Na volta de Davos, representante vaticano fala de “mudança esperançosa” entre os líderes mundiais

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12 Fevereiro 2020

Sempre que o Papa Francisco fala de economia, tornou-se lugar-comum os seus críticos reagirem acusando-o de comunista ou populista, exigindo que o pontífice se volte para os “assuntos religiosos”.

A reportagem é de Inés San Martín, publicada por Crux, 09-02-2020. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

No entanto, de acordo com o padre argentino Augusto Zampini Davies – diretor de desenvolvimento e fé do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral desde a sua criação em 2016 –, o cuidado em nome da justiça, paz, inclusão, solidariedade, assistência à saúde e do meio ambiente são todos valores evangélicos.

Nos últimos três anos, Zampini acompanhou o presidente do dicastério, o Cardeal Peter Turkson, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que reúne algumas das pessoas mais poderosas da política, do mundo empresarial e das finanças.

“Nós seguimos a Cristo, e ele vem trazer o Reino de Deus, que é um reino de justiça, paz e inclusão”, disse Zampini ao Crux.

“Este reino, é claro, virá no fim dos tempos, mas cabe a nós a tarefa de difundi-lo. E isso significa que a Igreja Católica é chamada a trabalhar onde há justiça, paz, mas também guerra. Ela é chamada a trabalhar na assistência à saúde, no meio ambiente, na política e no mundo financeiro”.

“É um chamado a partir do Evangelho”, disse ele.

Antes de assumir o atual posto no dicastério, e antes mesmo de entrar para o seminário aos 20 e poucos anos, Zampini estudou direito internacional na Argentina e trabalhou no Banco Central do país, tendo atuado também na Baker McKenzie, escritório multinacional de advocacia. O religioso estudou nas universidades de Bath e Roehampton, e depois nas universidades de Durham e Cambridge, onde passou um ano como pesquisador visitante.

Antes de ir para a Inglaterra, Zampini deu início ao seu ministério sacerdotal trabalhando nas favelas de Buenos Aires.

Enquanto esteve na Inglaterra, ele passou uma década atuando como assessor teológico para a CAFOD, agência internacional oficial de ajuda humanitária da Conferência dos Bispos Católicos da Inglaterra e País de Gales.

Toda esta sua experiência o preparou para a função que hoje desempenha, que um dia o leva à floresta amazônica em preparação para o Sínodo dos Bispos dedicado à região, e no outro o leva a Davos, na Suíça, onde, juntamente com Turkson, jantou com alguns dos mais importantes líderes mundiais.

Ao falar dos motivos pelos quais a Igreja se preocupa com a igualdade, Zampini afirma que, além da resposta espiritual, existe uma resposta de ordem prática também: “Sempre iremos nos interessar no combate à pobreza, no respeito à dignidade dos trabalhadores, em garantir que a riqueza gerada não prejudique a criação divina. É o ensino social da Igreja”.

O dicastério presidido por Turkson, disse o padre argentino, “preocupa-se com tudo o que diz respeito ao social, com aquilo que acontece fora da Igreja. Nós não temos um plano, não somos um partido político, mas sabemos o que queremos. E, hoje, um sistema econômico mais justo é um objetivo que compartilhamos com outras religiões, com muitos que estão no mundo das finanças, e com todos os que apoiam os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável [da ONU]”.

“Não podemos ficar de braços cruzados enquanto uns são explorados, escravizados, enquanto o planeta está sendo degradado”, disse Zampini. “Queremos fazer a nossa parte”.

Segundo ele, a economia se baseia em decisões em todos os níveis: aqueles que produzem bens e serviços e aqueles que os consomem tomam decisões. O que a Igreja tenta fazer, explicou Zampini, é “promover os valores cristãos no mundo da economia. [E economia] influi nas relações entre as pessoas, e nós somos chamados a melhorar essas relações, com decisões embasadas no Evangelho”.

Quando fala da experiência em Davos, Zampini não consegue conter o seu entusiasmo. Embora tenha sido claro em dizer que a sua esperança não vem apenas desta viagem de cinco dias a um fórum internacional, o religioso declarou que se surpreendeu positivamente nesta sua terceira ida ao Fórum Econômico Mundial.

