Ações do papa em Milão confirmam que "bispo à la Francisco" não implica ruptura

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10 Julho 2017

Ao nomear o vigário-geral do cardeal Angelo Scola e segundo principal líder para ser o novo arcebispo de Milão na sexta-feira, o papa Francisco confirmou indiretamente que a "revolução" que ele está implementando na Igreja tem mais a ver com personalidade e estilo pastoral do que doutrina. O pastor de 65 anos Mario Enrico Delpini "conhece seu rebanho", mas não representa uma drástica ruptura teológica ou política em relação a Scola.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 07-07-2017. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Espiritualmente e teologicamente, todas as dioceses católicas do mundo devem ser iguais. Em influência, tamanho, recursos e história, no entanto, algumas são claramente mais iguais que outras.

A arquidiocese de Milão na Itália é certamente um importante item da lista dos "mais iguais". É uma das maiores do mundo, com mais de cinco milhões de fiéis, tem fartos recursos e a região vizinha da Lombardia originou sete papas, tendo uma tradição incomparável como referência e laboratório eclesiástico.

Além disso, o norte da Itália também era o lar do clã de Bergoglio antes de imigrar para a Argentina e, por isso, tem um profundo significado pessoal para o papa Francisco também.

Tudo isso ajuda a explicar que o anúncio de Francisco, na sexta-feira, de Mario Enrico Delpini, de 65 anos, para substituir o cardeal Angelo Scola, de 75 anos, como arcebispo de Milão, não foi uma escolha casual ou rotineira.

A principal conclusão que se pode tirar da atitude é a seguinte: a seleção ajuda a confirmar que a "revolução de Francisco" tem mais a ver com estilo e prática pastoral do que com doutrina, por ser claramente um movimento de "continuidade" em relação à ampla visão de Scola.

Scola tem sido uma figura imponente no catolicismo desde a época de São João Paulo II e várias vezes citado como candidato a papa. (Tanto que, quando subiu a fumaça branca em 2013, anunciando a eleição do novo papa, a conferência dos bispos italianos enviou por engano um e-mail felicitando Scola, antes de saber que o novo papa era o cardeal Jorge Mario Bergoglio da Argentina.)

Ex-reitor da Universidade Lateranense de Roma, Scola sai do movimento de Comunhão e Libertação na Itália, considerado bastante conservador. O escândalo original do Vatileaks incluía uma carta do líder do movimento para o Papa Bento XVI, em março de 2011, sugerindo que os dois arcebispos anteriores de Milão tinham promovido uma posição crítica em relação a alguns aspectos do ensino da Igreja e que Scola era o melhor candidato para assumir.

Scola respira o mesmo ar intelectual que Bento XVI, refletindo a escola teológica Communio, co-fundada pelo jovem Joseph Ratzinger no período seguinte ao Concílio Vaticano II (1962-65). Quando era um jovem teólogo, Scola publicou extensas entrevistas com Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar.

Se Francisco quisesse sinalizar uma nova direção intelectual e teológica para a Igreja, portanto, escolher alguém bem diferente de Scola em Milão teria sido uma ótima estratégia.

Em vez disso, Francisco optou por aproveitar o braço direito de Scola, já que Delpini atuou como Vigário Geral de Milão desde 2012. Ele também trabalhou com Scola na Conferência Episcopal da Lombardia e, em geral, é considerado um dos seus colaboradores e amigos mais próximos.

Além disso, embora Delpini não seja um produto da Comunhão e Libertação como Scola, ele está confortável com isso. Discretamente, Delpini participa de um projeto de caridade patrocinado pelo movimento no centro de Milão, e também tem boas relações com o padre Julián Carrón, o sucessor do padre Luigi Giussani na liderança do CL.

Se há um diferencial em Delpini, é no nível da personalidade, e não em convicções doutrinais ou políticas.

Por um lado, ele é um homem de profunda humildade. No anúncio de sua nomeação na Duomo em Milão na sexta-feira, sua primeira reação foi confessar sua inadequação para o cargo, solicitar a ajuda de todos e até pedindo desculpas por seu primeiro nome "banal", Mario.

Em segundo lugar, Delpini é um homem de diálogo, que prefere pontes a muros. A mensagem fundamental de suas breves observações na sexta-feira foi: "Nunca usemos as religiões como inimigos que se desafiam uns aos outros".

Em terceiro lugar, Delpini é um pastor que "conhece bem o seu rebanho", como diria o Papa Francisco. Ele conhece bem todos os sacerdotes da arquidiocese, já que foi durante anos reitor do seminário em Venegono e também costuma visitar as paróquias frequentemente. Poucos católicos em Milão nunca viram "Don Mario", como ele é conhecido, pelo menos uma ou duas vezes na sua paróquia, o que pode explicar os fortes aplausos em Duomo na sexta-feira quando Scola fez a transição oficial.

Em quarto lugar, Delpini, assim como Francisco, sempre enfatizou muito a importância dos pobres no planejamento pastoral e associou esforços da igreja em Milão para promover a convivência e o diálogo entre os diferentes grupos culturais e étnicos da cidade.

Por todas essas razões, Delpini ilustra dois pontos: um, ele é um "bispo muito Francisco". Dois, ser um "bispo à la Francisco" não significa necessariamente rejeitar o que o precedeu.

Quanto a Scola, ele anunciou que tem planos de se mudar para uma paróquia na pequena aldeia de Imberido, ao lado do Lago di Annone, um dos mais belos lagos da Lombardia. (Scola teria pedido a Francisco para acelerar a transição em Milão, permitindo que seu sucessor partisse para a ação abrindo o novo ano pastoral em setembro). Nas semanas seguintes, Scola disse que não terá nenhuma atividade pública e organizará suas ações.

Uma questão interessante acompanhando esse processo é se Delpini será cardeal nos próximos consistórios de Francisco. A última vez que um arcebispo de Milão não foi cardeal foi no século XIX, embora isso tivesse muito a ver com a política do Reino da Itália na época e o papel do imperador austríaco. Em geral, Milão é considerado o "chapéu vermelho" mais certeiro e previsível do mundo.

Francisco, no entanto, não age assim, mas em geral distinguiu firmemente o gabinete da pessoa. Se ele se contentar em deixar Delpini em Milão sem um chapéu vermelho, seria o último ponto de exclamação no "novo normal" da Igreja.

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