Sopradores de brasas. Entrevista com Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães

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23 Dezembro 2020

"A Igreja pode – e deve – apreender ensinamentos da realidade, dos fatos, da história, principalmente aqueles que emanam do contexto da surpreendente, mas de alguma forma prenunciada, pandemia do novo coronavírus. Alguns ensinamentos são mais difíceis de serem apreendidos e, curiosamente, o que se apresenta, agora, como ensinamento novo, no fundo, já estava presente no cotidiano das 'escolas de cristianismo', que são as comunidades eclesiais", escreve Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães em uma entrevista para os Cadernos Teologia Pública, número 149, do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães. Licenciado em Filosofia (1982) e bacharel em Teologia (1988) pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, Belo Horizonte, Minas Gerais. Mestre em Teologia (1992) pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus, CES, atual Faculdade dos Jesuítas, FAJE, Belo Horizonte.

Professor do departamento de Teologia PUC Minas. Professor do Instituto de Filosofia e Teologia Santo Tomás de Aquino, ISTA (1990-2005), Belo Horizonte. Professor do Instituto Marista de Ciências Humanas (1992-1995). Editor fundador da Revista HORIZONTE de estudos de Teologia e Ciências da Religião da PUC Minas. Temas de pesquisa: teologia pastoral ou teologia prática, antropologia teológica, eclesiologia, Concílio Vaticano II e Conferências Episcopais da América Latina e Caribenha, Catequética, interface entre teologia e questões contemporâneas. Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte.

Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Cultura e Educação (2011-2015) e atual Presidente da Comissão Episcopal Pastoral para a Comunicação (2015-2023), ambas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB. Membro do Conselho das Edições CNBB 2015-2019. Presidente do Conselho Superior da Associação Nacional de Educação Católica, ANEC (2011-2015). Membro do Conselho de Desenvolvimento Social e Econômico do Governo Federal (2015-2016). Reitor da PUC Minas desde 2007.

 

Eis a entrevista.

 

Em sua opinião, quais os principais ensinamentos que a Igreja pode apreender do contexto da pandemia?

 

Uma das atitudes mais belas do ser humano é dispor-se a novas aprendizagens. Somos sempre aprendizes. Pela capacidade de aprender, que nos faz exercitar várias habilidades, praticamos a criatividade necessária à vida. Quando deixamos de ser aprendizes, certamente deixamos de crescer, de melhorar, de viver e, provavelmente, nos tornamos autoritários, tiranos. Autoritarismo, arrogância, soberba são marcas que definem os que pensam que não mais precisam aprender. Isso se aplica também à Igreja, à comunidade eclesial, que se coloca diante de seu Mestre, Jesus Cristo, para todos os dias aprender Dele, com Ele e Nele. O processo de aprendizagem exige algo mais profundo que é o ato de apreender, de assimilar, mentalmente e no coração, algo novo, de abarcar com profundidade o novo, de tal maneira que mudamos nosso modo de viver, ao invés de sermos apenas pessoas muito informadas.

A Igreja pode – e deve – apreender ensinamentos da realidade, dos fatos, da história, principalmente aqueles que emanam do contexto da surpreendente, mas de alguma forma prenunciada, pandemia do novo coronavírus. Alguns ensinamentos são mais difíceis de serem apreendidos e, curiosamente, o que se apresenta, agora, como ensinamento novo, no fundo, já estava presente no cotidiano das “escolas de cristianismo”, que são as comunidades eclesiais.

