Bartolomeu em Kiev: evento histórico ou ofensa grave?

Foto; Massimo Finizio | Wikimedia Commons

06 Setembro 2021

 

“Este é um evento histórico, porque celebramos no mesmo dia a independência da Ucrânia e a autocefalia da Igreja Ortodoxa.” A afirmação é do metropolita Epifânio, à frente da Igreja ucraniana autocéfala.

 

O comentário é de Lorenzo Prezzi, publicado em Settimana News, 31-08-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

A visita do Patriarca Bartolomeu a Kiev (20 a 24 de agosto) foi muito apreciada tanto por parte das autoridades políticas, quanto nos ambientes do Patriarcado de Constantinopla.

 

No dia 28 de agosto, por ocasião da celebração litúrgica da Dormição de Maria, o patriarca de Moscou, Cirilo, qualificou o mesmo evento como uma ofensa grave. Falando das Igrejas ortodoxas “dilaceradas pelas forças do mal”, ele disse: “Um exemplo de tudo isso é a visita pecaminosa e incompreensível do Patriarca de Constantinopla a Kiev e a sua concelebração com os cismáticos”.

 

O juízo contrário confirma a grave dificuldade atual nas relações internas da Ortodoxia.

 

Cirilo pode estar levando em conta a significativa participação da Igreja ortodoxa pró-Rússia na Ucrânia, os eventos de massa contra as leis que a penalizam e a grande procissão por ocasião do 1.033º aniversário da cristianização da Rus’ (27 de julho), que reuniu 300.000 fiéis na capital, fazendo referência à primazia do bispo Onófrio, apoiado por Moscou.

 

As atividades disruptivas da recém-nascida associação laical (Miriani), voltadas a reunir os fiéis contestadores nas ruas e nas praças atravessadas por Bartolomeu, se impediram as grandes multidões, não conseguiram entregar à mídia nenhum confronto direto, dada a rapidez e o sigilo dos deslocamentos do patriarca.

 

Dezenas de compromissos

 

A viagem foi basicamente bem sucedida. O patriarca honrou todos os 30 eventos programados: do encontro com o presidente, Volodymyr Zelensky, com o parlamento e as outras autoridades civis, às numerosas celebrações, como a de Santa Sofia, da qual participaram, nos espaços externos ao edifício, 15.000 pessoas, passando pelo diálogo com os órfãos da guerra nunca declarada em Donbass, às honras em memória das vítimas do genocídio ucraniano (Holodomor), perseguidos por Stalin, até o encontro com o Conselho das Religiões do país. Ele também esteve presente no grande desfile militar pelo 30o aniversário da independência da Ucrânia (24 agosto de 1991).

 

Também foi muito significativa a iniciativa sugerida (Bartolomeu) e recebida (Zelenski) de celebrar, além do aniversário da independência, também a festa da nacionalidade ucraniana no dia do batismo da Rus’ (27 de julho) como um ponto de referência para a identidade ético-cultural do povo ucraniano. Esvaziando, de fato, a dimensão anti-institucional da peregrinação até agora reforçada pela Igreja pró-Rússia.

 

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Sociologia de Kiev, 58% dos ortodoxos ucranianos apoiam a nova Igreja autocéfala (10% a mais do que no ano passado), enquanto 25% apoiam a Igreja pró-Rússia. A ocupação russa da Crimeia e a permanente guerra nas regiões orientais de Donbass (14.000 mortos), nunca censuradas pelo patriarca de Moscou, além da condescendência do governo com a nova Igreja, colocaram os pró-russos em dificuldades.

 

Como observou o cientista político ucraniano V. Fessenko: “O patriarca de Moscou compreende que a sua posição está enfraquecida, e as manifestações de protesto são tentativas de mostrar a própria força em vista da sobrevivência da Igreja pró-Rússia no país”.

 

Autocefalia e primado

 

Entre os temas e os encontros, cito a questão da autocefalia, as manifestações anti-Bartolomeu e o encontro com as outras confissões e religiões.

 

No discurso por ocasião do seu doutorado honoris causa na Universidade Nacional de Kiev, Bartolomeu afirmou: “A concessão da autocefalia à Igreja Ortodoxa Ucraniana em 2019 foi, acima de tudo, uma preocupação pastoral pela justiça e pela liberdade espiritual (...) de importância crucial para curar os cismas e as divisões na Igreja local”.

 

“A autocefalia ucraniana foi um ato de responsabilidade da Igreja mãe. Ninguém pode afirmar em consciência que resgatar uma ovelha perdida dentro da Igreja consiste em uma servidão às agendas políticas e aos interesses geopolíticos do mundo (...) A concessão da autocefalia à Igreja da Ucrânia pelo patriarcado ecumênico não era apenas eclesiológica e canonicamente correta, mas também era a única solução realista para o problema. Consequentemente, só o reconhecimento da autocefalia ucraniana por parte de todas as Igrejas ortodoxas fortalecerá a unidade ortodoxa, e não outras posições, ou apelos por encontros pan-ortodoxos, ou as inúmeras entrevistas à mídia, carregadas de ofensas.”

 

No fim da celebração em Santa Sofia, ele lembrou a incompreensível recusa da Igreja russa e de três outras Igrejas a irem ao grande concílio de Creta em 2016. “Elas queriam sabotar e desacreditar o santo e grande concílio de Creta, que todos juntos decidimos convocar. Pela graça de Deus e pelo poder do Santo Espírito, o grande e santo conselho da Igreja Ortodoxa foi celebrado. Aqueles que se isentaram e desonraram são aqueles que não vieram, que tentaram miná-lo e anulá-lo.”

