Pão, azeite e vinho: a dieta dos deuses. Artigo de Marino Niola

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28 Julho 2021

 

"Hoje, as agências internacionais, como a OMS, elevam o modelo alimentar mediterrâneo a modelo ideal de bem-estar e saúde, convivência e sustentabilidade, não fazem nada além de se colocarem na esteira aberta pelas prescrições religiosas. Recolhem o sentido, limitando-se a substituir a salvação da alma pela saúde do corpo e do meio ambiente. E está feito", escreve o antropólogo italiano Marino Niola, professor da Università degli Studi Suor Orsola Benincasa, em Nápoles, Itália, em artigo publicado por La Repubblica, 27-07-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Então o Senhor disse a Moisés: “Eis que vos farei chover pão dos céus”. Com essas palavras, o livro do Êxodo afirma claramente a santidade do pão. Uma ideia comum, aliás, a todos os povos mediterrâneos que consideram este alimento um dom divino. Como o azeite e o vinho, os outros alimentos que caracterizam as cozinhas do Mare Nostrum. Juntos, eles formam a chamada tríade mediterrânea. Não é por acaso que a cultura greco-latina constrói em torno desses alimentos um aparato imponente de regras religiosas, narrativas mitológicas, práticas rituais, crenças supersticiosas, metáforas poéticas, normas dietéticas. E quando um povo emprega tamanha energia coletiva para tirar da cotidianidade uma coisa, um lugar, um gesto, um alimento, é para afirmar solenemente sua importância vital. O que é um pouco como passar um marcador de texto na mesa.

Como dizia Guido Ceronetti, “é o interdito sagrado que protege a natureza, não a boa educação, não o direito civil. Se a oliveira é sagrada para um Deus, a oliveira não será cortada". É por isso que na origem dos alimentos básicos do Mediterrâneo existem três macronutrientes para três grandes divindades.

Porque, olhando bem, a sacralização é a primeira forma de certificação e de proteção, um DOC antes do DOC, uma denominação de origem consagrada.

No mundo antigo, o universo dos cereais é colocado sob o signo de Deméter, literalmente deusa mãe - bem como de sua filha Kore, também chamada de Perséfone. As duas no mundo romano tornam-se respectivamente Ceres, da qual o nosso termo cereais e Prosérpina. A primeira é a senhora das colheitas e da fertilidade. A segunda simboliza o ciclo do trigo e dos outros frutos, caracterizado pela alternância sazonal entre a semeadura e a colheita. Um vínculo nascido quando a jovem Perséfone é sequestrada pelo deus do submundo Hades, para os latinos Plutão, que a leva para o submundo e se casa com ela imediatamente. Deméter, enfurecida pela fuga, consegue de Zeus que a garota passe o outono e o inverno na tenebrosa morada do marido, para voltar à luz do sol na primavera e no verão, como uma espiga de trigo que brota da terra.

Assim, as antigas religiões mediterrâneas santificam o ciclo da morte e renascimento das safras, uma paixão e ressurreição do trigo cujo eco simbólico chega até o cristianismo.

Nos Hinos Órficos, coletânea de orações do segundo século depois de Cristo, Deméter é invocada como "guardiã da plantação", "acumuladora de espigas", "padroeira da semeadura" e "primeira juntadora de bois". Em suma, a deusa é identificada com a própria agricultura. Tanto que a ela e sua filha são oferecidos em ex-voto arados e aivecas e porcos selvagens são sacrificados, porque destroem as plantações. E para estar mais perto da grande mãe, os devotos que visitam seus santuários comem o “ciceone”, um alimento feito de farinha fina, água fervente e hortelã. Um mingau ritual.

E se devemos o pão à Deusa Mãe, pelo azeite estamos em dívida com Atenas, a virgem que inventou o extra virgem. Em Atenas, cidade que leva o nome da deusa, na antiguidade a oliveira sagrada era considerada imortal, como uma divindade. Tanto que se conta que tenha reflorecido prodigiosamente das cinzas da Acrópole queimada pelos persas em 480 a.C. E ainda hoje pode-se tirar uma selfie na frente de seus galhos prateados. Essa árvore frutífera e generosa representa simbolicamente a continuidade da pólis. E por isso, quando os efebos, ou seja, os jovens atenienses, saem da adolescência para fazer a sua entrada na idade adulta, juram defender a pátria chamando como testemunhas justamente as Morias, as oliveiras consagradas a Zeus Morios. O valor dessa planta e das azeitonas é tal que em Atenas arrancar ou estragar uma oliveira sagrada foi por muito tempo punido com a morte.

Não fica atrás a cultura judaica, onde a sacralidade do cultivo da oliveira pode ser rastreada até o tempo da criação. A primeira semente oleaginosa teria caído do céu no túmulo de Adão. E no Sancta Sanctorum do templo de Jerusalém, de acordo com o Livro dos Reis, Salomão manda colocar dois querubins colossais esculpidos na oliveira.

O terceiro elemento da tríade é o vinho, um dom de Dionísio, para os romanos Baco, o deus que se torna líquido como a videira e borbulha nas taças. O deus estrangeiro que, através da embriaguez faz aflorar o lado oculto da pessoa, aquele estrangeiro que se encontra nas profundezas de nós mesmos. Dionísio, seguido por seu cortejo de mênades possuídas e sátiros inebriados, leva o caos aonde quer que vá. Mas é um caos positivo, criativo, uma forma de abertura ao outro, problemática, mas necessária. Justamente por isso, a intensidade da relação com Dionísio deve ser cuidadosamente calibrada. Justamente como fazem os gregos, que sempre misturam água ao vinho para aumentar seu poder socializante e diminuir aquele inebriante.

Posteriormente, o cristianismo importa de forma quase idêntica os alimentos da tríade em seu sistema simbólico, mas com uma mudança decisiva de sentido. Tornando o pão e o vinho as substâncias eucarísticas do corpo e do sangue de Cristo. O deus encarnado, nascido em Belém, que em hebraico significa "cidade do pão", torna-se líquido exatamente como Dionísio e como ele leva o fermento a todos os lugares que visita. Tanto é que no Evangelho de Mateus Jesus diz de si mesmo: "fui estrangeiro e vocês me acolheram".

Em suma, o lugar das três divindades pagãs é ocupado por um deus que é uno e trino. E que tem o óleo no nome, já que Cristo, do grego Christos, significa ungido. O mesmo significado do hebraico Masiah, do qual o nosso Messias. Afinal, os momentos cruciais da Paixão acontecem sob o signo do azeite, do vinho e do pão. Depois da última ceia, de fato, Jesus vai rezar no jardim do Getsêmani, que em aramaico significa lagar de azeite, e que fica ao pé do Monte das Oliveiras, também chamado de Monte da Unção, porque com o óleo extraído daquelas oliveiras reis e sacerdotes eram consagrados. Neste sentido, com o sacramento da comunhão, os cristãos fecham o círculo aberto pelas religiões anteriores, chegando simbolicamente a comer Deus.

Hoje, as agências internacionais, como a OMS, elevam o modelo alimentar mediterrâneo a modelo ideal de bem-estar e saúde, convivência e sustentabilidade, não fazem nada além de se colocarem na esteira aberta pelas prescrições religiosas. Recolhem o sentido, limitando-se a substituir a salvação da alma pela saúde do corpo e do meio ambiente. E está feito.

 

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