O primeiro grande, novo-antigo ensinamento é que a Igreja como um todo, dos mais simples dos fiéis aos fiéis de maiores responsabilidades eclesiais, precisa saber distinguir o que é essencial do que é acessório, contingente, secundário, para uma coerente vida cristã. A dificuldade de identificar o essencial tem levado membros da Igreja a absolutizar o que é relativo e até desnecessário à vivência da fé. O núcleo da vivência da fé cristã é a adesão ao mistério da vida, paixão-morte e ressurreição de Jesus Cristo, único e suficiente caminho, iluminado pelo Espírito, rumo aos braços do Pai, e o que essa adesão implica. O apego ao excesso de regras, tradições, costumes, paramentos, devocionismos e fundamentalismos, discursos tipo pentecostalistas, aos louvores sem alteridade, reacionários, hermeticamente fechados, superficiais e até agressivos, tem gerado aparentes cristãos-católicos, porque se satisfazem com o “invólucro cristão” e não conseguem dar o passo para o fundamental encontro com o Senhor, que gera a “vida em Cristo” e a “liberdade libertada”, como gosta de afirmar o apóstolo Paulo. É como dizem os sábios: cultivar tradições não é fazer culto às cinzas, mas transmitir o fogo, assim se expressou Gustav Mahler, um músico da passagem dos séculos XIX ao XX.

A pandemia ensina algo, pelo lado negativo da doença e da dor, que a Laudato Si’ ensina, pelo lado positivo da ecologia integral, a ser assumido por todos: tudo está interligado. Apreender esse segundo ensinamento é rever o conceito de que o ser humano é o “dono predador” de tudo, inclusive uns dos outros, prevalecendo os mais fortes e descartando os mais fracos. O moderno humanismo antropocêntrico (um proposital pleonasmo) tem alguma chance de ser superado por um novo humanismo, no qual tudo aparece sob o signo da vida, do amor, quem sabe o humanismo “agapicocêntrico” – pedindo licença para inventar essa palavra –, que indica a centralidade do amor e do Amor que Deus é. Aí, sim, a Vida, aquela em abundância, para a qual o Senhor veio (Cf. Jo 10,10) poderá ser protegida e amada, cuidada e bem vivida, numa rede onde tudo e todos, realmente, acham-se interligados.

Aprendemos ainda que o ambiente gerado pela pandemia, que recolheu as pessoas no distanciamento e isolamento sociais, obrigando-as à ausência do outro, ensina o quanto as pequenas coisas e os pequenos gestos devem ser valorizados e reconhecidos. Ao mesmo tempo, leva o olhar humano para os pequenos de Deus, os empobrecidos, vulnerabilizados, enfermos, idosos, indígenas, ribeirinhos, quilombolas, segregados, encortiçados, os milhões de pessoas humanas, que vivem na miséria. O contexto da pandemia tocou lugares interiores profundos do ser humano e tem ajudado muitas pessoas a se sensibilizarem e mudarem corações de pedra em corações de carne (Cf. Ez 36, 26), e ao mesmo tempo tornando-se, como deve ser a Igreja, “advogados dos pobres” (BENTO XVI, 2007).

Outro ensinamento de grande importância do contexto da pandemia é o gerenciamento do tempo e do espaço. Precisamos aprender a gerir o espaço para que todos os que têm relações de proximidade, por exemplo, os membros de uma mesma família, convivam com razoável contentamento. Nesse mesmo espaço reaprendemos a gerenciar o tempo, para que uns estudem, outros trabalhem, outros descansem ou se entretenham. A lição é pertinente e exigente. As condições de aprendizado dessa lição são precárias para milhões de pessoas, que não têm poder sobre seu espaço e seu tempo, porque se encontram na tarefa de sobreviverem, em meio ao crescente desemprego.
Por fim, mas sem esgotar possíveis lições deste tempo, fico a me perguntar se, sob o ponto de vista da teologia pastoral, passar pela imposição do isolamento social, quase sempre em casa, não obstante a variedade de “casas” ou daquilo que se poderia chamar de “casa”, não é um estímulo para a prática de uma Igreja verdadeiramente em saída. A mesma Igreja que pode beneficiar-se da pandemia, reforçando as práticas da Igreja Doméstica, pode também estimular a prática do sair em direção ao outro, especialmente ao outro sedento da experiência de Deus, faminto do reconhecimento que o tira do anonimato e da invisibilidade social e eclesial. Acho que sim.

