Outro olhar: solenidade de Corpus Christi

Foto: Tony Winston/ Agência Brasília/ Fotos Públicas

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Mai 2018

"Muitos participam da paixão de Jesus, porque experimentam em seus corpos os efeitos do vício da corrupção, do descaso com a promoção do bem comum, da indiferença a gays e lésbicas e transexuais, da religiosidade sem compromisso com a transformação da sociedade, além de receberem o vinagre amargo do ódio", escreve Carlos Rafael Pinto, Mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE-BH) e Graduado em Filosofia e Teologia pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora (CES-JF). 

Eis o artigo. 

Desde o Papa Urbano IV, no século XIII, a Igreja Católica celebra a solenidade de Corpus Christi. Nesse dia, fiéis se reúnem nas comunidades eclesiais para a celebração eucarística, seguida da Procissão solene, pelas ruas, com o Santíssimo Sacramento, sobre os tapetes confeccionados com carinho e devoção.

Na narrativa do memorial do Senhor (consagração), quem preside a assembleia litúrgica (povo reunido para a celebração eucarística) faz ecoar as palavras de Jesus: pegando pão, “tomai, todos e comei, isto é meu corpo”; pegando o cálice de vinho, “tomai, todos e bebei, isto é meu sangue” e, por fim diz, “fazei isto em memória de mim”.

Sobre o altar, vemos os sinais do Sacramento da Eucaristia: o pão e o vinho. Enquanto o pão consagrado vem do trigo (plantado e recolhido pelas mãos calejadas de homens e mulheres), o vinho consagrado vem da uva (plantada e colhida pelo suor de muitos trabalhadores do campo, nem sempre justamente remunerados).

Por isso, no Sacramento da Eucaristia, são irradiados trabalhos e sonhos, alegrias e tristezas, e também injustiça sofrida por muitas pessoas. Na adoração ao Santíssimo Sacramento, não nos esqueçamos de contemplar Jesus crucificado: o sacramento de seu corpo triunfante que porta as marcas da flagelação e da crucificação.

Muitos participam da paixão de Jesus, porque experimentam em seus corpos os efeitos do vício da corrupção, do descaso com a promoção do bem comum, da indiferença a gays e lésbicas e transexuais, da religiosidade sem compromisso com a transformação da sociedade, além de receberem o vinagre amargo do ódio.

É colocada ainda sobre suas cabeças a coroa de espinhos da desesperança. Muitos trazem as marcas dos inúmeros flagelos da injustiça social, denunciados há séculos e séculos, por exemplo, por São João Crisóstomo, em um de seus sermões:

Você poderia dizer-me como é que você é rico? De quem recebeu essa riqueza? E este, de quem a recebeu? De um antepassado, você dirá. E assim podemos continuar até o princípio. Mas você não consegue demonstrar que a sua riqueza seja justa. Não se pode negar que tudo começou com uma injustiça. Por quê? Porque Deus no início não criou a um rico e a outro pobre. E não deixou que um descobrisse tesouros, ao passo que escondeu estes para outros. Deus deu a todos a mesma terra para ser cultivada... Deus distribuiu tudo a todos como se todos fossem irmãos dele.(1)

Participando da Solenidade do Corpo de Cristo, não deixemos de contemplar o corpo flagelado e desfigurado de Jesus e, nele, os corpos de tantas pessoas flageladas e desfiguradas, uma vez que formamos um só corpo, conforme a segunda leitura (1Cor 10,16-17):

O cálice da bênção, o cálice que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? E o pão que partimos, não é comunhão com o corpo de Cristo? Porque há um só pão, nós todos somos um só corpo, pois todos participamos desse único pão.

Sobre os tapetes fascinantes, percorramos as ruas com o Santíssimo Sacramento, denunciando as chagas que ainda rasgam os corpos, sobretudo dos mais necessitados.

Nota: 

(1) João Crisóstomo. Sermão 12: Carta a Timóteo 4. apud BOGAZ, A. et al. Doutrina social da Igreja. In: _____. Patrística: caminhos da tradição cristã. São Paulo: Paulus, 2008. p. 151

Leia mais