Inteligência da fé e promoção do humano - O apelo de dez teólogos e teólogas: “Salvar a fraternidade – Juntos”

Foto: Vatican Media

10 Junho 2021

 

Na manhã de terça-feira, 8 de junho, foi apresentado "Salvar a fraternidade – juntos". Um apelo (publicado pela Editora Vaticana na série "Humana Communitas") escrito por um grupo de dez teólogos e teólogas a pedido da Pontifícia Academia para a Vida e do Pontifício Instituto Teológico João Paulo II, duas instituições que representam laboratórios de pensamento, onde - explica o arcebispo Vincenzo Paglia - “se sentiu a exigência de envolver alguns estudiosos no âmbito da teologia na preparação de um caminho direcionado e concreto sobre o futuro do pensamento cristão, em relação à comunicação da fé e da forma de teologia no quadro da forma eclesial, humana e civil" do pós-pandemia.

O caminho, que pretende recolher as provocações de Fratelli tutti do Papa Francisco, “verá uma sucessão de acontecimentos que terão o propósito de ativar uma ‘polifonia’ de contrapontos e desdobramentos desta dupla questão. Nossa teologia poderá ter um futuro digno de sua tradição? E reciprocamente: pode o futuro em que vivemos ter uma teologia à altura do seu kairós?”. O objetivo é um debate aberto, um confronto franco entre teólogos e intelectuais que também será apresentado nas páginas do L'Osservatore Romano.

 

A reportagem é de Roberto Cetera, publicada por L'Osservatore Romano, 08-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O arcebispo Vincenzo Paglia conclama ao confronto e ao debate por uma renovação teológica

 

O apelo "Salvar a fraternidade - Juntos" - cuja síntese está proposta na ficha que abre este "primeiro plano" - com o qual um grande grupo de teólogos e filósofos pretendem relançar a necessidade de um pensamento dialógico em torno da proposta de um Novo Humanismo, se propõe como manifesto de uma "refundação teológica", em chave experiencial.

A iniciativa, promovida pela Pontifícia Academia para a Vida, nasceu após o encontro de 5 de maio passado no Pontifício Instituto João Paulo II, que viu Christoph Theobald, Elmar SalmannPierangelo Sequeri imaginarem, sob diferentes pontos de vista, um reposicionamento epistemológico das ciências teológicas. Um encontro que - transmitido em streaming - registrou uma participação, superando todas as expectativas, de mais de dez mil contatos. Sinal de que um repensamento do discurso teológico é hoje uma necessidade sentida mesmo fora do "recinto" teológico.

Conversamos sobre isso com o arcebispo Vincenzo Paglia, presidente da Academia e apaixonado promotor da iniciativa.

 

Eis a entrevista. 

 

D. Paglia, em primeiro lugar, por que uma iniciativa dessa profundidade, que envolve todo o mundo eclesial, nasceu precisamente da Pontifícia Academia para a Vida? Qual é a conexão?

Veja, a Academia nasceu com o mandato de constituir uma rede de excelências profissionais nos campos da ciência e da tecnologia, mas também da filosofia e da teologia, para orientar o necessário discernimento bioético dos conhecimentos relativos ao cuidado da vida humana. Até agora este discernimento se exerceu sobretudo em torno dos limiares extremos da vida humana, ou seja, aqueles onde a vulnerabilidade e a dependência do outro são totais. Mas a evolução do mundo atual ampliou o campo dos desafios. Vou dar alguns exemplos. Por um lado, a ciência agora está empenhada a construir formas de vida geneticamente selecionadas em modalidades incompatíveis com aquelas do humano que conhecemos até aqui; por outro lado, os limites naturais da existência, nascimento e morte, hoje não esgotam os temas nos quais se manifesta a vulnerabilidade humana, mas impõem uma nova reflexão sobre o que é bem e o que é mal, entre o justo e o injusto, entre a opressão e a liberdade.

