“A minha experiência nos movimentos populares”. O testemunho do cardeal Luis Antonio Tagle

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16 Março 2021

 

A lembrança dos anos nas Filipinas quando “os nossos sonhos eram cantados”, o apoio às cooperativas de agricultores ou de mulheres desempregadas como jovem sacerdote, o alerta sobre os perigos da troca das ruas para a política: publicamos aqui a transcrição de um discurso do prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, proferido há algumas semanas em uma conferência promovida pela arquidiocese de Milão sobre um tema que de Mianmar à América Latina hoje é mais atual do que nunca.

No último dia 13 de fevereiro, o cardeal Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, falou em streaming na conferência “Fratelli tutti? Os movimentos populares: pensar e agir como comunidade”, promovido pela Arquidiocese de Milão e pela Caritas Ambrosiana. Publicamos a nossa transcrição das palavras proferidas de improviso pelo cardeal Tagle sobre a sua experiência nas Filipinas com os movimentos populares, numa situação que lembra muito as esperanças e lutas dos protagonistas de tantas crônicas que continuam a chegar até mesmo nos nossos dias da Ásia e de muitas outras partes do mundo. E justamente hoje os movimentos populares da Argentina se reunirão no santuário mariano de Lujan para comemorar os oito anos da eleição do Papa Francisco.

 

O testemunho é de Luis Antonio Tagle, publicado por Mondo e Missione, 13-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o testemunho.

 

Eu gostaria de compartilhar minha experiência dos movimentos populares nas Filipinas, especialmente quando fui seminarista. Acredito que os movimentos populares desempenharam um papel indispensável no desenvolvimento das Filipinas como povo, como nação.

Antes de entrar no seminário, no período da ditadura, eu fazia parte de um grupo de estudos, quase um movimento popular de reflexão e aprofundamento. Eu era o membro mais jovem desse grupo, no qual aprendi a criatividade "popular": por exemplo, a gente usava a música, o teatro e até a religiosidade popular para compartilhar com todos uma visão de pátria. Nossos sonhos eram recitados, não apenas como tema de uma aula: é possível cantar um sonho, e descobri que para o povo das Filipinas - não sei se é o mesmo em outros países - é mais fácil lembrar as músicas do que as aulas.

É possível ensinar as pessoas a cantar todos os dias um sonho, uma visão de vida, um sonho para a pátria, assim como se pode ver um ato teatral como forma de catequese. Minha experiência dos movimentos populares é uma formação, uma educação para uma visão de uma sociedade, de comunidade.

Mais tarde, como sacerdote, participei de pequenas comunidades cristãs. Para mim, as sementes da reforma nacional, a chamada revolução pacífica, em 1986, estavam presentes nessas pequenas comunidades cristãs, alimentadas pela oração comum. A reflexão sobre a Palavra de Deus é o desafio da vida quotidiana: esta ponte entre a Palavra de Deus e a vida quotidiana e a capacidade de escutar não só o clamor do povo, mas também o chamado do Senhor. Para mim, este não é apenas um movimento popular, mas uma formação da consciência individual e também social na Igreja.

Outras formas de movimento das quais participei são as cooperativas de agricultores do café em uma paróquia, ou uma cooperativa de mulheres desempregadas, mas também a pastoral juvenil, o grupo estudantil, as comunidades indígenas... Todos eles propiciaram, dentro de uma visão global, interesses e preocupações específicas.

No entanto, havia uma tendência de categorizar ou rotular esses movimentos como comunistas, socialistas... Aprendi que é importante, para qualquer movimento focado em um tema de interesse social, apresentar o próprio empenho como um verdadeiro interesse de todos, de toda a pátria, não de um único grupo, mas de todo o povo. Dessa forma, um movimento popular torna-se um movimento humano, um movimento verdadeiramente social, no qual todas as pessoas podem se identificar.

Finalmente, nas Filipinas, testemunhei a tentativa de alguns líderes de movimentos populares de entrar na política, de se fazerem eleger como delegados no Parlamento ou no Senado, na esperança de mudar de dentro o sistema político, a cultura política, a visão econômica. Trata-se de uma ideia correta e um empenho sob certo aspecto heroico, mas infelizmente também existe um perigo. Porque aos poucos alguns líderes desses movimentos - não todos - se tornam políticos e a conexão com suas raízes se enfraquece. Esta é uma tentação para todos. Então, quando assistimos à organização e também à institucionalização de um movimento, que pode ter uma perspectiva muito importante, é preciso não perder esse dinamismo que se alimenta do fato de estar enraizado no povo, não desvinculado. Se um líder se torna um ideólogo ou um político puro, no sentido de vínculo com um partido, o movimento popular sofre consequências.

 

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