Apesar das divergências, bispos alemães se comprometem com “caminho sinodal”

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05 Outubro 2019

A Conferência dos Bispos da Alemanha concluiu a sua assembleia plenária de outono em Fulda com um anúncio de que o caminho sinodal - uma mesa redonda entre a Conferência Episcopal e o Zentralkomitte der Deutschen Katholiken (o Comitê Central dos Católicos Alemães, ou ZdK), a maior organização leiga da Alemanha - terá início no primeiro dia do Advento.

A reportagem é de Zita Ballinger Fletcher, publicada por National Catholic Reporter, 04-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Não há nenhum sinal de parada por parte de Roma para o caminho sinodal, e nós vamos dar continuidade. Esse foi o resultado das conversas em Roma e da opinião unânime da nossa assembleia plenária aqui em Fulda, após um longo debate”, de acordo com uma declaração divulgada pelo cardeal Reinhard Marx, de Munique e Freising, presidente da Conferência Episcopal, na conclusão da assembleia no dia 26 de setembro. “Informaremos Roma continuamente sobre o caminho sinodal.”

Fulda, uma pequena cidade barroca, foi escolhida como o local da assembleia plenária devido ao seu grande significado histórico para a Igreja alemã. Sua catedral abriga os restos de São Bonifácio, venerado como “o apóstolo dos alemães”. Participaram da assembleia 65 arcebispos. Os convidados incluíam representantes das Conferências Episcopais francesa e polonesa.

A assembleia visava principalmente discutir o caminho sinodal. Opiniões fortemente divergentes surgiram nas homilias proferidas pelos bispos durante as missas diárias e em documentos individuais publicados pela Conferência Episcopal Alemã.

Em sua homilia na missa de abertura da assembleia, Marx exortou os bispos participantes a serem francos e sinceros, pedindo-lhes que se lembrassem de que o próprio Jesus havia adotado novas abordagens para a fé e a comunidade em seu próprio tempo.

“Não existe nenhuma época em que tudo era melhor e à qual devamos dar ouvidos, nem utopias onde deveríamos nos situar – ‘se ao menos fosse assim’”, disse Marx. “A hora é agora. As coisas serão feitas ou não hoje, nos momentos que vêm ao nosso encontro.”

Em contraste, o cardeal Rainer Maria Woelki, arcebispo de Colônia, divulgou um documento por escrito analisando as instruções do Papa Francisco à Igreja alemã. Woelki enfatizou suas preocupações com os possíveis “riscos” levantados pelo caminho sinodal em relação ao impacto sobre os ensinamentos universais da Igreja.

“Para além das oportunidades, o caminho sinodal, no entanto, representa o grande risco de levar em consideração principalmente – de fato, quase exclusivamente – as mudanças estruturais e, finalmente, colocá-las em prática”, escreveu Woelki, dirigindo-se aos seus irmãos bispos.

“É claro que ajustes organizacionais e estruturais devem ser realizados de tempos em tempos. Mas, como o problema que enfrentamos, especialmente a crise da fé, é abrangente, a nossa reação e o nosso trabalho sinodal também devem ser igualmente abrangentes”, escreveu Woelki. Ele manifestou a sua opinião de que a Igreja, neste momento de crise, requer mais do que mudanças administrativas.

Woelki citou trechos da carta do papa Francisco de junho, alertando os bispos alemães contra a “fixação nas estruturas” e a advertência contra “tentações sutis” ao empreender um processo sinodal. Woelki enfatizou o pedido do papa de uma renovação espiritual.

A posição de Woelki difere drasticamente da de outros membros da Conferência Episcopal, que expressam um apoio incondicional ao caminho sinodal.

Coincidentemente, a homilia de Woelki, no dia 25 de setembro, na assembleia de Fulda se concentrou em São Nicolau de Flüe, que ele descreveu como alguém perseguido por seus contemporâneos devido à sua busca da verdade.

