Complacente ou cúmplice? Os bispos dos EUA falharam em defender os princípios democráticos. Artigo de Massimo Faggioli

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04 Mai 2021

 

“Não há dúvida sobre a rejeição de Francisco ao autoritarismo e sua consciência dos perigos no retorno de líderes autoritários. Também não há dúvida de que lado ele está quando se trata da defesa das instituições democráticas e da participação política de todas as pessoas. A posição da USCCB não é tão clara e, portanto, levanta questões sobre a força e a seriedade de seu compromisso com nossas instituições democráticas nestes tempos de ansiedade. A competência da Igreja no ensino de questões políticas é limitada. Mas está além da competência da Igreja defender o direito do povo de votar?”, escreve o historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em artigo publicado por Commonweal, 30-04-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis o artigo.

 

Washington e o Vaticano estabeleceram relações diplomáticas completas somente em 1984, o que significa que Joe Biden será o primeiro presidente católico a apontar um embaixador para a Santa Sé. Voltando aos anos de Reagan, a seleção simboliza não apenas uma aliança anti-comunista entre o Papa João Paulo II e o presidente, mas também um abraço completo da Igreja Católica, um processo que começou entre a 2ª Guerra Mundial e o Concílio Vaticano II. Desde então, no entanto, alguma coisa está mudando: a relação entre o catolicismo estadunidense e a democracia.

Considera-se a falha da chefia da hierarquia católica estadunidense – do começo da presidência de Trump até a insurreição de 06 de janeiro – em elevar a voz em defesa do sistema democrático e o governo da lei. A USCCB e a maioria dos bispos definiram as tentativas do Partido Republicano de minar a democracia eleitoral, os direitos de voto e o dever moral para com o bem comum simplesmente como consequências ligeiramente desagradáveis da polarização política, e não pelo que eles realmente expressam: desprezo pelas instituições públicas e pela democracia ethos às custas da participação política dos cidadãos que mais precisam da proteção da lei.

O silêncio dos bispos é ainda mais perturbador pelo que isso sugere: uma complacência em relação, se não um endosso, à mensagem empurrada por importantes e poderosos interesses católicos na mídia, nos negócios e na política que apoiam o ataque trumpiano à democracia. Esse ataque autoritário tem paralelos com o que está acontecendo agora na Rússia, Índia e Brasil, e influentes católicos estadunidenses o saúdam com indiferença ou, em alguns casos (como a virada antiliberal na Hungria), com deleite. Pode se pensar que esse tipo de coisa segue o caminho do fascismo e do franquismo do século XX. Comecei a estudar a história do catolicismo na Universidade de Bolonha em 1989, na época em que o Muro de Berlim caiu. Então, a aliança entre o catolicismo e a democracia parecia não se relacionar apenas com o presente, mas também com o futuro, enquanto os movimentos católicos nacionais ou clerical-fascistas faziam parte do passado. Hoje isso não parece mais verdade.

Avaliar a história da relação entre o catolicismo e a democracia nas últimas três décadas pode ajudar a ter uma noção de onde as coisas estão agora e como chegaram assim. Um bom lugar para começar seria com um livro publicado há exatamente trinta anos: A Terceira Onda, de Samuel Huntington, que eu acho que merece mais atenção dos católicos. Huntington descreveu a democratização global como chegando em três ondas: a primeira no início do século XIX, a segunda após a 2ª Guerra Mundial e a descolonização na década de 1960 e a terceira principalmente na década de 1980. Ele viu uma correlação entre o cristianismo ocidental e a democracia graças às raízes religiosas dos conceitos da dignidade do indivíduo e da separação das esferas da Igreja e do Estado. A conexão entre a expansão da democracia e a expansão do Cristianismo não era mais centrada no protestantismo, mas sim no catolicismo.

Durante e mesmo após a 2ª Guerra Mundial, as alianças da Igreja com regimes autoritários – especialmente de Franco – fizeram o catolicismo parecer antitético à democracia. Mas então veio o Vaticano II. Foi um dos principais fatores para ocasionar a “terceira onda”, na qual Huntington viu a contribuição do catolicismo para a democracia como decisiva. Três quartos dos países que se voltaram para a democracia durante a “terceira onda” eram católicos ou abrigavam uma importante maioria/minoria católica, incluindo Filipinas, Chile, México, Polônia e Hungria.

O catolicismo se tornou uma força para a democracia por meio de dois canais. O primeiro foi o Vaticano II e sua mensagem “política”: mudança social e participação, os direitos dos indivíduos, o bem comum. Os segundos foram movimentos populares de base: Comunidades Eclesiais de Base no Brasil, Esquerda Cristã nas Filipinas, politização de base da Igreja na Polônia, Argentina e Chile. Houve uma mudança na posição das hierarquias da acomodação para a ambivalência e, finalmente, para a oposição ao autoritarismo. Os papados de Paulo VI e João Paulo II também desempenharam um papel; as viagens apostólicas deste último (começando com a Polônia em 1979) foram visitas pastorais, mas tiveram um impacto político também.