 

 

É uma passagem de época que tem não só uma dimensão cultural, mas mais profundamente antropológica, e que, portanto, nos impõe um horizonte de “bioética global”. Vamos pensar, por exemplo, nas novas e incríveis questões colocadas pela evolução das inteligências artificiais. É claro que todas essas evoluções exigem também um repensamento do nosso modo de fazer teologia, que deve ter um caráter cada vez mais experiencial: já não é mais tempo de especulações de caráter apologético, muitas vezes com fins em si mesmas; é antes o tempo - para usar uma frase do Papa Francisco que recentemente reproduziram no seu jornal - em que "nos deixemos esbofetear pela realidade". E a realidade que nos desafia não é mais aquela das ideologias do século passado, mas aquela das questões colocadas pelas ciências e pelas mudanças antropológicas em curso. Basta pensar, por exemplo, nas novas fronteiras que a neurociência nos apresenta. Precisamos, portanto, de um diálogo com as ciências e uma pesquisa necessariamente interdisciplinar.

 

Qual é o "ponto de queda" desse repensamento? Quais são os objetivos?

O objetivo principal é trabalhar na linha da encíclica Fratelli tutti. Veja, como eu dizia, estamos no meio de uma passagem de civilização. Tudo mudou e tudo está mudando. Muito rapidamente. É uma passagem estreita da qual podemos – devemos - emergir no horizonte de um Novo Humanismo. Nós, cristãos, devemos estar entre os atores desse novo Humanismo.

 

 

Nas últimas décadas, assistimos a um avanço impetuoso do individualismo radical e a uma mortificação progressiva do sentido comunitário e da aspiração ao bem comum. Uma degradação que está todos os dias sob nossos olhos e que surpreendeu até os partidários da modernidade que se iludiam que, ao cancelar um testemunho religioso secular da transcendência, se descortinassem as portas do um humanismo civil. Ao contrário, uma grande necessidade de "fraternidade" volta a se repropor com força neste momento da história.

Como homens e mulheres de fé, perante essa degradação, não podemos abandonar-nos à resignação ou, pior ainda, à saudade e ao ressentimento. Pelo contrário, devemos desenvolver neste tempo uma responsabilidade criativa do ponto de vista da fé, com toda a inteligência e paixão que nos pertencem. Esse documento que hoje apresentamos, elaborado no âmbito de uma colaboração entre especialistas em teologia fundamental e antropologia teológica, inscreve-se precisamente neste caminho de ampliação e aprofundamento. O "ponto de queda" que você me pergunta é o da promoção de um diálogo mais profundo e assíduo entre inteligência da fé e promoção do humano. Não é presunçoso afirmar que esse diálogo implica uma refundação do "fazer teologia". Em suma, trata-se de explicitar a visão profética da encíclica Fratelli tutti.

 

 

Um grande empenho, "refundar" a teologia. Qual será o caminho? Quais os passos sucessivos?

Pretendemos de imediato envolver, em grande medida, a comunidade teológica e também a comunidade intelectual e científica sensível aos temas atuais do humanismo e a uma identificação genuína da experiência religiosa no contexto atual. Um debate franco, que supera a fragmentação do trabalho intelectual - e também teológico - que vezes demais alimenta, em nome de um mal-entendido apologético, polêmicas infrutíferas e de baixo perfil. Apreciei muito como seu jornal abriu corajosamente suas páginas para um debate franco sobre a crise da Igreja no Ocidente; pois bem, espero que o debate e as iniciativas que se seguirão tenham um lugar privilegiado já nas próximas semanas no L'Osservatore Romano.

 

 

Por fim, gostaria de fazer duas breves reflexões.

A primeira é que uma mudança de época implica também uma mudança nas metodologias de reflexão e de estudo. Assim como o aparecimento da Universidade a caracterizou - em relação com as experiências anteriores das scholae medievais - em Universitas Scientiarum, hoje somos obrigados a sair do estreito recinto teológico para uma interdisciplinaridade cada vez maior.

 

 

A segunda observação, que gostaria de destacar, é que, ao contrário do passado, este movimento da renovação teológica, pela primeira vez vem de Roma, do coração da Igreja, que nunca como hoje através do Papa Francisco se abre ao mundo, não para submetê-lo, mas para ouvi-lo e orientá-lo para o bem.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

De 04 de junho a 10 de dezembro de 2021, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza o XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição, que tem como objetivo debater transdisciplinarmente desafios e possibilidades para o cristianismo em meio às grandes transformações que caracterizam a sociedade e a cultura atual, no contexto da confluência de diversas crises de um mundo em transição.

 

XX Simpósio Internacional IHU. A (I)Relevância pública do cristianismo num mundo em transição

 

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