Os muros e a sacralização do mercado. Entrevista com Harvey Cox

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06 Dezembro 2016

Harvey Cox é um dos mais renomados teólogos do último século. O caderno La Lettura o encontrou na Fundação Bruno Kessler, de Trento, onde o professor emérito de Harvard apresenta o seu último livro sobre sacralização do mercado, The Market as God (Harvard University Press).

A reportagem é de Marco Ventura, publicada no caderno La Lettura, do jornal Corriere della Sera, 04-12-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Passaram-se 50 anos desde o texto que tornou Cox famoso, “A Cidade Secular”. Os “Anais de Estudos Religiosos” de 2017 da Fundação Kessler, recém-publicados online, divulgam, em tradução italiana, a introdução de Cox à edição do 50º aniversário de “A cidade secular”, com comentários de Paolo Costa, David Martin e Enzo Pace.

Eis a entrevista.

Comecemos pela Berlim do muro. Entre a multidão à qual John Kennedy se dirige no dia 26 de junho de 1963 também está o Harvey Cox de 34 anos de idade.

Eu me lembro bem daquele dia. Eu estava em Berlim desde o ano anterior por causa do Conselho Mundial de Igrejas. Eu morava no lado ocidental e ia pelo menos três vezes por semana para o lado oriental. Eu estudava na Faculdade de Teologia da Universidade Humboldt. Também estava em contato com a Gossner Mission, que na Berlim oriental geria uma escola noturna. É incrível, pensando bem: uma escola de teologia ética cristã em plena Alemanha comunista. Com o passaporte estadunidense, eu tinha o direito de atravessar o Checkpoint Charlie, contanto que eu voltasse no mesmo dia. Eu ia e voltava. Aprendi que nenhum muro é realmente impenetrável.

Isso também vale para os muros religiosos?

Definitivamente sim. Eu cresci em uma cidadezinha da Pensilvânia, a meio caminho entre a igreja católica e uma grande igreja batista. A nossa casa era a única entre as duas igrejas. Eu vivia em uma família batista, mas conhecia bem os católicos. Fiz amizade com o padre. Desde então, desde os anos 1930 e 1940, sempre me incomodou que existissem barreiras entre protestantes e católicos. O meu último livro é dedicado a Francisco. Um teólogo protestante que dedica o seu livro a um papa... Será a primeira vez na história, disse o meu editor. Como você vê, eu nunca deixei de lidar com aquele muro.

Mas não era o único muro religioso.

Claro que não. Na Universidade da Pensilvânia, eu me inscrevi no grupo que organizava competições entre estudantes para ver quem fazia o melhor discurso sobre temas da atualidade. Lá, eu conheci muitos judeus, a maioria estudava Direito. Também discutíamos sobre a divisão entre cristãos e judeus. Aquele era outro muro. Mais tarde, quando eu já estava no seminário, um seminário ecumênico protestante, eu descobri um texto que mudou a minha abordagem aos muros. É o segundo capítulo da Carta aos Efésios. Jesus é Aquele que derruba o “muro de separação”. Paulo se referia à separação entre judeus e gentios. Esse texto ficou entre os meus favoritos. Derrubar o muro.

Depois, você se tornou pastor. Um pastor contra os muros?

Eu me tornei capelão universitário no Oberlin College, em Ohio. Quando Martin Luther King o visitou, eu fui encarregado de acompanhá-lo. Pude conhecê-lo bem. A sua mensagem me conquistou. O muro racial se tornou o principal muro da minha vida. Eu decidi trabalhar com ele. Íamos para o Sul, para apoiar os manifestantes. Havia outros pastores brancos como eu. O Dr. King pensava que, se houvessem brancos, a polícia seria menos dura. Nem sempre funcionou, mas às vezes sim.

E os muros de hoje?

Eu penso no muro que deveria proteger os israelenses em Jerusalém. Eu não sei com quanta eficácia. E penso na desesperada fantasia de Trump, um muro que nos divida do México.

Você falou de grandes muros da história, de muros visíveis. E os muros escondidos, sutis? Os muros do pensamento teológico?

Eu fui estudante de Paul Tillich em Harvard. Ele tinha se tornado teólogo a partir da filosofia, e isso o tornava suspeito do muro entre filosofia e teologia.

