Papa Francisco, sua intenção é trazer paz a uma Igreja dividida. Mas as dificuldades não faltam. Artigo de Marco Politi

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08 Setembro 2020

"Ao revisar as catequeses de Bergoglio e Ratzinger relatadas no livro, Parolin destaca a diversidade natural do estilo dos dois personagens, mas acima de tudo a 'consonância espiritual dos dois pontífices'. A realidade é menos idílica. Mas entrando na longa fase de pré-conclave, em vista de uma sucessão cujos contornos ainda não podem ser vislumbrados, é evidente que o Papa Francisco quer trazer paz, tanto quanto possível, em uma Igreja dividida", escreve Marco Politi, jornalista, ensaísta italiano e vaticanista, em artigo publicado por Fatto Quotidiano, 05-09-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

"Pacificar" é a palavra de ordem desta temporada do pontificado bergogliano. Para aparar arestas, acalmar, construir pontes para tentar acabar com a dura guerra civil dentro da Igreja Católica, que já persiste há anos. Precisamente desde que, com os dois Sínodos sobre a Família, o Papa Francisco abriu o caminho para a comunhão para os divorciados e recasados, arquivando as palavras de ordem dos "princípios não negociáveis" (um conceito que Bergoglio desde o início de seu pontificado declarou publicamente não compreender).

Esta semana, o Avvenire publicou um artigo de página inteira sobre um próximo livro dedicado a Bergoglio e Ratzinger. O título da obra é um programa: “Papa Francisco, Bento XVI Papa emérito. Uma só igreja" (em tradução livre). O layout da capa é concebido de forma a dar a impressão de que Bergoglio e Ratzinger escreveram o livro juntos (enquanto se trata de uma escolha paralela de discursos dos dois papas por ocasião das audiências gerais da quarta-feira).

O título do artigo do Avvenire é ainda mais explícito em seu objetivo. “Papa Francisco e Bento XVI - Novidades, continuidade, uma só Igreja” (em tradução livre). A intenção é clara. Deve ser eliminada e apagada até mesmo a sombra de uma contraposição entre os dois papas e entre os dois blocos que se colocaram em lados opostos há mais de seis anos. A realidade da Igreja e das suas hierarquias é um fenômeno complexo. Não há dúvida de que existem muitos vínculos entre as intervenções de Francisco e aquelas de seus predecessores Wojtyla e Ratzinger. A harmonia com o papa polonês é evidente no plano de um forte compromisso social. Com o papa alemão Bergoglio compartilha a necessidade de refletir sobre o significado e o sentido de ser cristão em uma época histórica em que o cristianismo na Europa se tornou minoria, não é mais normativo no Ocidente e no mundo deve se confrontar com o advento de uma sociedade culturalmente decididamente policêntrica.

Não se deve esquecer, nesse contexto, que Ratzinger e Bergoglio são os primeiros papas a pronunciar a palavra "amor" como termo mais usado, enquanto seus predecessores sempre colocam a palavra "Igreja" em primeiro lugar. Sinal de que o pontífice argentino e seu predecessor alemão estão ambos convencidos de que na era dos fundamentalismos, da indiferença e do "faça você mesmo" religioso, o cristianismo deve redescobrir com determinação o núcleo essencial de sua mensagem. O amor, a fraternidade, a justiça, a salvação que Cristo pregou.

Resta o fato de que dentro da Igreja está em curso há anos uma escalada agressiva dos ambientes tradicionalistas contra o papa reinante. E não há dúvida de que a luz verde do pontífice argentino à Eucaristia aos divorciados e recasados, sua recusa sistemática de condenar as uniões homossexuais, sua vontade de arquivar as guerras culturais entre a Igreja e o mundo moderno, sua abertura à discussão sobre o diaconato das mulheres e ter permitido avaliar a possibilidade de padres casados, tudo isso dividiu profundamente o mundo católico.

Existe um núcleo duro (estimado em 30% da hierarquia, do clero e dos leigos engajados de várias maneiras) que conduz uma oposição ferrenha contra o Papa Francisco. Abertamente em sites ou nos bastidores das estruturas eclesiais. O Sínodo sobre a Amazônia foi o momento mais agudo do embate. Uma frente significativa de bispos e cardeais se posicionou a favor de um veto absoluto a um clero casado, colocando Francisco em dificuldades. Fato mais grave, o ex-papa Ratzinger também interveio no confronto publicando um livro com o cardeal ultraconservador Robert Sarah: uma iniciativa vista como um sinal de pare oficial ao papa reinante.

Tanto que o resultado é que, apesar de o Sínodo Amazônico ter pedido (com voto regular de dois terços dos bispos participantes) que diáconos casados pudessem ser ordenados padres, Francisco congelou o assunto. Ele não desautorizou os bispos - a quem ele mesmo havia autorizado a enfrentar o problema -, mas nem mesmo deu seguimento, por enquanto, ao seu pedido.

O imperativo agora é "consertar". Assim se entende por que o prefácio ao livro dos dois papas - publicado com tanto destaque pelo Avvenire - foi escrito pessoalmente pelo secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin. A operação é claramente política. O colaborador nº 1 do Papa Francisco, o cardeal Parolin destaca os vínculos entre Bergoglio e Paulo VI. E a coincidência de acentos sobre o tema da misericórdia divina entre Bergoglio e os papas Wojtyla e Bento XVI. Parolin fala de uma "continuidade teológica sempre ressaltada". No caso do Papa Francisco e de Bento XVI, o Secretário de Estado do Vaticano enfatiza a "continuidade natural do magistério" entre os dois, acentuada pelo que ele define como um "vivo compartilhamento de afeto".

As citações fluem fáceis. No 65º aniversário da ordenação sacerdotal de Ratzinger, o Papa Francisco o elogiou porque "ele continua a servir a Igreja e não cessa de contribuir verdadeiramente com vigor e sabedoria para o seu crescimento". O ex-pontífice Ratzinger, por sua vez, disse que a bondade de Francisco o impressionou desde o momento de sua eleição e que essa “bondade é o lugar onde eu vivo: me sinto protegido”.

Em suma, ao revisar as catequeses de Bergoglio e Ratzinger relatadas no livro (publicado pela Rizzoli) Parolin destaca a diversidade natural do estilo dos dois personagens, mas acima de tudo a "consonância espiritual dos dois pontífices". A realidade é menos idílica. Mas entrando na longa fase de pré-conclave, em vista de uma sucessão cujos contornos ainda não podem ser vislumbrados, é evidente que o Papa Francisco quer trazer paz, tanto quanto possível, em uma Igreja dividida.

 

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