A Igreja, em suas metodologias evangelizadoras e pastorais, seguirá sendo a mesma, ou as mudanças impostas pela Covid-19 poderão permanecer como novas propostas pastorais para a realidade pós-pandemia?

 

A evangelização destinada a todos e as ações pastorais desenvolvidas pelos grupos de cristãos católicos participantes da comunidade eclesial não poderão ser as mesmas, não só pelo tremendo impacto da pandemia, mas porque evangelização e ação pastoral devem estar em constantes transformações, acompanhando a dinâmica da vida, em suas várias dimensões. Como essa dinâmica foi muito alterada pela pandemia, a evangelização e a ação pastoral estão em processo de mudança. Quando falamos em mudança, precisamos lembrar que são mudanças para melhor. É o que desejamos, sem descartar mudanças para pior. Quem renunciar ou blefar as mudanças poderão ser exemplo de mudança para pior.

Isso não quer dizer que todas as mudanças feitas às pressas, desafiando vários setores da Igreja, sobretudo a Pastoral da Comunicação, na realidade do novo coronavírus, sejam as mudanças a se conservar na prática evangelizadora da Igreja pós-pandemia. Por exemplo: mais que uma Igreja transmissora de celebrações litúrgicas, a Igreja precisa ser transmissora do Evangelho do Reino. Não porque as liturgias não sejam importantes, pois elas são e continuarão sendo, sobretudo a eucaristia, cume e fonte da vivência cristã, mas é porque as liturgias são de natureza presencial física. Elas exigem a materialidade dos sinais, para ser o que são chamadas a ser, sacramentos da Igreja, assim como Jesus Cristo é o sacramento do Pai. De agora em diante, contudo, as liturgias serão mais exigidas em sua preparação, celebração e vivência. O mesmo se pode dizer da adoração ao santíssimo sacramento, que exige a presença física do Pão Consagrado, evitando assim que as pessoas até se ajoelhem diante da televisão, em casa, para fazer adoração. Muitos buscam sempre mais autenticidade como um valor fundamental da prática religiosa, e estão certos.

Outras práticas pastorais importantes, antecipadas na pandemia, devem ser aperfeiçoadas e mantidas como mudanças para melhor no caminhar da Igreja. Cito como exemplo as reuniões de presença online: conselhos pastorais em todos os níveis, conselhos para assuntos econômicos, planejamento pastoral, conselhos presbiterais, colégios episcopais e tantos outros. A própria CNBB tem feito, com muito bom resultado e grande economia, todas as reuniões das Comissões Episcopais Pastorais, como também as do Conselho Episcopal Pastoral (CONSEP) e do Conselho Permanente, com presença online, que é, de fato, uma forma de presença muito interativa. Essa mudança exigirá o discernimento da real necessidade das reuniões, porque desejamos que a experiência pastoral durante a pandemia tenha nos ensinado que, assim como o novo coronavírus, as incontáveis reuniões mal feitas, sem objetivo algum, desnecessárias, sejam eliminadas para sempre.

O mesmo se poderia dizer e esperar dos encontros de formação. São variadas as propostas de formação dos cristãos católicos e católicas. Aliás, não podemos nos esquecer que a formação e a educação da fé são componentes para se alcançar a maioridade laical na Igreja e, consequentemente, conquistar lugares de decisão, como tanto tem desejado e expressado o papa Francisco, em suas alocuções. Os processos de formação estão sendo feitos por meio da presença online e têm alcançado resultados muito bons. Já a catequese de crianças e adolescentes, pelas exigências dessas faixas etárias e suas psicopedagogias, estão online, mas anseiam profundamente o momento da presença física.

