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01 Dezembro 2020

"O que inicialmente havia sido, durante séculos, um caminho para aprofundar e investigar fenômenos que de outra forma seriam inexplicáveis, deu lugar a uma reflexão filosófica indispensável sobre as causas e razões do mal", escreve Paolo Mieli, escritor italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 30-11-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Por que o exército dos aqueus que sitiava Troia foi atingido por uma terrível praga? O culpado deve ser procurado no Olimpo. Homero narra que Agamenon raptou Criseide, filha de um sacerdote de Apolo. Apolo, para punir essa desfeita, castigou o rei de Argólida com uma epidemia que dizimou seus homens. Até que Agamenon decidiu se dobrar, entregou de volta Criseide e tomou em seu lugar Briseida amada por Aquiles. Melhor a ira de Aquiles do que a dos deuses. Esta é uma das primeiras descrições das "origens divinas" de uma pandemia. Descrição da qual Frank M. Snowden (professor emérito de História da Medicina bastante conhecido por ter escrito uma história da malária e outra do cólera em Nápoles de 1884 a 1911) inspira-se para o volume fundamental Storie dele epidemie (História das epidemias), síntese de um ciclo de palestras na Universidade de Yale, publicado pela Libreria Editrice Gorizia (Leg). A mensagem quase explícita da narrativa homérica é que "se você renunciar ao pecado e confiar no seu Deus, não terá de temer a praga que atinge apenas os ímpios". Caso contrário ...

Mesmo no Édipo Rei, a tragédia de Sófocles, serão os deuses que castigarão Tebas com uma pestilência para infligir grande dor à cidade culpada de ter aceitado um soberano, Édipo, culpado de ter matado seu pai e casado com a mãe. Também é evidente, tanto no Livro do Gênesis quanto no Livro do Êxodo, escreve Snowden, que "as pestilências eram castigos divinos infligidos a quem tinha ousado desafiar a vontade de Deus". Mesmo em todo o resto da Bíblia. William Naphy e Andrew Spicer - no livro La peste in Europa (il Mulino) - observam que os israelitas que fugiram do Egito e vagaram pelo deserto em busca da Terra Prometida, “foram muitas vezes ameaçados ou atingidos por punições enviadas por Deus”. Deus que mandou pragas contra seu povo para castigá-lo por não se contentar mais com o maná. Ou quando os exploradores enviados à terra prometida voltaram com um relato pessimista (e, como tal, "desprovido de fé"). Ou ainda quando os líderes "armaram um complô contra Moisés e Arão". A ira divina "dirigida ao ‘povo eleito’ culpado de profanar os santuários com imagens e práticas impuras teria causado o extermínio de um terço da humanidade justamente com o flagelo da peste ou da fome".

A praga, na antiguidade, sempre era considerada uma manifestação da cólera de Deus para com seu povo. As pragas atingiam "não indivíduos culpados de pecados específicos, mas um povo inteiro por se ter entregue ao pecado e, sobretudo, por um comportamento religioso não correto". Idolatria, falsos cultos e falta de fé estavam "na origem do pecado". E os não pecadores atingidos pela doença junto com todos os outros? Eles poderiam ter escapado ou evitado o flagelo "se arrependendo". Em que sentido? O arrependimento consistia em "se esforçar para modificar" o comportamento e as crenças dos povos aos quais pertenciam. Mas se conhecem poucos casos em que essa via de fuga realmente funcionou.

Uma explicação foi dada na época da peste de Atenas, que matou inclusive Péricles em 429 a.C., que misturava a origem divina com a superstição. Tucídides, no entanto, em A Guerra do Peloponeso (Martins Fontes), descreveu a epidemia como "um evento no qual o oculto, o sobrenatural, o divino não tinham nenhum papel". Tucídides foi um dos primeiros a entender que a doença vinha da Etiópia e depois se espalhou por vias "naturais". O antigo historiador nada concedeu à tese de que a epidemia se devia à ira dos deuses. Fez uma concessão às superstições da época, uma referência ao boato de que tudo havia começado com "o envenenamento dos poços pelos espartanos, inimigos de Atenas".