Mas não há tanta filosofia no trabalho de Harvey Cox.

Na minha experiência, a filosofia teve pouca importância. A filosofia estadunidense vinha se desenvolvendo como filosofia da linguagem, filosofia analítica. Eu me interessava mais pela sociedade. Quando comecei o meu doutorado em Harvard, no fim dos anos 1950, conheci Robert Bellah.

Robert Bellah, o sociólogo que descreveu a religião civil estadunidense?

Na época, ele era um jovem colaborador de Talcott Parsons. O seu estudo em grande escala da sociedade e das instituições me fascinou. Fui ao encontro do meu diretor de pesquisa e lhe disse que queria trabalhar sobre a relação entre teologia e estudos histórico-sociais. O professor não gostou nada disso. Ele me decepcionou, assim como me decepcionaram todos os teólogos, insensíveis à minha exigência. Talvez não era exatamente um muro, mas havia uma grande distância entre as ciências sociais e a teologia. Eu fiquei firme. Convenci-o. Comecei a trabalhar sobre o contexto histórico-social. Uma escolha decisiva. Desde então, na minha trajetória intelectual, teologia e realidade social estiveram juntas. Hoje, não posso pensar em uma sem a outra. Estou feliz por ter derrubado aquele muro. Ele era realmente inútil.

Foi esse o segredo do grande sucesso do seu “A cidade secular”, publicado em 1965?

Ah, sim. No livro, eu tentei falar tanto à pesquisa social quanto à teologia. Bellah me incentivou muito. Uma das coisas que mais me deram prazer foram os seus cumprimentos. Todos queremos ser reconhecidos. Depois, é claro, milhões de pessoas leram o livro. E isso também me deu muito prazer.

Em “A cidade secular”, você lia a secularização como uma oportunidade para os cristãos. A polêmica de hoje contra aqueles que, nos anos 1960, compreenderam mal a secularização parece poupá-lo.

Quando eu escrevi o livro, eu fiquei muito atento para distinguir entre secularização e secularismo. A secularização é um processo histórico, que pode ter aspectos positivos. O secularismo é uma ideologia: como tal, é sempre perigoso.

Contando a sua história, você falou de cristãos, igrejas e judeus. Agora, porém, o Ocidente é multirreligioso.

Foi uma transição difícil para mim. Quando eu comecei a lecionar, eu abordava apenas o cristianismo. Depois, descobrimos que, além das igrejas e das sinagogas, havia mesquitas e templos. Em “Turning East” de 1977, eu falei sobre o crescente interesse dos jovens estadunidenses pelas religiões vindas do Oriente.

Aos pentecostais, você dedicou o seu “Fire from Heaven”, de 1995.

Observando a vida urbana nos Estados Unidos, eu entendi a explosão do pentecostalismo. É uma religião mundial: da América Latina à África e à Ásia, pense na China e na Coreia. Trata-se de um cristianismo diferente do dos protestantes, católicos e ortodoxos, uma quarta variedade que atrai centenas de milhões de pessoas.

O cristianismo mudou muito desde os tempos de “A cidade secular”. Os papas também mudaram. Você se encontrou com Paulo VI.

Era 1967 ou 1968, não me lembro exatamente. Foi criado um secretariado vaticano para o diálogo com os não crentes. […] Éramos cerca de 20 especialistas convidados a Roma para um congresso. Um dia, nos avisaram: amanhã o papa irá recebê-los. Na audiência, Paulo VI me disse: “Ah, Harvey Cox! Nem sempre concordamos com o senhor, mas o lemos com grande interesse”.

Assim traduziu o intérprete?

Não, não, Paulo VI falou comigo em inglês.

O Papa Bergoglio também lhe falou em inglês, no seu recente encontro?

Não, em espanhol. Eu aprendi no México. Acredito que isso o agradou. Ele me transmitiu uma sensação de ebulição, de gaudium.

Você levou a Francisco o seu livro sobre a religião do mercado, dedicado a ele.

Há muito dele na minha análise da sacralização do mercado.

De Paulo VI a Francisco. O que mudou?

Os não crentes não são mais um grande problema. A questão hoje é o amálgama de crença e não crença. A minha tese é de que o sagrado não desapareceu, mas migrou para outras áreas da vida. O espetáculo, o esporte e, sobretudo, a economia.

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