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11 Mai 2020

"Quando me confronto com as leituras de hoje (domingo, 10 de maio) de Atos dos Apóstolos, 6,1-7, nas quais os gregos temem que o fanatismo estivesse fazendo com que suas viúvas fossem negligenciadas pela comunidade cristã primitiva, vejo um forte paralelo na experiência dos católicos queer. Nosso bem-estar espiritual e emocional é negligenciado frequentemente em favor do fanatismo".

A reflexão sobre a Liturgia do Quinto Domingo de Páscoa é de Michael Sennett, graduado na Saint Xavier University, de Chicago, Illinois, onde estudou comunicação e religião, publicada por New Ways Ministry, 10-05-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Michael Sennett, depois de graduado em 2018, começou a trabalhar na Igreja de Santo Inácio de Loyola, em Chestnut Hill, Massachusetts, como assistente administrativo e especialista de mídias. Michael é um homem trans e gosta de escutar testemunhos de espiritualidade queer. O artigo é parte da iniciativa do blog Bondings 2.0, que criou a série “Fora da Tumba” para apresentar reflexões das leituras litúrgicas dos domingos para a comunidade LGBTQ e leitores aliados.

 

Eis o artigo.

 

Via, Veritas, Vita. O Caminho, a Verdade, a Vida. Essas palavras ditas hoje na leitura do Evangelho de João, 14-1-12, servem como lema da minha alma mater, Saint Xavier University, Chicago. O lema foi incorporado em várias facetas da vida universitária, moldando nossas crenças.

Imersos na atual pandemia com impressionantes perdas e incertezas, é duro ressoar essas palavras. É provável ser mais fácil ecoarmos as dúvidas e medos dos apóstolos Tomé e Felipe, os quais também são lembrados no Evangelho de hoje. Católicos queer não estranham a inquietação dos dois apóstolos para ter respostas. Frequentemente, católicos gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros sentem-se divididos pelo amor de Deus e pelo amor próprio. Procuramos adorar e dar graças a Deus, às vezes a um grande custo pessoal. Muitos católicos LGBTQ+ devem optar por permanecer fechados, pois senão sofrerão assédio. Viver autenticamente é lindo. Mas fazer isso requer não apenas a aceitação e o amor que recebemos do Senhor; deve vir também de nossos vizinhos terrenos. Como respondemos ao chamado de Jesus para avançar nesta tempestade, se não sabemos o caminho?

Como um homem trans católico, eu enfrentei nas rezas essas questões incontáveis vezes, mas particularmente uma em 2010. Durante o verão, ao final do ano, a imprensa reportava histórias de suicídios de adolescentes. Todos aqueles jovens eram gays ou perseguidos por serem gays, e cada um deles enfrentou o terrível bullying. Para ser pior, muitos cristãos de todas as denominações, incluindo católicos, estavam alertando que a homossexualidade levaria ao Inferno. Aos 15 anos, eu estava lutando com meu gênero e sexualidade, e eu estava traumatizado por essas mensagens e histórias. A realidade que testemunhei era traumatizante. Eu não conseguia entender que havia um lugar reservado para mim com Jesus. Para mim, eu era indigno e muito indigno.

Quando me confronto com as leituras de hoje de Atos dos Apóstolos, 6,1-7 , nas quais os gregos temem que o fanatismo estivesse fazendo com que suas viúvas fossem negligenciadas pela comunidade cristã primitiva, vejo um forte paralelo na experiência dos católicos queer. Nosso bem-estar espiritual e emocional é negligenciado frequentemente em favor do fanatismo.

Como os apóstolos reagiram aos gregos? Por meio da orientação do Espírito Santo, eles envolveram membros desse grupo e os designaram para ajudar na distribuição da caridade. No entanto, esse ainda não foi o caso dos católicos LGBTQ+. Professores gays nas escolas católicas são demitidos por se casarem com as pessoas que amam. Há padres que negam comunhão aos paroquianos queer.

Em junho de 2019, o Vaticano divulgou um documento prejudicial sobre identidade de gênero sem consultar uma única pessoa trans – e teve a audácia de pedir diálogo. Esses casos de homofobia e transfobia são comuns e irritantes. Apesar da defesa corajosa das organizações católicas queer, muitos clérigos ainda não ouviram suas vozes. Deve chegar um dia em que a hierarquia e os membros dos fiéis descubram a compaixão e a responsabilidade de incluir verdadeiramente os católicos queer.

Enquanto isso, onde podemos encontrar uma base para continuar construindo a esperança, mesmo com tantos erros e tanta dor? A segunda leitura de hoje, da 1a. Carta de Pedro, 2, 4-9, lembra que Jesus é a preciosa pedra angular da nossa fé. Ele é a ponte entre a humanidade e o céu. Os que o rejeitam tropeçam e caem; eles não conseguem manter o equilíbrio. No entanto, aqueles que creem e depositam sua fé nEle têm base.

Para católicos LGBTQ+, essa base é essencial. Reconciliar nossa fé e identidades de gênero/sexuais não é apenas coexistir com outras pessoas na igreja e na comunidade LGBTQ+. Fazemos isso porque essas identidades se aprimoram. Os católicos queer as vivem não como contradições, mas como exemplos do amor incondicional, interminável e onisciente de Deus.

O evangelho de João destaca esse amor que Deus tem por nós. Segundo Jesus, a casa de nosso Pai tem muitas moradas. O amor de Deus pela humanidade é forte, abundante e muito além da nossa compreensão. Há espaço para todos em Deus. Mas também temos o poder e o dever de espalhar o amor e a justiça de Deus por todo o mundo. Somos chamados a defender comunidades marginalizadas e a ser criadores da paz. Este é o nosso chamado batismal à santidade.

Continuando no caminho da incerteza, encontro o consolo de que os discípulos também tinham dúvidas e medos. Eles estiveram de luto e entristecidos, mas sua fé em Jesus Cristo perseverou. Às vezes, as pessoas LGBTQ+ podem ter medo, mas também devemos acreditar. Quando escolhemos a esperança sobre a dúvida, a fé sobre a descrença e a confiança sobre a incerteza, confirmamos que Jesus é “o caminho, a verdade e a vida”, permitindo-nos celebrar o relacionamento com Deus. Oro para que todos encontremos bênçãos contínuas nesta época da Páscoa, enquanto nos preparamos para celebrar a vindoura Ascensão do Senhor. Amém!

 

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