Voltaremos à mesma normalidade de antes ou mudaremos o rumo?

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15 Dezembro 2020

Como é comum nas grandes conjunturas globais, não é possível saber com certeza quais serão os resultados que a crise da pandemia pela covid deixará para o futuro. Em tais circunstâncias, os grandes pensadores ganham a relevância merecida para questionar os rumos que a humanidade escolhe. Desde que esta crise começou, uma inquietação circulou em diferentes áreas do conhecimento: mudaremos ou não? Aprenderemos algo desta situação ou continuaremos iguais? Voltaremos à normalidade?

A reportagem é publicada por El Tiempo, 12-12-2020. A tradução é do Cepat.

Quase a partir do início dos isolamentos surgiu a reflexão de que esta pandemia deveria nos deixar ao menos algumas lições sobre os erros que não deveriam continuar sendo cometidos. E, naturalmente, um dos temas sobre o qual deveria ficar um ou outro ensinamento é o da saúde. A esse respeito, o prêmio Nobel de medicina de 1996, Peter C. Doherty, explicou ao jornal La Nación, da Argentina, que esta pandemia “não será a última, veremos mais pandemias neste século. Por isso, temos que repensar muitos aspectos da civilização”.

“É o terceiro vírus de morcegos que passa para humanos, em 20 anos, e além disso, tivemos a gripe suína. Com as viagens internacionais em massa e cruzeiros, que basicamente são incubadoras de doenças infecciosas, estamos gerando as condições para estas pandemias”, disse Doherty, em forma de advertência.

Pensa nesse mesmo sentido o ecólogo mexicano Rodrigo Medellín, para quem “esta pandemia é uma enorme chamada de atenção”. O mexicano expressou que “o planeta nos disse que precisamos ter cuidado no modo como fazemos uso dos recursos. Há pandemias em processo de criação em todos os ecossistemas do mundo. Virão novas, não há dúvidas, por isso é necessário ver o que podemos fazer, como mitigar as probabilidades de que surjam”.

Uma pandemia climática

Sem dúvida, a pandemia de covid-19, que ainda estamos vivendo, gerou muitas dúvidas sobre a saúde mundial, a economia e até as formas como nos relacionamos com os outros. Mas vários especialistas coincidem em uma preocupação maior, um debate de fundo no qual a pandemia é apenas uma peça menor: a mudança climática.

“Esta crise é uma brincadeira de crianças se comparada ao golpe que vem da mudança climática. E é inevitável”, sentencia Medellín, e ao mesmo tempo deixa uma reflexão central: a pandemia deveria servir como lição a respeito do modo como a sociedade consome os recursos naturais e o impacto que isso tem no meio ambiente.

Além disso, para a famosa etóloga britânica Jane Goodall, a maior preocupação “é que continuemos como sempre, que continuemos com esta gananciosa destruição dos recursos naturais do planeta. (...) Na medida em que saiamos desta pandemia, precisamos encontrar uma nova economia verde. (...) Não podemos ter um desenvolvimento econômico global ilimitado, em um planeta com recursos naturais finitos e uma população em constante crescimento”.

O capitalismo, em questão

E ainda que a mudança climática, por si, “represente a luta de nosso século”, como foi dito pelo ex-representante da União Europeia, Javier Solana, este não é o único problema que a pandemia trouxe à luz. De fato, se existe algo que a covid-19 nos mostrou é o modo como são frágeis a existência humana e os nossos sistemas de saúde e sistema econômico.

É o que adverte o crítico e filósofo esloveno Slavoj Zizek, que de modo pertinente questiona no livro Pandemia! A covid-19 sacode o mundo: “Por acaso, tudo isto não é um claro sinal de que precisamos de uma reorganização da economia global para que deixe de estar à mercê dos mecanismos do mercado? É claro, não estamos falando aqui de comunismo de velho cunho, mas simplesmente de algum tipo de organização global que possa regulamentar e controlar a economia, assim como limitar a soberania dos Estados, quando for necessário”.

No entanto, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han avalia que é difícil conquistar uma mudança dessas características. “O vírus não vencerá o capitalismo. (...) O vírus nos isola e individualiza. Não gera nenhum sentimento coletivo forte. De algum modo, cada um se preocupa apenas com a sua própria sobrevivência”.

Por outro lado, para o famoso economista francês Thomas Piketty, esta crise reflete que “devemos investir mais em sistemas de saúde e promover maior igualdade”. Em diálogo com o jornal La Nación, o especialista manifestou: “Realmente, espero que as pessoas percebam que precisamos reinvestir em nosso estado de bem-estar. (...) Deveríamos aproveitar esta oportunidade para desenvolver programas de transferências de renda e promover serviços básicos de saúde”.

Piketty não apenas questiona o sistema de saúde, como também evidencia, a partir de outro dos macroproblemas, que o novo coronavírus aumentou e, segundo algumas vozes é preciso repensar, a desigualdade e a distribuição dos recursos.

“Não podemos continuar fugindo do tema da desigualdade”, expõe Chema Vera, diretor-executivo interino da Oxfam Internacional, para Project Syndicate, em um texto publicado pelo jornal El Tiempo. “Assim como a desigualdade nos países, a que existe entre países ricos e países pobres marcará radicalmente a experiência desta pandemia nas pessoas. (...) Deveríamos nos perguntar como chegamos a este ponto. Foi realmente uma boa ideia que os governos tenham feito do atendimento à saúde um privilégio pago, em vez de um direito fundamental, ou terem desconsiderado a necessidade de um salário básico ou proteção social para todos? Foi alguma vez inteligente deixar que 2.000 bilionários possuam mais riqueza que 4,6 bilhões de pessoas juntas?”.