Huntington viu a ênfase da Igreja na dignidade universal da pessoa humana como o catalisador para a tendência para a democracia nas décadas de 1970 e 1980. Mas a contribuição do catolicismo nesta frente foi inseparável da contribuição do capitalismo estadunidense. Huntington reconheceu a economia como uma fonte significativa de mudança política: “O logotipo da terceira onda poderia muito bem ser um crucifixo sobreposto a um cifrão”, escreveu ele.

As coisas mudaram nos trinta anos depois que Huntington escreveu o livro, pelo menos nos termos do que permanece de contribuição do Vaticano II para a cultura política da católica. A mudança foi já evidente no fim do pontificado de João Paulo II e o começo de Bento XVI em 2005, com a ascensão da xenofobia na Europa e o nativismo dos políticos partidários e movimentos que buscavam forjar uma aliança com o catolicismo conservador. De fato, as autoridades do Vaticano e as conferências episcopais falam contra a nova direita católica, como o historiador estadunidense Michael Driessen recentemente apontou. Mas os esforços tiveram resultados diversos. Não impediram os católicos de votarem para Matteo Salvini na Itália, Viktor Orbán na Hungria, Marine Le Pen na França, ou pela extrema-direita na Polônia. E se, como disse Driessen, “essa reafirmação das identidades políticas católicas foi encontrada com evidente tensão pelas autoridades vaticanas e conferências episcopais da Europa”, não houve qualquer reação nos Estados Unidos para o mesmo fenômeno.

A USCCB é um episcopado que é cultural e teologicamente fruto do pontificado de João Paulo II, e, até os anos 1980, pelo menos, recebeu os ensinamentos do Concílio Vaticano II sobre a Igreja e política. Agora nos surpreendemos com o que resta do impacto do Vaticano II sobre as relações Igreja-Estado, liberdade religiosa e participação política. A Igreja Católica globalmente está lutando para dar sentido ao repúdio à democracia liberal, começando com o coração do catolicismo na Europa.

Mesmo a mensagem política do Papa Francisco precisa de mais clareza, pois continua oscilando entre a linguagem do “populismo inclusivo” e o conceito politicamente mais evocativo de “popularismo” – algo evidente em sua mensagem de vídeo de 15 de abril, “Uma política arraigada na vida do povo”. Mas não há dúvida sobre a rejeição de Francisco ao autoritarismo e sua consciência dos perigos no retorno de líderes autoritários. Também não há dúvida de que lado ele está quando se trata da defesa das instituições democráticas e da participação política de todas as pessoas. A posição da USCCB não é tão clara e, portanto, levanta questões sobre a força e a seriedade de seu compromisso com nossas instituições democráticas nestes tempos de ansiedade. A competência da Igreja no ensino de questões políticas é limitada. Mas está além da competência da Igreja defender o direito do povo de votar?

O desprezo cada vez mais extremista pelas instituições democráticas não é exclusivamente católico. Mas afetou nossa liderança clerical e encontra justificativa fácil no fato de que há uma tendência nas democracias modernas de minimizar ou negar a relevância da tradição cristã e da religião em geral. Parece que já faz muito tempo que a adoção do ethos democrático pelo catolicismo foi apoiada pelo simbolismo litúrgico e magisterial do Vaticano II e das novas instituições de governo da Igreja criadas ou sancionadas pelo Concílio. As conferências episcopais nacionais eram muito mais do que um novo órgão administrativo; elas se tornaram um modelo para uma forma não monárquica e não autoritária de governar a Igreja. Mas os pontificados de João Paulo II e Bento XVI enfraqueceram a autoridade das conferências episcopais perante o Vaticano. Isso também enfraqueceu a percepção dos bispos de si mesmos como um corpo colegial, de seu papel como representantes da Igreja em questões eclesiásticas e ad extra – em alguns países mais do que em outros.

A incapacidade de abrir um processo sinodal na Igreja Católica dos Estados Unidos aprofunda a crise da governança eclesial, mas também reflete a ambiguidade da posição dos bispos sobre a crise da democracia. É nesse contexto que o governo Biden escolhe um novo embaixador dos Estados Unidos junto à Santa Sé. Um presidente obviamente não tem influência na sinodalidade eclesial; um presidente não pode unir a Igreja Católica. Mas a escolha do embaixador de Biden pode certamente enviar um sinal sobre que tipo de cultura política católica este governo pretende apoiar.

 

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