 

O vice-presidente do Departamento para as Relações Exteriores do Patriarcado de Moscou, N. Balashov, negou qualquer legitimidade canônica para a operação de Constantinopla, denunciando o seu perigoso desvio em relação ao exercício de uma primazia que assume as formas do primado romano.

 

“Nós, ortodoxos, não temos e nunca tivemos o primado. O patriarca de Constantinopla não é o papa de Roma. O Vaticano I foi celebrado sem nós. E a infalibilidade papal dos nossos irmãos católicos, aos quais o Fanar se aproxima tão rapidamente, está repleta de graves limites.”

 

O metropolita Antônio (Pakantitch), chanceler da Igreja pró-Rússia ucraniana, lembrou os numerosos conflitos sobre a propriedade das igrejas e a mudança das comunidades cristãs de uma obediência a outra, que reforçam a desestabilização religiosa do país. E insistiu na censura dogmática à pretensão de Constantinopla.

 

“A promoção por parte do Fanar da concepção de ‘primus sine paribus’ (primeiro sem iguais, em comparação com o tradicional ‘primus inter pares’, primeiro entre iguais) e o seu movimento rumo à união com Roma abrem numerosas questões complexas e de fundo. Na minha opinião, a consciência conciliar da fé da Igreja Ortodoxa não só pode, mas também deve produzir uma avaliação das intrigas promovidas pelo Fanar.”

 

A posição de Constantinopla, por enquanto, é compartilhada pelas Igrejas da Grécia, Chipre e Alexandria. Rumores não confirmados falam de um próximo consenso por parte da Igreja da Geórgia.

 

Convite ao diálogo

 

A associação Miriani encabeçou as últimas atividades públicas em defesa da Igreja pró-Rússia (coleta de assinaturas, pedido para cancelar a viagem, a peregrinação pelo 1.033º aniversário da conversão da Rus’). Ela é dirigida por leigos, muitas vezes próximos dos partidos de oposição. Ela tentou organizar uma presença contestadora durante a visita de Bartolomeu e pediu-lhe um encontro de esclarecimento com uma carta pública.

 

A carta afirma: “A sua decisão de satisfazer o pedido do ex-presidente ucraniano (P. Poroshenko), concedendo o tomo da autocefalia à instituição chama de Igreja Ortodoxa da Ucrânia, provocou verdadeiras perseguições em relação à nossa Igreja ortodoxa ucraniana, cujo primaz metropolita de Kiev e de toda a Ucrânia é Onófrio (...) Consideramos que lhe foram dadas informações falsas sobre o que está acontecendo na Ucrânia. Por isso, pedimos-lhe para nos encontrar para comunicarmos toda a verdade e encontrar uma solução para a situação da nossa Igreja”. A abordagem caiu no vácuo.

 

No dia 23 de agosto, houve o encontro do patriarca com a Associação Ucraniana das Confissões Religiosas, que reúne os representantes das religiões do país. O órgão é presidido agora pelo arcebispo maior dos ucranianos greco-católicos, Sviatoslav Shevchuk. Dirigindo-se ao convidado, ele disse: “Hoje temos a oportunidade de lhe falar de uma rica vida religiosa na Ucrânia, para além das identidades étnicas e confessionais individuais (...) Advertimos que o senhor veio não só para os ortodoxos, mas também para todos os ucranianos”.

 

Bartolomeu desenvolveu o tema do diálogo entre confissões e fés, advertindo a não “privatizar a verdade”, favorecendo e encorajando o respeito e a ação comum. Só o diálogo pode “resolver as nossas diferenças, promover a estabilidade, combater os preconceitos e a intolerância, apoiar a paz, a harmonia, a solidariedade e a cooperação”.

 

“A ascensão do fundamentalismo e do extremismo religiosos, do ódio e do etnofiletismo é um fenômeno transversal a todas as tradições religiosas, que produz autoisolamento, limitação e rejeição do diferente: atitudes que negam a verdadeira missão da religião”.

 

Unidade ou aliança?

 

O conflito intraortodoxo pesa muito no contexto do diálogo ecumênico entre as Igrejas cristãs e em particular com a Igreja Católica, que é a interlocutora privilegiada e mais próxima.

 

Para os ortodoxos russos, as pretensões “papistas” de Constantinopla teriam sido alimentadas pelo diálogo com a Igreja Católica. Não por instigação dos católicos, mas porque, no confronto teológico, o Fanar teria encontrado uma forma de transmitir a necessidade de ter uma autoridade particular, justamente a do “primus sine paribus”, do primeiro com responsabilidades particulares. Nesse ponto, para a Igreja russa, o diálogo teológico está “em um beco sem saída” (Mons. Hilarion).

 

Isso não impediu aquela que foi chamada de “aliança estratégica”, ou seja, a ação comum das duas Igrejas em relação a problemas como a defesa dos cristãos perseguidos, o secularismo agressivo ou as relações funcionais de estudo e de intercâmbio. Uma relação de um perfil menos exigente, mas que, mesmo assim, permite um certo caminho comum.

 

O governo ucraniano apoiou a visita de Bartolomeu também para dar visibilidade ao confronto com a Rússia. Também no dia 24 de agosto, foi inaugurada em Kiev a Plataforma Crimeia, que visa a envolver a União Europeia e os Estados Unidos para se manter viva a atenção sobre a Crimeia e sobre todos os meios diplomáticos para se chegar a uma solução que salvaguarde os direitos territoriais da Ucrânia.

 

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