“Pastoralmente perigoso”: Bispos estadunidenses podem causar confusões sobre as vacinas, afirmam eticistas

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04 Março 2021

Um dia antes da agência estatal Food and Drug Administration dar autorização emergencial para a vacina da covid-19 produzida pela Johnson & Johnson, a Arquidiocese de Nova Orleans publicou uma declaração não assinada em seu site dizendo que católicos deveriam ser cautelosos com a nova vacina, apontando que a empresa usa linhas celulares fetais de abortos de décadas passadas. Mas alguns dos líderes da Igreja disseram que o alerta da arquidiocese, e o comunicado subsequente dos outros bispos, falha em não ter em conta as condições atuais que as pessoas estão enfrentando nos EUA e atacam a melhor das opções disponíveis para salvar vida.

A reportagem é de Michael J. O'Loughlin, publicada por America, 02-03-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

“Nós temos que manter em mente que mais de 500 mil pessoas morreram, e a urgência de estabelecer uma vacinação em larga escala é extrema”, disse Lisa Fullam, professora de teologia moral na Graduate Theological Union, em entrevista à America. “Isso não significa que qualquer coisa sirva, mas que a situação que estamos enfrentando é realmente séria e continuará a custar mais vidas até que as pessoas estejam vacinadas”.

Em 26 de fevereiro, a Arquidiocese de Nova Orleans chamou a vacina da Johnson & Johnson “moralmente comprometida pelo uso de linhas celulares derivadas de abortos no desenvolvimento e produção da vacina, assim como nos testes”, e urgiu aos católicos para que considerem tomar outras vacinas se puderem escolher. Em 02 de março, dois subcomitês da Conferência dos Bispos Católicos dos EUA - USCCB publicaram uma declaração ecoando a manifestação da Arquidiocese de Nova Orleans, dizendo, “os que puderem escolher qual vacina tomar, Pfizer ou Moderna deveriam ser prioritárias à Johnson & Johnson”.

Aquelas declarações se referem ao debate sobre o uso do que são chamadas células HEK293, as quais tem suas origens traçadas em fetos abortados dos anos 1970. Acadêmicos e eticistas apontam que a HEK293 e linhas celulares similares são clonadas e não são originalmente de fetos.

Até o momento, católicos nos Estados Unidos – ou em qualquer outro lugar – não tem direito a escolher qual vacina tomar no programa de vacinação. Com a oferta superando amplamente a demanda, quem é elegível para uma vacina permanece limitado em quase todos os estados. Na terça-feira, o presidente Joe Biden anunciou que os EUA devem ter vacinas suficientes para todos os americanos até o final de maio, em parte devido a um acordo para agilizar a fabricação da vacina Johnson & Johnson.

Anthony Egan, s.j., padre jesuíta e professor de teologia na África do Sul, disse que líderes da Igreja publicarem mensagens sobre situações hipotéticas durante uma crise é “inútil” enquanto os católicos lutam pela vida em uma pandemia.

“Penso que é pastoralmente perigoso porque as pessoas estão lidando com todos os tipos de crises – as pessoas enfrentam o desemprego, as pessoas enfrentam a doença, as pessoas enfrentam a morte – e fazer esse tipo de declaração só aumenta o sentimento geral de desconforto, um sentimento geral de crise”, disse o padre Egan, observando que na África do Sul, que foi duramente atingida por uma variante mais agressiva, a vacina Johnson & Johnson é a única opção disponível. “Eu não acho que isso seja pastoralmente útil”.

A escolha de tomar uma vacina como a da Johnson & Johnson deve depender da consciência individual, disse ele. “Penso que é irresponsável fazer uma alegação de que você absolutamente não deve tomar o medicamento”, disse ele.

A professora Fullam concordou, dizendo que a vida moderna está cheia de dilemas difíceis decorrentes de injustiças anteriores e “uma das grandes coisas sobre a tradição moral católica é que reconhecemos que o mundo é um lugar confuso, mas não insistimos que os católicos fiquem longe da bagunça”. Os católicos, disse ela, são chamados a “pensar sobre como tornar a situação melhor”, em vez de recuar diante da complexidade e dada a pandemia em curso, receber uma vacina com uma conexão remota ao aborto pode ser a decisão certa – especialmente nas comunidades onde o acesso às vacinas pode ser difícil.