Toda a burocracia eclesiástica deve procurar simplificar-se e ser reduzida, sem prejuízo algum, ao mínimo necessário. Os caminhos de idas e vindas eclesiais precisam de desobstrução, seja na modalidade de presença física ou presença online. A porta de entrada para os contatos dos fiéis com a sua Igreja não deveria ser mais a secretaria – embora a ela seja sempre reservada uma missão muito importante: ser secretaria evangelizadora –, mas a comunidade nos momentos em que ela se reúne para celebrar ou para outra função presencial, nos momentos em que ela se encontra reunida digitalmente, ou nos momentos em que ela se encontra, “missionariamente dispersa”, ou seja, cada um em seus afazeres cotidianos, cada membro em sua família, seu trabalho, seu lazer, suas ocupações realizadas com o espírito de Cristo.

Nesse sentido, a Igreja, hoje, tendo aprendido no tempo da pandemia, o que já é sabido pela teologia pastoral e pelos mestres da espiritualidade cristã, tem que ser mais querigmática, porque esta é uma Igreja peregrina, que busca a “essência do cristianismo” (Romano Guardini), que é Jesus, chamado Cristo porque é o ungido de Deus. Esta busca ajuda a Igreja a ser de fato Ecclesia reformata et semper reformanda est, e a aceitar reformar-se.

O querigma é o acendedor de luzes e esperanças neste tempo, desta pandemia do coronavírus, e o será pós-pandemia, quando continuaremos o enfrentamento a tantos outros vírus, porque ele anuncia e oferece aquele capaz de reencantar a vida pessoal e a comunidade eclesial, presente neste mundo como testemunha dele. Mas quando afirmamos a necessidade da dimensão querigmática, incluímos nela a dimensão catequética, aquela que conduz os encantados com Jesus ao seu conhecimento mais profundo e ao testemunho Dele e do Evangelho do Reino, no mundo. A concentração cristológica necessária à Igreja (e agora sobretudo à reforma da Igreja) depende do anúncio entusiasmado do querigma que, se renunciado, implica abrir mão da centralidade de Jesus Cristo na Igreja.

O tempo da pandemia rematriculou-nos na escola da misericórdia, sobretudo porque nela aprendemos que ser misericordioso é colocar-se diante do outro diferente (mas da mesma comunidade), mais do que isso, é colocar-se diante do outro diverso, dessemelhante (não faz parte da mesma comunidade) e fazê-lo próximo: o que é excluído socioambientalmente, perdido, sofredor lancinante, o que não crê, a vítima da indiferença, do niilismo, da aporofobia (rechaço aos pobres), do idadismo que massacra os adultos e idosos para prestar culto à juventude, do contaminado pelo coronavírus e outros tantos vírus. O misericordioso é aquele que se fez misericordioso, colocando seu coração na miséria do outro, porque experimentou o amor de Deus colocado em sua própria miséria.

A Igreja pode melhorar. O ser humano pode melhorar. A sociedade pode melhorar. Poderão também se recusar a melhorar. Sair desta crise tão abrangente, geradora de tantos sofrimentos, deve nos fazer melhores.

 

A seu ver, a crise da pandemia, apesar de toda a dor e sofrimento que impôs a milhões de pessoas, pode representar uma oportunidade de mudança de rumos, de revisão de caminhos para a Igreja? Se sim, quais seriam esses novos rumos?

 

Pode, sim, representar uma oportunidade de mudança de rumos e revisão de caminhos para a Igreja. Tenho esperança que represente esta oportunidade. Ouço falar que a pandemia, apesar do sofrimento imposto a milhões, já está representando esta oportunidade. Mas, ao mesmo tempo, receio que as mudanças que serão operadas não cheguem ao cerne das mudanças necessárias e até indispensáveis para ela se tornar a desejada Igreja em Saída (este S é maiúsculo mesmo, ele aponta para uma nova eclesiologia, bem calcada nos valores cristãos e sobretudo na fidelidade a Jesus Cristo), a Igreja pobre para os pobres, a Igreja aberta a todos, a Igreja hospital de campanha, enlameada nos caminhos em companhia do povo de Deus, que a define, segundo o Concílio Vaticano II. A Igreja querigmática (anunciadora de Jesus e do seu Evangelho do Reino), catequética (que mergulha fundo na adesão, conhecimento e testemunho dele); servidora que pratica a misericórdia (que abraça o diferente e o diverso); testemunha da koinonia interna, com os outros cristãos e também com os membros de outras religiões; celebrante, liturga (que vai ao cume e a torna fonte da vivência da fé cristã).

