“Ao longo de nossa vida, veremos um oceano Ártico sem gelo”. Entrevista com Marco Tedesco

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15 Julho 2021

 

Ele a conheceu quase por acaso e sua vida mudou para sempre. “Foi como alguém que encontra sua namorada em um bar e, de repente, percebe que gosta dela”. Marco Tedesco nasceu em Nápoles, Itália, onde a neve só aparece nos livros. Mesmo assim, este professor da Universidade Columbia e pesquisador do Goddard Institute for Space Studies da NASA (GISS) é um dos maiores especialistas do mundo em neve e glaciares.

Está há quase 20 anos de sua vida tentando entender o gelo e a mudança climática, tanto no laboratório como em campo. Suas visitas a Groenlândia são frequentes. Além disso, dedica boa parte de seu tempo na divulgação.

No ano passado, publicou Hielo. Viaje por el continente que desaparece (Gatopardo Ediciones), onde conta a história do Ártico, da aventura científica e de um novo clima que está mudando o planeta.

A entrevista é de Juan F. Samaniego, publicada por La Marea-Climática, 12-07-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Eu seu livro, você fala de um número mágico para os glaciares: 97 quilos por metro cúbico.

É um número mágico porque essa é a densidade do gelo. A partir daí, não é possível acrescentar mais massa a essa estrutura em que todos os átomos estão perfeitamente organizados. Quer dizer que menos de 10% do gelo é ar, o resto é água em estado sólido. É mágico pensar que algo caótico como a água pode se organizar em uma estrutura tão rígida e bela, elegante.

Como se alcança essa densidade no gelo de um glaciar?

O gelo de um glaciar não se forma como um cubinho no congelador. Forma-se a partir da neve que é comprimida por seu próprio peso, ano após ano. A parte que não derrete no verão continua se comprimindo sob o peso das novas nevadas no inverno. O ar entre os flocos vai desaparecendo e assim, pouco a pouco, atinge a densidade de 917 quilos por metro cúbico. Este processo é o que confere aos glaciares sua característica cor azul. Essa cor só é alcançada por meio de um processo lento e gradual, ao longo de milhares de anos.

Milhares de anos. Quanto tempo demora para todo este trabalho se desfazer?

Pode desaparecer em poucos dias. Podemos pensar nessas mandalas de areia feitas por alguns monges tibetanos. Demoram muitas semanas para compô-las, mas então uma pessoa pode vir, soprar, e em poucos segundos destruir todo o trabalho. Fazer novamente é praticamente impossível.

Com os glaciais acontece o mesmo. Não é possível recomeçar o processo porque as condições do planeta já não são as mesmas de quando começaram a se formar. Faz mais calor, neva menos e o processo de formação do gelo não funciona mais da mesma maneira.

Com que rapidez pode desaparecer um glaciar que demorou milhares de anos para se formar?

A resposta depende de muitos fatores. A pergunta talvez deveria ser com que rapidez estamos fazendo com que a Groenlândia e o Ártico derretam. E quais serão as consequências. Para frear o degelo, devemos parar de aquecer o planeta. Caso consigamos, poderemos ver se os mecanismos que foram ativados e estão acelerando as mudanças climáticas se desativam. Mas não sabemos se as coisas podem voltar a ser como eram antes.

É provável que já tenhamos ultrapassado alguns dos limites, dos pontos de não retorno. É como se em um cruzamento tivéssemos escolhido o caminho da direita, mas quando desejamos retornar, o caminho desapareceu. O objetivo agora deveria ser reduzir as emissões de CO2 e retirar o excesso de CO2 da atmosfera.

Caso consigamos, poderemos começar a ver os efeitos positivos depois de 50 ou 60 anos. No curto prazo, as consequências das mudanças climáticas estarão aí, independente do que façamos. É preciso pensar em como mitigá-las. Já sabemos há muito tempo o que estava acontecendo e não fizemos nada.

Nas últimas décadas, alguns glaciares de montanha, menores que os da Groenlândia, desapareceram completamente. Veremos um Ártico sem gelo, em um futuro próximo?

Ao final deste século, restarão muito poucos glaciares na Terra. Acredito que, ao longo de nossa vida, veremos um oceano Ártico sem gelo. Talvez permaneça alguma sobra perto do Polo Norte. Mas a cada verão o gelo derreterá quase completamente e esta situação será cada vez mais frequente. Em consequência, veremos cada vez mais tráfego marítimo, poluição e lixo no Ártico.

Um Ártico sem gelo traria importantes benefícios para algumas empresas. Há reservas de combustíveis fósseis, seriam abertas novas rotas de transporte...

Seria benéfico para alguns, mas também seria muito perigoso do ponto de vista do impacto ambiental. As oportunidades econômicas não compensam os riscos, que são também econômicos. As consequências, além disso, e como sempre acontece, acabarão sendo pagas por aqueles que são menos responsáveis pelas mudanças climáticas e por aqueles que não podem se proteger dos riscos. Penso nos grupos vulneráveis, nas classes mais baixas, nas minorias étnicas...

As grandes corporações já estão trabalhando para se protegerem das consequências das mudanças climáticas, tanto em nível de danos em infraestruturas, como em nível financeiro. Mas todos os grupos marginais poderão fazer muito pouco para se defenderem. Se você tem dinheiro e perde a sua casa, pode buscar outra. Mas se não tem, o resultado será muito diferente.

As temperaturas estão aumentando no Ártico muito mais rápido que no resto do mundo. Como a região está mudando?

