas é um horror.

Precisamos ajudar essas pessoas. Chegam da miséria mais absoluta, são pobres, alquebrados e já sofreram muito. Eu entendo aqueles que dizem que não podemos hospedar todos, mas penso que devemos deixá-los entrar.

Biden, que aumentou para 125.000 os refugiados aceitos pelos EUA, ele está imitando Trump?

Muitos exploram a hostilidade contra os migrantes e, portanto, tudo é condicionado pela política interna. Os EUA estão se tornando outra coisa. Basta olhar para o que acontece com os republicanos que se opõem a Trump: eles não concorrem novamente, porque suas vidas foram ameaçadas. Quando isso aconteceu antes nos EUA?

Na Estátua da Liberdade tem um verso pedindo ao mundo que envie suas massas abandonadas.

Claro, e deveríamos continuar a aplicá-lo. Esqueça que essas pessoas são perseguidas pela polícia, ou peças pequenas do narcotráfico: elas não têm perspectiva, vivem amontoadas debaixo de uma ponte. O que você vai fazer, as deixar morrer de fome?”

Os EUA mudaram de alma?

Odeio ser simplista, mas um país onde quase 50% dos eleitores, 72 ou 73 milhões, votaram em Trump, foi contaminado por ideias hostis aos valores fundamentais da democracia, liberdade, tolerância, ser de benéfico para o resto do mundo. Italianos, irlandeses, judeus vieram para os EUA com a esperança de se reinventarem, e eles o fizeram. Muitos mexicanos trabalham sem segurança, aposentadoria ou assistência médica. Gente sem esperança, que construiu o país.

O pai de Steve Jobs era um emigrante sírio, sem ele a Apple não teria existido.

Nada teria existido. Este seria um país anglo-saxão branco e não teria prosperado como prosperou, precisamente graças aos estrangeiros que o enriqueceram. Veja os indianos, que hoje dirigem as maiores empresas de tecnologia.

Se você não tivesse sido acolhido, teria se tornado a pessoa que é hoje?

Não sei o que teria me tornado, talvez um empresário. Quem sabe? Mas o fato é que a Itália primeiro, e os EUA depois, me acolheram. Foi uma oportunidade maravilhosa, todas as portas se abriram. Não sou mais talentoso do que os outros, apenas tive sorte. Mas a sorte existe em alguns lugares mais do que em outros. Não acredito que uma criança nascida hoje na Síria tenha a chance de ter sorte, e negar essa esperança a pessoas em extrema necessidade é desumano.

 

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