As mudanças de rumos devem favorecer a consolidação da eclesiologia do Vaticano II, que no decorrer dos tempos foi mostrando-se enfraquecida e agora é retomada com energia pelo papa Francisco e todos os que com ele estão, na empreitada, densamente espiritual, de abrir caminhos para que Deus opere a conversão em todos nós. Com isso estou afirmando que a reforma, que pode ter no contexto do pós-pandemia um elemento catalisador, não é meramente organizativa, administrativa, funcional, e nem mesmo uma reforma que se resume em fazer alocações dos seus recursos humanos nos mais importantes cargos.

Embora tudo isso seja útil, absolutamente necessário, a mudança de rumos que se espera é mais. Exige mais. Significa mais. Ela encontra sua razão de ser no campo espiritual, místico, porque a Igreja, chamada a ser a comunidade de discípulos e discípulas de Jesus, que se nutre da experiência de Deus, da união e da amizade com Ele, precisa sentir-se num “momento privilegiado do Espírito”, como ensinou Paulo VI na Evangelii Nuntiandi. É oportuno lembrar também que o próprio Concílio Vaticano II tratou a Igreja como Mistério, que coloca o povo reunido em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo, para ser uma Igreja viva, impregnada das luzes trinitárias.

Noutras palavras, a Igreja precisa recuperar, como tem se esforçado por fazer, em todo o seu vigor, em palavras e ações, em teologias e liturgias, em sinodalidades e colegialidades, em participações e inclusões, em ministerialidades e serviços, o próprio Projeto de Jesus, que provoca novas relações pessoais e comunitárias com o Senhor. Só a retomada do Projeto de Jesus pode ser verdadeiramente “algo novo” nesse processo de mudanças.

Os rumos são aqueles que realizam a esperança, porque “a esperança que tardar, põe doente o coração” (Pr 13,12). Se os rumos estão apontados para a realização da esperança, naturalmente a Igreja assume ser pneumatológica e deixa-se inspirar, soprar pelo Espírito Santo. A Igreja pode e deve tornar-se mais leve, mais rede de comunidades em comunhão do que organização, poder, lei, instituição. Como discípula ela se colocará de pé, na escuta da Palavra e na repartição do pão eucarístico. Estes rumos põem a Igreja sempre alerta e partícipe das alegrias e tristezas (Gaudium et Spes) do povo de Deus no mundo, sempre disponível e disposta a engajar-se, sem medo, porque nada do que é humano lhe será estranho e em momento algum ela será intimista.

A mudança de rumos causa reações e um certo mal-estar, como uma espécie de desarranjo institucional com vistas a um arranjo melhor. Mas o que se pode esperar de um sério processo de mudanças é a conversão, metanoia, mudança que afeta a mente e o coração, o ser inteiro do cristão e da cristã, para que se tornem verdadeiramente testemunhas de Jesus Cristo na sociedade e na casa comum. A desinstalação é parte do processo de conversão. Como desinstala-nos lembrar o que foi dito, como corte cirúrgico, pelo teólogo jesuíta José Ignacio González Faus, em seu artigo de dezembro de 2018/IHU, citando um pensador do início do século XX, sobre a realidade da Espanha: “pobre catolicismo que nunca chegou a ser cristão”. A realidade latino-americana padece de uma grave ferida em sua história, que precisa ser curada, pois aqui é a única parte do mundo em que prevalece a maioria cristã concomitantemente a uma realidade de gravíssima injustiça, de assombrosa desigualdade social. Em outras partes do mundo há injustiças como aqui, mas a maioria não é cristã. E em outras, ainda, há maioria cristã, mas as injustiças não são como as daqui. Esta reflexão pode ser aplicada ao Brasil, um dos países mais desiguais do mundo, cuja maioria se diz cristã.

