‘Esta é a ética que impulsiona o progresso’. Entrevista com Elena Cattaneo

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

28 Setembro 2018

"Ciência, Ética e Sociedade" é o tema desafiador da entrevista com Elena Cattaneo, farmacologista e senadora vitalícia. A entrevista é de Gabriele Beccaria, publicada por La Stampa, 26-09-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professora, poucos estão cientes de que existe uma ética da ciência e muitos acreditam que tudo seja permitido: dessa forma pensam na pesquisa como um Moloch cruel e cego. Como essa visão incorreta pode ser corrigida?

A ciência é outra coisa, investiga a realidade com a humildade de quem se coloca diante do desconhecido. Só meses de experimentos, cansaço e fracassos dirão se o caminho percorrido está correto. Ao longo desse caminho, só se obedece ao método científico, que coloca em análise cada ideia, sem jamais aceitar que alguma possa ser ‘privilegiada’. Na Itália, é difícil afirmar esse método. O único que permite não transgredir a ética pública.

Você é um exemplo de compromisso em nome da transparência e dos princípios da liberdade de pesquisa: qual, entre suas batalhas, teve mais sucesso e qual será a próxima?

Em 2001, percebi que uma comissão ministerial distribuía fundos para a pesquisa sem método científico. Eu me revoltei porque acredito na ética da ciência. A questão chegou ao Parlamento. O subsecretário reconheceu que a comissão não havia trabalhado de forma transparente. Foi uma primeira vitória. Outros casos semelhantes seguiram. Eu processei o governo, com dois colegas, pela liberdade de pesquisa sobre as células-tronco embrionárias. Então veio o caso Stamina. Mais recente é a batalha sobre o Human Technopole, que repropõe o método da ‘cooptação’, contrário à ética pública. Um erro a que o governo teve que por remédio. Pensando no futuro, o tema que me ‘tortura’ é a enorme contradição entre fatos e crenças na agricultura. Política e marketing contaram uma história diferente da desastrosa realidade do setor. Enquanto no campo da medicina a inovação é bem-vinda, na agricultura é de fato proibida.

Por que na Itália o debate sobre a ciência encontra tantas dificuldades? Existe uma receita que pode nos ajudar a melhorar uma situação comprometida por desinformação, notícias falsas e histerias de massa?

Na Itália falta o hábito do raciocínio científico. Muitas vezes, para defender ‘visões’ que são apoiadas ou criticadas a priori, busca-se pesquisas em teses em vez dos dados sobre os quais há consenso na comunidade dos estudiosos. Principalmente, a cada nova descoberta científica, estamos acostumados a ouvir falar sobre os medos que gera e mais dificilmente fala-se a respeito para apreciar seus concretos avanços.

Existe um exemplo de sucesso, fora da Itália, de como discutir de maneira eficaz os problemas da ciência e da tecnologia?

Desde 2014, a BBC adotou diretrizes para a comunicação científica, elaborando listas de especialistas. Uma proposta semelhante constava nas conclusões da investigação do Senado sobre o chamado método Stamina. Infelizmente ainda são palavras vazias.

Por que são ainda poucos os cientistas na Itália dispostos a se envolver pessoalmente, quando estão em jogo questões de interesse coletivo, como as vacinas, a Aids ou o tratamento do câncer?

Se a ciência na Itália tem dificuldades para afirmar sua autoridade, boa parte da responsabilidade é dos estudiosos. Em vez de participar no debate público para restabelecer a verdade dos fatos científicos, muitos permanecem fechados em laboratórios, talvez pensando - erroneamente - que o debate público não lhe diz respeito ou por medo de serem impopulares. No entanto, as capacidades e as competências desses cientistas são indispensáveis para argumentar inclusive os "não" às vezes necessários ao país.

Você tem algum conselho para aqueles que divulgam a ciência?

Não ter medo de restaurar o bom senso contra o senso comum. É preciso ‘contaminar’ todos os âmbitos com uma comunicação enérgica, quando os tons e as posições são extremos, e mais argumentativa para responder às dúvidas dos cidadãos. Está em curso um debate, mesmo dentro da comunidade científica, sobre a utilidade de ‘desmascarar as mentiras’, o chamado 'debunking'. Eu acredito que seja essencial.

Precisamos, também, de coragem para afirmar que não existe uma condição de igualdade na ciência, que não podem ser colocados no mesmo nível - ou no mesmo estúdio de tv - cientistas e charlatães. Nesses casos e sempre recusei, sem nunca me arrepender.

Leia mais