Dionísio, o retorno do deus que nunca morreu. Artigo de Silvia Ronchey

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07 Setembro 2016

"A nossa sociedade, na roda do eterno retorno, se reapropriou do deus da igualdade universal, em termos não mais esotéricos, mas explícitos e de massa. E, se isso nos inquieta, Dionísio alcançou o seu objetivo."
 
A opinião é da historiadora e filóloga italiana Silvia Ronchey, professora da Universidade Roma Tre, em artigo publicado no jornal La Repubblica, 31-08-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Quando o jovem sai da discoteca de madrugada, ofuscado pelas drogas e pelo álcool, e com a luz da manhã ataca-o o estupor da infância; quando, na campanha grega, o agricultor, tendo provado o vinho novo, se levanta e acena entre as videiras a lenta dança em círculos; quando o poeta escreve que, "sussurrando, encoroa-nos os cabelo o deus comum / e funde em um as consciências como pérolas de vinho"; quando, entre o barulho dos macacos, o som da tabla anuncia o início de uma rave na praia de Goa; quando, passeando, encontramos o olhar imóvel de um animal e nos espelhamos na sua divindade – então, e muitas outras vezes, Dionísio se manifesta.

Dionísio, o deus que Ovídio chamava de Puer Aeternus, apropria-se da nossa vida de repente, esmagando as leis e os hábitos, quebrando a identidade pessoal, despedaçando as dualidades – consciente-inconsciente, pessoa-cosmos – como explica Elémire Zolla em um dos seus escritos mais bonitos, Dioniso errante [Dionísio errante], agora integralmente legível no sexto volume da opera omnia, editada com abnegação e sabedoria por Grazia Marchianò (Ed. Marsilio, 622 páginas).

O deus da ebriedade, da confusão da alma, como profere o coro das bacantes de Eurípides, o deus devorado, desmembrado como os cachos da videira, o deus plural e "produtor de todas as pluralidades", como Próclus definiu-o no comentário ao Timeu de Platão, o deus dos muitos nomes (entre os mais conhecidos, Baco, mas também Iaco, "ululante" nos mistérios eleusinos, Libero, "libertador", sem contar as hipóstases estelares que o elevam ao máximo fulgor na confusão do céu, eternizando as suas histórias míticas no retorno dos astros), o deus da máscara e do falo, dos rostos masculinos e femininos além de humanos e ferinos (infante, homem barbudo, dama velada, cabra, asno, pantera), foi, como conta Nono de Panópolis, um misturador de povos, um libertador de oprimidos, mas, sobretudo, um libertador das mulheres: das camponesas que, para acorrer ao chamado do ditirambo, abandonavam a segregação doméstica às matronas dos afrescos dionisíacos da Villa dei Misteri, em Pompeia.

Nessa emergência matriarcal, "mais civilizada do que a das Amazonas", como ilustrou Bachofen, Dionísio fez da mulher a guia do tíaso e a depositária dos seus mais profundos estados de êxtase. As mênades, à imitação do movimento vorticoso impresso ao tirso, giravam a cabeça como dervixes, mantendo-a inclinada para o lado como fariam, nos seus êxtases, as místicas cristãs, de Catarina a Teresa.

Pelos soldados da expedição de Alexandre à Índia, Dionísio foi assimilado, não erroneamente, a Shiva, "deus do haxixe, do ímpeto do touro e do falo, do frêmito que sacode quem está sozinho na floresta à noite". E, de fato, Novalis o invoca no "Hino à "noite": "Do feixe de papoulas / em doce embriaguez / fazes crescer as pesadas asas do coração".

Mas ele estava sediado na Grécia desde a idade minoica, e embora o seu carro arrastado por tigres tenha levado Ariadne para a Índia, a partir da Ilha de Naxos, onde ela tinha sido abandonada por Teseu (ou talvez ela mesma o tinha abandonado, arrebatada em um sono que já era um prelúdio ao rapto dionisíaco), em Creta, pátria do labirinto, os ritos, descritos mais tarde por Filo de Alexandria, levavam os adeptos "a saírem de si mesmos e perceberem o objeto do desejo".

O grande deus Pan está morto, anunciava Plutarco quando o politeísmo teve que dar lugar ao monoteísmo da heresia judaica que logo dominaria o mundo conhecido. Mas não aconteceu a mesma, não realmente, a Dionísio. O novo deus dos cristãos tinha assumido e, pouco a pouco, assumiria traços do "deus comum", como Hölderlin o chamara. Ao término da polimórfica história mitológica que o envolve, Dionísio desceu ao Hades e de lá voltou, "com a morte derrotando a morte", como diz o hino pascal da ortodoxia, "arrancando da morte o seu aguilhão", como escreveu São Paulo: a ressurreição é "a marca de Dionísio", que não só a completou (três vezes), mas subiu ao céu e sentou-se à direita do Pai (Zeus). Rios de escritas foram dedicados ao dionisismo cristão, dos antigos Padres da Igreja até os modernos historiadores das religiões, provocados por Schelling, que, explicitamente, assimilaria Dionísio a Cristo.