 

Vemos, em muitas dimensões – religiosa, política, cultural, por exemplo –, um crescimento de expressões conservadoras, que vão na contramão do que propõe o papa Francisco. A que você atribui essa situação e como vê o futuro desse cenário? E a apropriação da religião e do nome de Deus para justificar posicionamentos ideológicos, em contradição com a essência do cristianismo?

 

Os conservadores de todos os segmentos e dimensões da sociedade sempre estiveram por aí. O que há de novo, agora, é que eles estão se organizando em movimentos conservadores, alinhados entre si, naturalmente com maior visibilidade. O conservadorismo está associado não unicamente a uma visão conservadora da sociedade e do mundo, mas também à ideia de fechamento a novas conquistas, ao futuro da humanidade, e ao mesmo tempo preconizam o retorno ao passado, retrocessos e negação das conquistas científicas. Eles têm uma grande dificuldade com o tempo presente. Apegados ao passado, desejam o futuro com elementos por eles considerados seguros.
Quando falamos de conservadores, aqui, estamos nos referindo a estes movimentos retardatários e não às pessoas que se defendem dizendo que gostam de cultivar os valores e costumes do passado. Isso é saudável, desde que não as coloquem de costas para o presente e para o futuro. Os conservadores, no sentido que aqui estamos dando, são também, via de regra, reacionários política e economicamente, cultural e religiosamente. Os conservadores, na medida em que “cultuam as cinzas do passado”, precisam de argumentos que são organizados ideologicamente. Mas, numa democracia há lugar para todos, conquanto haja respeito às diferenças e modos diversos de viver e pensar. A Igreja é um bom exemplo de convivência entre pessoas que pensam e atuam diferentemente umas das outras, mas conservam a comunhão, ancoradas na unidade do que é essencial. Há tensionamentos, mas eles são às vezes dissimulados ou mesmo resolvidos, quando dialogados. A unidade é construída sobre a pluralidade, todos firmados nos mesmos fundamentos.

O grave problema que estamos vivendo em relação ao conservadorismo é de outra ordem. É que grupos ideologicamente conservadores têm se tornado ultraconservadores. Esses grupos ultraconservadores se caracterizam pelo fechamento ao diálogo, pela imposição unilateral de seu pensamento e de seus costumes e ao mesmo tempo pela intolerância a tudo que é diferente, associado ao desejo de eliminar quem pensa e age diferentemente deles. Em meio a este processo são flagrados o uso de instrumentos e requintadas formas de violência, difamação, fake news, conspirações, manias persecutórias, afeição à mentira, fundamentalismos, determinismos, demonstrações de força bélica, relativismo ético, aparelhamento religioso, dentre outras. Repito, isso é altamente ideológico, embora seja negado que esta postura seja eivada de ideologias. Ao contrário, esses grupos acusam de ideológicos os de pensamento no campo progressista.

Pois bem, este problema do ultraconservadorismo, infelizmente, está também presente na Igreja. Não são poucas as expressões claras e amplamente divulgadas de ultraconservadorismo na Igreja. Aquele que emperra o caminhar eclesial, dificulta as reformas e os processos de conversão pastoral, opõe-se nitidamente ao papa Francisco e sua reforma fundada no Concílio Vaticano II, mas principalmente no Evangelho do Reino, anunciado por Jesus.