“Quem procura a verdade está no caminho da paz. Essa foi sua convicção mais profunda. Ele via chamas saindo da boca dos seus colegas. Ele via a falsidade das suas gargantas abertas e não conseguia perdoá-los”, disse, descrevendo as experiências de São Nicolau como juiz. O sermão de Woelki também criticou os efeitos do egocentrismo. “O interesse próprio se torna uma doença destrutiva para um ser humano, enfraquecendo-o até ao ponto de não conseguir olhar a verdade de frente.”

No dia seguinte, o arcebispo Stefan Hesse, de Hamburgo, fez uma homilia que parecia traçar paralelos entre o caminho sinodal e as viagens de Jesus no Evangelho, comparando os viajantes relutantes a Herodes Antipas.

Jesus está viajando por um caminho, e outros se juntam a ele nesse caminho e, portanto, o reconhecem”, disse Hesse em sua homilia. “Herodes me parece um homem que está prestes a começar assim, mas nunca começa. Como alguém que se detém na linha de partida e nunca a ultrapassa.”

Hesse concluiu dizendo que a sua esperança era de que “possamos nos perceber em Cristo e permitir que ele seja mais visível neste mundo do que os Herodes dos nossos dias”.

Em declarações divulgadas na conclusão da assembleia, o cardeal Reinhard Marx reconheceu as divergências entre os bispos.

“Todos os bispos concordaram em seguir o caminho [sinodal] – apesar de muitas diferenças, que se tornaram muito aparentes nos últimos meses”, escreveu Marx.

Dirigindo-se aos profissionais da comunicação, em uma coletiva de imprensa após a assembleia, Marx disse que o caminho sinodal não é um afastamento dos ensinamentos da Igreja. Ele também enfatizou a importância da unidade com o papa Francisco, descrevendo-a como “absolutamente substancial para a fé católica, para o caminho católico, que devem estar sempre interconectados um com o outro”.

“Essa é a missão do Santo Padre e, portanto, a unidade com ele – particularmente com ele em seu papel como sucessor do apóstolo Pedro – tem grande importância. Para nós, isso é totalmente indiscutível”, disse Marx à imprensa.

No entanto, em sua declaração, Marx também destacou o objetivo reformador do caminho sinodal. “Estamos cientes de que o caminho sinodal irá mudar a Igreja. Um processo sinodal sem reforma é impensável”, de acordo com a declaração do cardeal.

Em um discurso comovente proferido na missa final da assembleia, o bispo Stefan Oster, de Passau, discutiu o atual dilema dos católicos na Alemanha e no mundo.

“Como uma pessoa considera a sua fé hoje nesta Igreja e nesta sociedade?”, questionou Oster. Ele disse que um jovem de mente crítica provavelmente percebe a Igreja “repleta de escândalos, ou arcaica, ou como uma organização distorcida, com uma moral proibitiva e regulamentos de crença incompreensíveis”.

Oster disse que a Igreja em geral faz um péssimo trabalho em demonstrar uma fé alegre aos jovens, apesar das provações, uma tarefa dificultada ainda mais pela “fachada externa” da Igreja dos “escândalos e escândalos, os crimes, a complacência, a falta de responsabilidade e de experiências santas”.

“Tudo isso hoje está fazendo com que muitos se afastem da Igreja, embora muitos dos que ainda permanecem tenham chegado a um tipo de ‘catolicismo de resignação’ envergonhado – ou seja, ‘eu ainda pertenço à Igreja apesar de tudo, afinal, a Igreja ainda faz muito em termos de serviço social’.”

Oster pediu que os fiéis superem a desilusão e sejam testemunhas de fé através do exemplo. “O nosso tempo exige testemunhas de santidade, especialmente de uma santidade simples na vida cotidiana, sobre a qual o papa Francisco fala”, disse Oster.

Ele expressou a sua esperança de que o caminho sinodal “corra bem” e convidou outros a acompanharem o esforço dos bispos de todas as maneiras.

“Acima de tudo, rezem por todos nós que estamos embarcando nesse caminho compartilhado pela Igreja na Alemanha”, disse ele.

O caminho sinodal começará no primeiro dia do Advento, com a sua primeira plenária marcado para o fim de janeiro de 2020, na Catedral de São Bartolomeu, em Frankfurt.

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