Ainda mais revolucionária foi a descrição de Hipócrates da peste em A doença sagrada (Marsilio). Na peste, escreveu Hipócrates (que viveu perto da epidemia ateniense), não há nada mais divino ou sagrado do que em outras doenças. Em vez disso, tem "estrutura natural e causas racionais". Por que então foi identificada uma origem "divina" naquele flagelo? Por "inexperiência", segundo Hipócrates. Ou pela surpresa de se encontrar na presença de "uma doença diferente de todas as outras". Aberto esse caminho, entraram em cena "magos, purificadores, charlatães e impostores". Cada um deles tinha a pretensão de ser "mais devoto" e ver mais longe do que todos os outros. Eles "usaram o divino como proteção para seu próprio desconhecimento" e, sobretudo, como justificativa por sua incapacidade de encontrar remédio. E, para garantir que sua ignorância não ficasse tão "manifesta", eles afirmaram que aquele mal era sagrado. Depois, se o doente se recuperava, alegavam que era mérito de suas curas. Se ele morria, atribuíam a responsabilidade aos deuses.

Resta o mistério para o qual Mark Honigsbaum chamou a atenção em um livro dedicado exclusivamente ao século XX - Pandemie. Dalla spagnola al Covid-19 un secolo di terrore e di ignoranza (Pandemias. Da gripe espanhola à Covid-19 um século de terror e ignorância, Ponte alle Grazie) - de como tinha sido possível que um germe capaz de matar um terço dos atenienses "não tenha atingido os espartanos nem se estendido muito além das fronteiras da Ática”. Mas isso é outra história.

Por que o que Hipócrates escreveu é importante? Como bem explicou o epidemiologista Charles-Edward Winslow “se a doença for postulada como um evento causado por deuses ou demônios, o progresso científico é impossível”. Se, ao contrário, "for atribuída a um hipotético estado, a teoria pode ser verificada e melhorada". É por isso que a causalidade natural identificada por Hipócrates foi "o primeiro passo fundamental" que marcou "de maneira incomparável a conquista mais significativa da história intelectual da humanidade". Na esteira de Hipócrates moveu-se o grego Galeno de Pérgamo, que viveu entre o século II e o início do século III da era cristã.

Snowden escreve que Galeno teve "a importante função de romanizar Hipócrates, no sentido de tornar sua obra conhecida para um público de língua latina em todo o Império Romano".

Na peste de Justiniano (541-542), a primeira real pandemia da história, segundo Procópio - que descreveu a propagação inicial da doença em Le guerre. Persiana, vandalica, gotica (Einaudi) - foram os crimes do imperador bizantino que atraíram a cólera divina. Cólera que teria justamente se manifestado com a disseminação da doença.

Hoje, Snowden explica, somos capazes de reconstruir que o mal atacou o homem em um centro no delta do Nilo "e depois se espalhou em dezoito ondas sucessivas durante um período de duzentos anos até 755 quando de repente desapareceu”. E "misteriosamente como havia chegado." Procópio escreve que "faltou pouco para que toda a raça humana fosse destruída".

Para a cristandade ocidental, Naphy e Spicer recordaram, o momento mais importante foi a peste que atingiu Roma em 590, que foi marcada in extremis "pela salvação milagrosa da cidade papal pelo arcanjo Miguel". Gregório I, antigo legado do Papa Pelágio II junto ao imperador do Oriente em Constantinopla, tornou-se pontífice justamente em 590 e encabeçou uma grande procissão que atravessou toda a cidade e coincidiu com o fim da epidemia. Segundo as crenças de seus fiéis, ele "interrompeu" a propagação da doença com a ajuda do arcanjo Miguel. A miraculosa aparição do arcanjo que "embainhava sua espada após ‘matar’ a epidemia" ainda hoje é lembrada pela estátua erguida no topo da Mole Adriana para celebrar o evento. O edifício recebeu o nome de Castel Sant'Angelo e Gregório, a denominação de “Magno”. Depois foi santificado.