“É a primeira vez que vi, em muitos dos participantes, um desejo real, concreto de mudar a forma como se fazem as coisas, e em outros, pelo menos, vi um reconhecimento”, disse. “Para muitos líderes empresariais, fazer dinheiro não é mais aceitável como sendo a única meta de suas companhias. Sim, elas são empresas, mas existe o reconhecimento de que não se pode ter uma melhor margem de lucro tendo trabalhadores em condições análogas à escravidão”.

O fato de os líderes empresariais estarem mudando de mentalidade, diz Zampini, o faz se sentir melhor porque, muito embora seja bom que as diferentes igrejas, os movimentos sociais, as comunidades queiram lutar por transformação, isto só não basta se o modelo de negócios não mudar também.

“Ainda temos muito o que fazer, e não podemos nos contentar com ações isoladas. Precisamos de uma mudança radical, em uma geração”, disse o padre argentino. “Mas muitos já começaram a mudar, e nós podemos ajudar na aceleração desta mudança”.

No mundo financeiro, continuou ele, muitos falam dos investimentos ESG (sigla para “environmental, social and governmental”), ou seja, investimentos que têm um impacto ambiental, social e governamental positivo. Bilhões hoje são investidos em ESG, ou naquilo que o dicastério chama “investimento de impacto”, isto é, as transações empresariais que impactam positivamente a sociedade. Entretanto, no mundo das finanças, quanto mais dinheiro é colocado em algo, mais dinheiro daí se segue. Dessa forma, Zampini manifesta o desejo de ver este efeito de gotejamento se acelerar.

“Na falta de uma expressão melhor, Davos foi ‘esperançoso’ desta vez”, disse ele. “Vimos que ecoou o chamado do papa em Laudato Si’ a ouvimos o clamor da terra e o clamor dos pobres como uma coisa só, com muitos citando este pensamento”.

Esse clamor, de acordo com Zampini, é um clamor que não pode esperar e que pede por “urgência” na transformação do modelo econômico atual.

“Se em uma família o filho chora com toda força que tem, não fazemos uma reunião para tentar descobrir a melhor maneira de resolver o problema, nem começamos a ler livros sobre ‘o que fazer quando uma criança chora’. O que fazemos é responder a esse choro, porque é urgente. A mesma coisa com os pobres e como planeta”.

Perguntado qual a proposta para um novo modelo econômico, Zampini lembrou um evento a ser realizado em Assis no próximo mês de março, chamado Economia de Francisco, que reunirá jovens lideranças de todo o mundo para trabalhar ao lado de ganhadores do Prêmio Nobel e especialistas em finanças, os quais se colocarão como orientadores.

“Como realizar uma transição justa de uma economia baseada nos combustíveis fósseis para uma economia baseada em energias renováveis, sem os mais pobres pagarem por esta transição?”, perguntou Zampini. “Como responder ao clamor dos pobres e da terra, como criar uma economia centrada no povo, para que as finanças estejam a serviço da economia real? São coisas que o Papa Francisco diz e que estamos tentando pôr em prática. E existem muitos que estão fazendo isso”.

Embora Zampini reconheça que três anos atrás ele não tinha certeza do papel que a Santa Sé poderia desempenhar em Davos, hoje esta missão está mais clara. “No começo, eles nos colocavam nos painéis com outras religiões somente. E isso é importante, mas nós já pensamos de forma parecida, e não precisamos ir a Davos para falar com outros líderes religiosos”.

Quando este ponto foi trazido à atenção dos organizadores, todos entenderam e, desde então, a delegação vaticana vem tendo uma participação mais ativa, embora, nas palavras de Zampini, “nós não vamos lá para pontificar, mas para ouvir, aprender e, quando temos um conselho a dividir, o dividimos”.

“Este ano houve algo de diferente em Davos (...) Se continuarmos pondo pressão, se continuarmos ajudando uns aos outros, acredito que podemos ver uma transformação radical”, disse Zampini.

 

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