O que aconteceu com a ‘First Things’?

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04 Outubro 2019

Eu costumava ler regularmente a First Things, porque é importante para mim estar familiarizado com os diferentes modos de compreender o catolicismo e a Igreja além dos meus próprios modos. E a leitura da First Things vinha sendo há tempos um bom exercício para essa outra forma de ver a Igreja Católica. Os artigos publicados nessa revista eram brilhantes, não arrogantes, pungentes, e militantes. Eu realmente apreciava todos estes aspectos.

O artigo é de Marcello Neri, padre e teólogo italiano, professor da Universidade de Flensburg, na Alemanha, publicado por Settimana News, 02-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Ouso dizer que aprendi muito com eles. Sobretudo aprendi a não tomar como certa a minha perspectiva de Igreja. Aprendi que as pessoas podem ter outros sentimentos e pontos de vista sobre o catolicismo, e que há razões muito boas para tanto.

Fui introduzido à First Things por um destacado autor que costumava publicar alguns textos nela: o falecido Cardeal Avery Dulles, jesuíta. Ele gostava da revista e de sua posição política e eclesiológica, o que bastava para eu levar muito a sério todos os textos publicados em suas páginas.

Por causa disso, sempre associei o seu estilo de teólogo, jesuíta e padre com o conteúdo dos artigos que eu lia na First Things. Uma coisa entre muitas que aprendi com ele é que se pode escrever uma crítica severa sem faltar com respeito pela pessoa ou visão teológica com que se está lidando – mesmo no caso da mais profunda discordância com a outra parte.

Ainda não sei o porquê, mas o Cardeal Dulles sempre foi muito bondoso comigo. De algum modo, ele – o velho jesuíta – gostava de mim, um jovem teólogo progressista (e jornalista de uma revista católica italiana que era exatamente um contraponto à First Things). Eu o visitava toda vez que houvesse a ocasião de ficar em Nova York por alguns dias. Nos encontrávamos em seu escritório no campus da Universidade Fordham, no Bronx, caminhávamos por horas discordando praticamente de quase tudo, então almoçávamos no refeitório da comunidade jesuíta no próprio campus. Tudo rodeado por uma atmosfera amigável.

Duas gerações diferentes, dois fundos culturais diferentes, duas compreensões profundamente diferentes de Igreja Católica e sua missão: e, no entanto, ele sempre foi legal para mim, pedindo para lhe telefonar na próxima vez que estivesse na cidade. Às vezes, eu me sentia como um parceiro de treinos dele – exausto, sentado no fundo do trem de volta ao centro de Manhattan. Eu me perguntava: Por que ele gosta tanto de conversar comigo? Por que me dá tanto de seu precioso tempo?

Não fui capaz, e ainda não sou, de dar uma resposta. Mas sei duas coisas: fico honrado pela possibilidade que ele me deu de conversar e discordar; e, o mais importante, ele era um verdadeiro cavalheiro. Alguém desse tipo é raro. Por esse motivo, considero um grande presente ter conhecido o Cardeal Dulles. E considero um grande presente toda discordância, por menor que seja, que tínhamos sobre o Concílio, a Igreja, problemas teológicos, e assim por diante, embora eu ainda sinta o seu caloroso aperto de mão ao final do dia, com sua voz calma a dizer: “Te vejo da próxima vez”.

Teoricamente, cada um de nós deveríamos nos postar armados até os dentes do outro lado da divisão produzida pelas guerras culturais. Na realidade, o que fazíamos era bater um papo, dar risada, almoçar juntos. Não era uma trégua, era uma amizade – pois ele era um verdadeiro cavalheiro. Por certo tempo, pude encontrar algo deste seu estilo de argumentação nas páginas da First Things: críticas sem nenhuma necessidade de zombaria do “adversário”, sem nenhum traço de violência, apenas pelo bem da Igreja.

Então algo aconteceu, e de repente não há mais nenhuma lembrança disso nas páginas da First Things.

Sinto muitas saudades do Cardeal Dulles; todo dia sinto a falta do estilo de discordância respeitosa que ele me ensinou. Eis a sua lição que nunca deveríamos esquecer. Precisamos tanto deste seu estilo de respeito pungente em nossa Igreja hoje... mas estamos todos tão perdidos no mar que não temos mais ideia do que significa ser um verdadeiro cavalheiro.

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