Para os muçulmanos, naquele mesmo período, a morte pela peste garantia a entrada imediata no paraíso. Não havia diferença nesse sentido, escreveram Naphy e Spicer, "entre morrer de peste e morrer em batalha durante uma guerra santa ou uma cruzada". Mas “se a peste trazia uma grande alegria e era uma espécie de bênção dada por Deus aos fiéis, era também, para os infiéis, um castigo e um juízo de condenação”. O mundo islâmico "rejeitou total e categoricamente a ideia de que a doença se espalhasse por contágio, uma vez que Deus havia escolhido específica e individualmente seus alvos". Uma etapa fundamental desse percurso é, a partir de meados do século XIV, a “peste negra”.

A peste bubônica, de acordo com Snowden, é "um dos melhores exemplos de uma doença que afeta todos os aspectos da sociedade". Seus "ciclos recorrentes - com uma epidemia a cada geração - foram um grande freio ao crescimento populacional entre os séculos XIV e XVIII". Tiveram efeitos devastadores na vida econômica e no desenvolvimento, mas influenciaram ainda mais a religião e a cultura popular, dando origem a novas formas de devoção, a cultos de santos e representações da paixão de Cristo.

Pode-se argumentar, de acordo com Snowden, que "a peste bubônica influiu profundamente na relação das pessoas com sua condição mortal e, portanto, com Deus". As duas epidemias de peste, a justiniana e a do século XIV, foram de certo modo um divisor de águas entre as diferentes épocas da história humana: a primeira entre o mundo antigo e medieval, a segunda entre o medieval e o moderno.

Na Europa medieval, escreve Snowden, a peste deu origem a uma profusão de sermões religiosos cujo tema central era a "teodicéia", ou seja, "a defesa da benevolência do Deus Todo-Poderoso diante do mal e da dor". Era relativamente fácil, continua Snowden, aceitar que Deus estivesse com raiva e quisesse punir aqueles que haviam se afastado dele ou desobedecido aos seus mandamentos. Mas como explicar o terrível sofrimento infligido pelas epidemias aos "inocentes", por exemplo a morte de tantas crianças? É verdade que a peste provocava aquela que Snowden chama de "onda de religiosidade", mas também é verdade que produziu ao mesmo tempo tendências na direção oposta. Ou seja, induziu alguns à conclusão assustadora de que "podia não existir nenhum Deus". Um ser "amoroso e todo-poderoso" não tiraria indiscriminadamente a vida de metade da população de uma grande cidade, matando tantas pessoas "inocentes". Esse tipo de reflexão, aponta Snowden, na época não levava ao ateísmo, mas a "um desespero silencioso basicamente não expresso", um "choque psicológico que, em retrospecto e anacronicamente, poderíamos chamar de estresse pós-traumático".

Considerações que se repetiram inúmeras vezes, mesmo quando a ciência começou a lançar luz sobre as verdadeiras origens da doença (tema ao qual se dedica exaustivamente o restante do livro de Snowden). Mas reapareceram em infinitas ocasiões e nos livros mais famosos de autores como Giovanni Boccaccio, Daniel Defoe, Alessandro Manzoni, Albert Camus (além de uma infinidade de outros autores). E que retornaram novamente na segunda metade do século XX, na época da guerra fria, diante da perspectiva de um possível conflito nuclear. Apareceram, por exemplo, em um famoso filme do diretor sueco Ingmar Bergman, O Sétimo Selo (1957).

Portanto, o que inicialmente havia sido, durante séculos, um caminho para aprofundar e investigar fenômenos que de outra forma seriam inexplicáveis, deu lugar a uma reflexão filosófica indispensável sobre as causas e razões do mal.

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