Haiti: fragilidade em infraestrutura e força do povo permanecem um ano após o furacão Matthew

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19 Outubro 2017

Neste mês e provavelmente em cada outubro do resto de sua vida, a irmã haitiana Evelyn Moliney lembrará um momento que ela preferiria esquecer.

A reportagem é de Chris Herlinger, publicada no sítio National Catholic Reporter, 13-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Há um ano, o furacão Matthew abateu-se sobre o sudoeste do Haiti, ameaçando uma grande área costeira, incluindo a cidade e os arredores de Jérémie, a capital do departamento, ou província, de Grand’Anse.

Moliney estava trabalhando na cidade de Marfranc, a cerca de 25 quilômetros a sudoeste de Jérémie, com quatro coirmãs da Congregação das Pequenas Irmãs de Santa Teresa do Menino Jesus. As religiosas estavam ajudando a cuidar de 40 residentes de um asilo gerido pela comunidade haitiana.

As irmãs discutiram se elas e os residentes deveriam ficar ou evacuar – uma questão comum quando o Haiti é ameaçado, como geralmente é, por um furacão, e as pessoas tentam avaliar a força da tempestade. O país mais pobre do hemisfério ocidental não possui uma boa infraestrutura e carece de um sistema adequado de abrigos públicos.

As irmãs pensaram que o lar de idosos poderia suportar as chuvas e os ventos torrenciais.

Mas não resistiu.

Durante a noite do dia 3 de outubro e a manhã do dia 4, os ventos frequentes do furacão de categoria 4, de quase 250 km/h, atingiram o Haiti, varrendo parte do telhado de metal do edifício, enquanto a tempestade continuou durante a noite. As irmãs rezaram e confortaram os residentes, aspergindo o interior da casa com água benta, mesmo enquanto a chuva entrava no prédio.

Quando estava seguro, as irmãs transferiram os moradores para uma delegacia de polícia e para a casa de um sacerdote local. Mas, durante a evacuação, uma parede do prédio desmoronou, matando um dos residentes. “Foi traumático para todos nós”, disse Moliney durante uma entrevista recente enquanto estava em Baradères, uma comunidade montanhosa no sudoeste do Haiti, também atingida pelo Matthew, embora não tão severamente como Jérémie e Marfranc.

Mesmo agora, um ano depois, o trauma permanece – algo sobre o qual Moliney hesita em falar muito. A oração ajuda, disse, mas as dificuldades diárias continuam. Muitos moradores da área de Jérémie – como os residentes do lar de idosos – ainda estão em abrigos temporários, embora Moliney tenha dito nesta semana que a reforma do centro começará no fim deste mês.

“A maioria das pessoas não podem reconstruir suas casas, e não há meios para fazer isso”, disse ela sobre muitos residentes de Jérémie.

Esse é apenas um dos muitos desafios enfrentados por uma congregação ainda abalada pela perda de alguns de seus membros e pela devastação do catastrófico terremoto de janeiro de 2010. “A nossa situação econômica é precária”, disse a Ir. Denise Desil, madre-geral da congregação de quase 200 membros. “Precisamos de apoio para apoiar os outros.”

Mesmo assim, disse Moliney, “sentimo-nos encorajadas a fazer parte do trabalho do povo de Deus”, ressaltando a solidariedade e a ajuda durante o furacão prestadas reciprocamente pelas pessoas do Haiti.

Além do terremoto, o furacão Matthew está entre os mais sérios desastres que desafiaram a nação insular na última década. O número oficial de mortes devido à tempestade é de 546 pessoas, embora estima-se que cerca de 1.000 tenham morrido, dizem as autoridades locais.

Nas semanas que precederam o primeiro aniversário do furacão, os haitianos estavam preocupados com as novas ameaças dos furacões Irma e Maria, que atingiram outras ilhas do Caribe. O Maria trouxe chuvas e inundações, mas, felizmente, nada pior; o Irma, em grande parte, poupou o país, embora os agricultores do norte do Haiti tenham experimentado algumas perdas sérias, como informou o jornal Miami Herald.

O aniversário do Matthew e o potencial de novos desastres agitaram a discussão entre os haitianos sobre a fragilidade do país e as lições aprendidas ao lidar com os desastres. Esse debate continua, já que as Nações Unidas designaram o dia 13 de outubro como o Dia Internacional para a Redução de Desastres, para marcar “o modo como as pessoas e as comunidades em todo o mundo reduzem a sua exposição a desastres e aumentam a conscientização sobre os riscos que enfrentam”.

Os efeitos secundários do furacão Matthew ainda estão sendo sentidos, já que ele “devastou muitas casas e fazendas ao longo da costa sudoeste do Haiti; ele também varreu o gado”, disse o bispo anglicano Ogé Beauvoir, diretor-executivo da operação haitiana da organização humanitária Food for the Poor.

Isso também ocorreu algumas semanas antes da época da colheita, resultando em insegurança alimentar e em incapacidade de ter acesso a alimentos, o que continua sendo um “grande desafio para muitas comunidades no Haiti”, afirmou.