“Esse tipo de apavoramento moral pode custar vidas, especialmente entre pessoas que não teriam acesso à vacina de outra forma”, disse ela, apontando especificamente para as regiões mais pobres dos Estados Unidos e países com menos recursos.

As duas outras vacinas aprovadas para uso nos Estados Unidos, criadas pela Moderna e Pfizer, utilizaram algumas células polêmicas no teste de suas vacinas, mas não na sua criação, levando a USCCB para dar um aceno de aprovação para essas vacinas em novembro passado, apesar das objeções de alguns líderes católicos que sugeriram que mesmo uma conexão tênue com as linhas celulares tornava essas vacinas imorais.

Então, em dezembro, o Vaticano disse em um comunicado da Congregação para a Doutrina da Fé que “é moralmente aceitável receber vacinas da covid-19 que usaram linhagens de células de fetos abortados em seu processo de pesquisa e produção” quando “eticamente reprováveis” são as vacinas indisponíveis. Exemplos de vacinas “indisponíveis” incluem locais onde vacinas que não dependem do que a igreja considera células problemáticas não são aprovadas para uso, onde pode ser difícil armazenar ou distribuir certas vacinas ou onde “as autoridades de saúde não permitem que os cidadãos escolham a vacina”.

As declarações recentes de Nova Orleans e da USCCB parecem ecoar a declaração do Vaticano, mas são mais vagos em sua linguagem quando se trata da escolha da vacina. A declaração de Nova Orleans afirma: “Aconselhamos que, se a vacina Moderna ou Pfizer estiver disponível, os católicos devem escolher receber qualquer uma dessas vacinas em vez de receber a nova vacina Johnson & Johnson devido ao uso extensivo de linhagens de células derivadas do aborto”.

Vários teólogos morais entrevistados por America, no entanto, disseram que os católicos devem se sentir confiantes em tomar a vacina Johnson & Johnson, especialmente porque ela pode ajudar a proteger os membros vulneráveis da sociedade.

Therese Lysaught, uma professora de bioética e política de saúde na Stritch School of Medicine na Universidade de Loyola em Chicago e membro da Pontifícia Academia para a Vida, disse que a igreja tem sido consistente na aprovação de vacinas com linhas celulares pelos menos há 15 anos. “Sempre é bom perguntar sobre essas questões, mas minha posição é, essa questão foi respondida muitas e muitas vezes”. Ela disse que o Vaticano tem sido claro que receber as vacinas é moralmente justo – e já era antes da pandemia.

“Minha leitura da tradição é que católicos absolutamente deveriam se sentir bem tomando vacina da Johnson & Johnson se for a que lhes for oferecida”, disse, apontando que a maioria das pessoas não tem qualquer escolha.

As declarações de Nova Orleans e da USCCB ao sugerirem que os católicos podem escolher suas vacinas pode causar confusão à medida que a distribuição da vacina continua. O que seria mais útil, disse um membro de um grupo consultivo que auxilia o Vaticano nas comunicações, é uma mensagem clara e concisa de que a vacinação é uma parte importante do cuidado com o bem comum.

“Estamos no meio de uma pandemia mortal que custou centenas de milhares de vidas, devastou famílias e mergulhou muitas em crises econômicas. As vacinas são nossas melhores esperanças para superar esse sofrimento”, disse Kim Daniels, codiretora da Iniciativa sobre o Pensamento Social Católico e a Vida Pública da Universidade de Georgetown. “Portanto, nossa mensagem precisa ser clara: vacine-se o mais rápido possível. É vital para cada um de nós, e para nossas famílias e comunidades, e especialmente para a proteção dos pobres e vulneráveis”.

O impacto que as declarações dos bispos terão sobre as vacinas ainda não está claro.

Na terça-feira, a Universidade de Notre Dame anunciou que servirá como um local de vacinação em massa para pessoas que residem na área de South Bend, Indiana, no final deste mês.

“A comunidade de Notre Dame continua comprometida em fazer sua parte para ajudar a combater a pandemia no campus e além”, disse o presidente da universidade, John I. Jenkins, c.s.c., em um comunicado à imprensa, que também observou: “A vacina de uma dose da Johnson & Johnson será fornecida para aqueles que atendem à idade do estado e outras diretrizes de elegibilidade no momento”.

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