E embora a desigualdade durante a pandemia se refletiu no aumento do desemprego e a pobreza, também há desigualdade no acesso à saúde, que agora vemos muito claramente com as discussões sobre a distribuição da vacina.

É o que destacou Jayati Ghosh, secretária-executiva de International Development Economics Associates, em um artigo para Project Syndicate sobre a luta que está sendo travada pelas vacinas: “Uma pandemia só pode ser superada quando for superada em todas as partes. (...) A não ser que mudemos de rumo, o ‘apartheid’ da saúde mundial se consolidará cada vez mais e conduzirá a desigualdade para novos patamares”.

Não obstante, embora há cientistas que insistem nas possíveis mudanças que o mundo deveria implementar com base nesta crise, e que são inadiáveis, há analistas que pensam o contrário e se inclinam a acreditar que, superada a situação, tudo continuará igual e não aprenderemos nada.

As coisas seguirão iguais

Nesta seleção de contribuições e reflexões a esse respeito estão pensadores do mundo das ciências humanas, que veem o panorama com menos esperanças. Por um lado, o filósofo espanhol Fernando Savater, em uma entrevista com Alconada Mon para o já mencionado jornal bonaerense, destaca que a pandemia não o permite ver nada de esperançoso. “Não acredito que sairemos mais fortes, nem melhores. Não. Sairemos mais pobres, porque isso será um golpe muito grande para todos os países e causará enormes problemas econômicos e trabalhistas. (...) Continuaremos no mesmo, mas um pouco pior. Acreditar que nós, humanos, deixaremos de ser o que somos e nos transformaremos em outra coisa, mais angelical, não acredito”.

Sua argumentação não é isolada. De fato, o poeta colombiano Juan Manuel Roca explica que por mais que a crise tenha afetado muitos setores da sociedade global, os problemas estruturais continuarão sem ser resolvidos. E acrescenta que não há tal esperança de retornar à “normalidade, pois não me parece que tenhamos vivido em qualquer normalidade, mas em uma anormalidade que se enraizou em nós como corrente, como o que deve ser. Para onde vamos, eu também não sei”.

O que, sim, mudará

Mas embora estruturas sólidas como os sistemas de saúde, os econômicos e os ambientais poderão ser ou não realmente afetados, em outras matérias, como o urbanismo e a educação, também surgiram deficiências que se tornaram visíveis, durante a crise, que devem ser levadas em conta.

O modo como as cidades estão construídas hoje ficaram limitadas para enfrentar uma situação destas características. É o que expôs Martha Thorne, diretora do Prêmio Pritzker, conhecido como o Nobel da arquitetura, em entrevista ao jornal El Tiempo. “As pessoas usam a cidade de diferentes formas. Mesmo se a covid-19 desaparecer, não seria genial se tivéssemos mais flexibilidade ao usar a cidade? Seria bom ter mais opções. Que a quadra ou o local não sejam só isso, mas um pano de fundo para fazer diferentes atividades. As coisas podem mudar durante o dia. O que isso significa para o urbanismo? Significa que a rígida forma como planejamos funções e usos da cidade precisa ser muito mais flexível. E penso que devemos dar muito mais destaque para nossos bairros, para que as pessoas se sintam seguras aí e possam satisfazer suas necessidades de trabalho, alimentação, entretenimento..., tudo em algumas quadras, sem ter que viajar grandes distâncias”.

É o que propõe esta especialista, que insiste em que as grandes metrópoles poderiam implementar novos modelos que se mostraram urgentes nas circunstancias atuais.

Uma visão similar, mas aplicada à educação, é a do famoso pedagogo italiano Francesco Tonucci sobre os desafios que os sistemas de aprendizagem enfrentam em relação ao modo como a virtualidade expôs os pontos frágeis da pedagogia de hoje.

Com uma visão mais otimista do que outros especialistas, Tonucci insiste em que a pandemia “é a maior oportunidade que temos em séculos. (...) A distância social tem uma vantagem porque obriga a romper com a aula. (...) A aula não pode seguir com 25 crianças que ficam diante de um professor na escuta, tentando entender o que diz e repetindo, se o professor pede. Esta é uma forma pobre, a nível cognitivo, que não merece todo o gasto que a escola precisa e todo o tempo que requer. É um investimento perdido, sendo que a pandemia nos obriga a pensar uma educação em grupos menores”.

O dilema

Por sua parte, o escritor israelense Yuval Noah Harari afirma em uma coluna que escreveu para o Financial Times, intitulada 'O mundo depois do coronavírus’, que “ao escolher entre alternativas, devemos nos perguntar não só como superar a ameaça imediata, mas também que tipo de mundo habitaremos, assim que a tormenta passar”. E conclui que a humanidade deve tomar uma decisão: “Percorreremos o caminho da desunião ou o caminho da solidariedade global? Se optamos pela desunião, a crise não só prolongará, mas também provavelmente dará lugar a catástrofes ainda piores. Se optamos pela solidariedade, será uma vitória não só contra o vírus, mas contra todas as futuras epidemias e crises que poderão golpear a humanidade no século XXI”, conclui.

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