É difícil notar grandes mudanças a olho nu. Mas se observamos imagens de satélite e dados, podemos ver que houve mudanças importantes nos últimos 10 a 15 anos. O que mais se destaca não é que as coisas estejam mudando, mas que esta mudança está se acelerando. Não é que chegue água dos glaciares ao oceano, mas que a cada ano chega mais e mais água do degelo. Isto é muito importante. Se a mudança climática está se acelerando, todos os modelos que temos não estão nos contando a história completa.

Imagine você em uma descida com uma bicicleta. Não precisa pedalar para acelerar, mas cada vez você vai mais rápido. Há uma série de mecanismos que atuam nessa aceleração. Se paramos de pedalar completamente, se deixamos de emitir CO2 de forma imediata, podemos continuar descendo e acelerando. Para frear e reduzir a velocidade, tempos que parar de descer e frear. Ou seja, não precisamos apenas parar de emitir, mas precisamos reduzir a quantidade de gases do efeito estufa na atmosfera.

E mesmo assim, continuamos pedalando.

Nossa sociedade e nossa economia dependem em tal medida dos combustíveis fósseis que, quando tentamos reduzir de um lado, acabamos aumentando de outro. Devemos fazer um esforço real para abandonar o carvão, o petróleo e o gás. Acredito que continuaremos pedalando na descida, durante algum tempo.

Retornando às consequências sociais das mudanças climáticas, como está afetando a população local na Groenlândia?

Já vimos como nas eleições de alguns meses atrás venceu um partido verde porque muita gente era contrária à mina de terras raras de Kuannersuit. Acredito que a mudança climática está assumindo uma dimensão bastante política na Groenlândia. Há tempo, as comunidades locais estão se vendo afetadas pelo desaparecimento do gelo marinho, onde tradicionalmente pescam e caçam.

As populações locais e, em especial, as nativas, não obtêm nenhum benefício das mudanças climáticas. Não é que seja algo positivo, mas caso forem geradas oportunidades, não serão as comunidades locais que aproveitarão. Os nativos não têm voz. Isso acontece na Groenlândia, nos Estados Unidos e acontece na Amazônia. Muitas destas populações estão marginalizadas e pagam um preço muito alto por um problema ao qual dificilmente contribuem.

Cada vez mais vozes pedem que as populações nativas não sejam consideradas apenas de um ponto de vista social, mas que o seu conhecimento seja utilizado para compreender melhor as mudanças climáticas e buscar soluções. É possível?

É muito difícil. Por exemplo, a Groenlândia pertence a Dinamarca, sendo assim, qualquer decisão ou movimento é muito influenciado e controlado pelo sistema dinamarquês. As populações locais não têm voz, nem têm independência para agir de forma diferente da Dinamarca.

A situação se repete em todo o mundo. Na Amazônia, os indígenas veem como se desmata e não podem fazer nada. No Alasca, os nativos ficam sem povoados e sem terras porque o permafrost está sendo derretido e não podem tomar decisões independentes para solucionar o problema.

Na verdade, penso que por parte dos governos há muito pouco interesse em buscar soluções para as populações indígenas. Verão desaparecer um lugar que foi o seu lar durante séculos e ninguém parece se importar.

Então, os grandes discursos que falam de levá-los em conta, são palavras vazias?

Na maior parte das vezes, sim, sem dúvida.

Voltando ao clima, a Terra mudou muitas vezes no passado. O que faz esta mudança climática diferente?

É diferente porque foi causada por nós. Além disso, as mudanças climáticas do passado foram causadas por alterações naturais que aconteceram ao longo de muito tempo. Mas, desta vez, tudo está acontecendo em 200 anos.

Quando o CO2 na atmosfera atingiu concentrações semelhantes à atual no passado, o nível do mar estava vários metros acima. Isto pode sugerir que estamos vendo apenas parte da história da mudança climática, a Terra ainda está começando a reagir ao forçamento radiativo [a diferença entre a energia que chega do Sol e a que o planeta reflete de volta ao espaço] que provocamos.

Ou seja, pode significar que veremos consequências muito mais extremas do que aquelas que somos capazes de prever. É muito difícil saber o que irá acontecer porque o processo de mudança climática nunca havia acontecido de forma tão rápida no passado. Sem a intervenção humana, não há como explicar o que está acontecendo nesse exato momento no planeta. Agora, tentamos consertar coisas que já estão quebradas, mas acredito que talvez precisaríamos nos prender mais a como minimizar as consequências.

A comunidade científica que faz trabalho de campo costuma dizer que a natureza está nos contando uma história. O que o Ártico nos diz?

Diz-nos que o ser humano é uma criatura poderosa, apesar de seu pequeno tamanho. Somos como pequenos vírus que, em conjunto, somos capazes de danificar um sistema imenso e complexo como o da Terra. No entanto, acredito que os primeiros meses da pandemia, apesar de tão tristes, servem também para entender que podemos ser poderosos de forma positiva.

Se podemos dar tempo ao planeta para se recuperar, sim, podemos nos adaptar à Terra. Em vez de adaptar a Terra ao nosso estilo de vida, talvez possamos solucionar as coisas. Um pequeno gesto, repetido por milhões de pessoas, pode mudar tudo. Podemos continuar pedindo aos políticos uma solução, mas não podemos continuar sendo hipócritas e perceber que todos precisamos mudar. Precisamos de uma mudança cultural, não de uma mudança de cima para baixo.

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