Beauvoir disse que não está preocupado com o fato de que as ajudas e as doações que estão sendo direcionadas para outras ilhas do Caribe, assim como para áreas do Texas, Louisiana e outros locais afetados pelos furacões deste ano, terão um impacto sobre os esforços de reconstrução do Haiti.

As doações estadunidenses já apoiaram a plantação de sementes após a tempestade, além de um projeto de reflorestamento, de novos galinheiros, de novas colmeias de abelhas e de treinamento para apicultores, de criação de cabras, de mudas de árvores frutíferas e sementes de feijão-preto, milho e outros vegetais, disse.

Quanto às lições aprendidas com o Matthew, Beauvoir disse que havia uma “falta de preparação em certos níveis”, o que dificultou a organização da distribuição de alimentos e o contato com a população vulnerável.

No entanto, o bispo disse que existem muitas organizações comunitárias regionais efetivas no Haiti, como a Associação de Prefeitos de Grand’Anse, “que demonstrou a sua proximidade com as comunidades às quais eles servem e que nos permitiu ampliar o nosso campo de distribuição”.

Beauvoir não minimizou outros problemas. A reconstrução após a devastação causada pela tempestade apresentou desafios, particularmente em áreas rurais muito atingidas. Alguns comboios do Food for the Poor foram atacados, disse, e algumas estruturas de armazenamento em Jérémie e na cidade de Les Cayes foram saqueadas. Mas Beauvoir elogiou a polícia por escoltar alguns dos comboios da organização para áreas que precisam de alimentos.

Em geral, a maior lição aprendida com o Matthew “é que a população precisa estar mais bem preparada para enfrentar catástrofes naturais”, afirmou.

Desil prevê que as outras ilhas do Caribe afetadas por vários furacões neste ano se “reabilitarão” por meio dos seus laços com outros países, como a Ilha de São Martinho com a França. “Dói o coração que nós [os membros da congregação] não possamos ir ajudá-los”, disse ela em uma entrevista recente.

Reduzir o risco futuro

Embora existam muitos recursos no mundo para ajudar as nações a se reconstruírem de catástrofes, ela reconheceu que o Haiti – embora tendo sorte até agora durante a atual temporada de furacões – poderia enfrentar a “fadiga do doador” internacional se fosse atingido por um furacão neste ano ou em um futuro próximo.

Refletindo sobre as lições aprendidas com o Matthew e outros grandes desastres, incluindo o terremoto de 2010, em que 220 mil pessoas morreram, Desil disse que o Haiti deve construir edifícios mais resistentes, para estar mais bem preparado para os desastres.

Desil conhece a tristeza e a agonia decorrentes do problema. Três irmãs e um motorista morreram quando a pequena casa da congregação em Port-au-Prince desmoronou durante o terremoto, e uma quarta irmã morreu em outro lugar. E 122 estudantes morreram quando uma escola dirigida pela congregação na cidade ocidental de Carrefour desmoronou. “Foi terrível”, disse Desil.

O Haiti aprendeu com o terremoto, afirmou, mas sempre há preocupações sobre como os edifícios novos estão sendo construídos e se eles poderão suportar danos causados por um grande terremoto.

Quanto ao furacão Matthew, uma série de clínicas e outras estruturas administradas pela congregação resistiram muito mais aos danos causados pela tempestade do que o lar de idosos – embora Jérémie e as cidades vizinhas estivessem entre as mais atingidos pelo furacão.

Toda temporada de furacões – aproximadamente de agosto a novembro – traz uma ansiedade renovada ao Haiti. “Nós sempre nos preocupamos. Nunca sabemos o que vai acontecer”, disse Desil.

Quando o furacão Maria ameaçou brevemente a cidade de Cap-Haïtien, os céus assustadoramente escuros e as ondas agitadas deixaram as pessoas ansiosas, particularmente aquelas que viviam em áreas de baixa renda, perto da região costeira da cidade. O furacão não atingiu a cidade, embora tenha afetado parte da vizinha República Dominicana, que compartilha a Ilha de Hispaniola com o Haiti.

“Nós nos preocupamos muito”, disse Watson Joachin, 24 anos, um estudante e músico que mora em uma área ribeirinha da cidade de Nan Bannann, que muitas vezes fica inundada. “E ficamos aqui porque não temos mais nenhum outro lugar para ir.”

Quando as situações ficam ruins, Joachin disse que os vizinhos contam uns com os outros para obter comida e abrigo quando necessário. “Nós cuidamos de nós mesmos”, disse.

Esse sentimento de solidariedade – necessário em um país onde, em sua maior parte, as pessoas não contam com nenhum auxílio do governo, seja das autoridades nacionais ou locais após um grande desastre – estava muito presente em Jérémie e Marfranc depois do furacão Matthew, afirmou Moliney.

Isso incluiu tanto a ajuda que os residentes se ofereceram mutuamente, quanto a ajuda humanitária estrangeira e doações recebidas de outros países. Moliney comparou isso com a experiência do céu no meio do inferno. “Foi exatamente isso”, disse. “Pessoas ajudando umas às outras.”

Isso foi crucial, afirmou, assim como a crença persistente e inabalável no amor de Deus pelo Haiti. “Nós sempre temos esperança”, disse Moliney. “Nós sempre acreditamos em Deus e sempre acreditamos que sairemos disso.”

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