Se Jesus é, em João 15, 1-2, "a videira verdadeira", e os apóstolos devem aderir a ele como os cachos ao ramo, se o milagre de Caná é um típico prodígio dionisíaco (o precedente mais conhecido em Pausânias), o sacrifício do homem-videira na eucaristia reforça a tradição da mitografia dionisíaca (em que o vinho já é chamado de "o doce sangue", e o poder de transmutar em pão e em vinho já é concedido por Dionísio, de acordo com as Metamorfoses de Ovídio, aos seus fiéis).

Se o calendário cristão se apropriou de datas sagradas também a Dionísio, como o dia 6 de janeiro, o Pentecostes tem, enfatiza Zolla, características de festa dionisíaca.

Como escreveu Gregório Nazianzeno, um dos maiores teólogos bizantinos: "Eis que Jesus novamente está aqui e, junto com ele, está aqui um mistério. Mas não é mais um mistério do inebriamento, mas sim um mistério que provém do alto". Talvez, por isso, foi atribuído a ele um dos produtos mais flagrantes do sincretismo bizantino, o Christus patiens, de idade provavelmente pós-iconoclasta, onde a morte de Jesus é colocada ao lado da de Penteu por parte das bacantes. Seguindo as sugestões de estudiosos neogregos, Zolla conjectura, talvez de brincadeira, a persistência em Bizâncio, e ainda durante a turcocracia, de tíasos ou irmandades secretas dionisíacas, contíguas a heresias dualistas cristãs, cujos adeptos traziam tatuada na fronte a antiga folha de hera. Para além das sobrevivências, a substância da percepção cristã era antitética à dionisíaca.

Com a sua visão antropocêntrica e a sua estreita razão prática, como Nietzsche compreenderia, o cristianismo negou o dionisismo, o seu "aprofundamento na vida animal e vegetal, sem falar na substância mineral, a liberdade com todos os seus riscos". A escatologia cristã suprimiu o tempo cíclico, suspendeu a "revogação dionisíaca da consciência histórica", para introduzir uma promessa de juízo final e progresso linear, a uma libertação para além da vida.

O grande deus Pan estava morto, mas Dionísio, clandestino e reprimido pela moral cristã, foi reimportado pelos neoplatônicos de Bizâncio e ressurgiu no Renascimento acima de tudo florentino, na primeira corte dos Médici, quando – como intuído por Pound – os bizantinos ditavam, e Ficino descrevia com precisão "o êxtase e o abandono de mentes livres, que, milagrosamente transformadas, superam os limites da inteligência e se inebriam com uma imensurável alegria";

Inoculado no século XV platônico, Dionísio se infiltrou na cultura visual europeia, habitou no novo gênero pictórico dos bacanais (Bellini e Correggio, Caravaggio e Ticiano), no mais esotérico mistério que permeou os quadros de Leonardo; ressurgiu na literatura dos românticos alemães e dos dionisíacos ingleses e franceses (Coleridge e De Quincey, além de Baudelaire), pelos quais serão influenciados, dentre outros, os estudos de Bachofen, Rohde, Frazer, Otto, Kerenyi.

Foi Dionísio que, no século XX, inspirou a revolução psicodélica, talvez a sexual, certamente a libertação das mulheres, Ariadne sequestrada pelos vínculos burgueses no seu carro guiado por tigres. A coroa da racionalidade, lançada para o alto, se imprimiu como o diadema de Ariadne no céu noturno da psique, quando o Id, com a psicanálise, reconquistou o seu domínio. Dionísio nos reconvocou para a Índia, nos repropôs a consciência da impermanência, no ensinou novamente o mundo animal e a natureza vegetal.

Não é só o caráter orgiástico que, na dissolução das religiões exclusivas e do folclore tradicional, assumiu a sexualidade ou os ritos da vida associada. Não é só o ritmo do reggae, o espírito da música, como Nietzsche o chamava, que serve de trilha sonora para a tragédia do massacre global, na nova intensificação da ferocidade das guerras do mundo. É que a nossa sociedade, na roda do eterno retorno, se reapropriou do deus da igualdade universal, em termos não mais esotéricos, mas explícitos e de massa. E, se isso nos inquieta, Dionísio alcançou o seu objetivo.

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