Esta discussão faz-me lembrar um filósofo francês que escreveu um texto chamado “Europe. La voie romaine”, Rémi Brague, ainda em 1972. Nesse texto ele faz uma distinção muito interessante entre “ser cristianista” e “ser cristão”. O primeiro prima pelo cuidado das coisas de Deus e da religião; o segundo prima pelo cuidado da pessoa. De modo geral os ultraconservadores se ocupam em primeiro lugar da defesa de suas ideologias e das coisas da religião e têm grande dificuldade de humanizar as relações e mais ainda de envolvê-las com o amor-agápico, que resulta da experiência do amor de Deus. É nesse meio que nascem e florescem o clericalismo, o carreirismo, o fundamentalismo religioso, o hierarquismo, a sensação de posse das coisas da Igreja como se fossem suas.

Um ponto nevrálgico é a associação do conservadorismo religioso, de qualquer tradição religiosa, com o poder político reacionário, normalmente liberal ou neoliberal economicamente falando. Ambos são tremendamente afetados, os que se manifestam religiosamente assim e os que detêm o poder político, e dessa mistura sempre nascem tiranias e autoritarismos, justificados religiosamente. O papa Francisco tem suplicado, insistentemente, que cesse a associação do nome de Deus com as guerras, porque isso é usar o nome de Deus em vão, blasfemar, deformar o cristianismo.

O cristianismo é chamado a uma refontalidade, a sorver a água cristalina da sua fonte primeira, a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo. Ir ao encontro de sua essência para se reconfigurar nos moldes do Senhor é condição sine qua non para a Igreja continuar sendo o que ela tem que ser sempre: sinal da presença amorosa de Jesus Cristo, nosso redentor, em meio ao mundo. Esse movimento despe a Igreja de tudo aquilo que a distancia dos pequenos, para ser, ela mesma, sinal de Jesus Cristo, para todos, naquela perspectiva tão bela de Dom Tepe, “pequeno rebanho, grande sinal”. Nenhuma refontalização da Igreja dispensará a comunidade eclesial. A comunidade é a referência para o “ser cristão”, cuidador de pessoas.

Se um pouco antes de morrer, em agosto de 2012, o grande e admirado cardeal Carlo Martini, jesuíta, no alto dos seus 85 anos, teve a coragem de diagnosticar que “a Igreja ficou 200 anos para trás”, temos a dizer a ele que, como comunidade de fé em Jesus Cristo, animados e guiados pelo papa Francisco, estamos andando, apressadamente, para tirar o atraso, mesmo que isso custe demasiado para muitos de nós.

Aprendemos do cardeal Martini, que, por sua vez, aprendeu do teólogo Karl Rahner, que o fundamento da Igreja é a fé e Deus é Amor e que por isso precisamos tirar as cinzas de sobre as brasas da Igreja e soprá-la, para revigorar a chama.

Somos sopradores das brasas da Igreja, até fazê-la arder!

 

Referências

BENTO XVI. Sessão inaugural dos trabalhos da V Conferência Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe. Discurso do Papa Bento XVI. Em Vatican. http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/speeches/2007/may/documents/hf_ben-xvi_spe_20070513_conference-aparecida.html. Acesso em 10/10/2020.

FAUS, I. G. Pobre catolicismo que nunca chegou a ser cristão. Em IHU. http://www.ihu.unisinos.br/188-noticias/noticias-2018/585386-pobre-catolicismo-que-nunca-chegou-a-ser-cristao-artigo-de-jose-i-gonzalez-faus. Acesso em 10/10/2020.

 

Igreja e evangelização: provocações da pandemia

Igreja e evangelização: provocações da pandemia. Parte III - Vinho novo, odres novos. Cadernos Teologia Pública Nº 149 

Este artigo integra a primeira parte do projeto editorial intitulado “Igreja e evangelização: provocações da pandemia”, organizado pelo Grupo de Pesquisa “Teologia e Pastoral” – do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), publicado na 149ª edição de Cadernos Teologia Pública.

Acesse aqui os Cadernos Teologia Pública na íntegra.

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