''Martini, um homem livre e criativo''. Entrevista com Adolfo Nicolás

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11 Setembro 2012

Em Milão, para o funeral do cardeal Carlo Maria Martini, no dia 3 de setembro, o superior geral dos jesuítas, padre Adolfo Nicolás SJ, encontrou-se com a redação da revista Popoli, compartilhando suas próprias recordações pessoais do jesuíta que foi arcebispo de Milão e algumas reflexões sobre o que o padre Martini representou para os jesuítas e a Igreja de hoje. Antecipamos uma parte da entrevista, que será publicada na íntegra no número impresso de outubro da revista dos jesuítas italianos, Popoli.

A reportagem é do sítio da revista Popoli, 06-09-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O que o cardeal Martini nos deixa com o seu ensinamento?


O cardeal era um homem que teve uma grande influência, não só na Igreja, mas também na Companhia de Jesus. Como se sabe, nós, jesuítas, não ficamos muito contentes quando um de nós se torna bispo. A ideia de Santo Inácio era de que pudéssemos servir melhor a Igreja sem assumir cargos, para ficarmos mais livres para trabalhar. O caso de Martini é um daqueles em que, a longo prazo, vemos que a sua nomeação a arcebispo prestou um serviço à Igreja muito importante, um serviço de abertura, de diálogo, com uma pastoral muito espiritual e profunda, mas, ao ao mesmo tempo, muito próxima das pessoas. É por isso que, por exemplo, muitos jovens iam à catedral para rezar quando ele organizava encontros de lectio divina.

Ele também foi um homem muito criativo, que pôs à disposição toda a sua preparação, a sua espiritualidade e o seu conhecimento da Bíblia ao serviço do povo de Deus. A fonte da sua criatividade vem do fato de que ele era um muito realmente atento aos problemas dos outros, livre das preocupações por si mesmo. Recentemente, li uma biografia de Steve Jobs. Ele defendia que o seu ponto de partida sempre era se ocupar das demandas dos clientes, mais do que as dos produtores: estes últimos colocam questões técnicas (quais materiais usar, como montar uma máquina etc.). Para ele, ao invés, eram importantes as questões dos clientes, as perguntas dos usuários: como se usa um instrumento? Como se ouve? Com quem quero me conectar? Essas são as questões que importam.

Em certo sentido, para Martini também era assim: certamente ele estava atento, como representante da Igreja, à sua tradição e, justamente por causa disso, ele também se perguntava: "Do que as pessoas precisam? O que é necessário hoje? Como podemos falar aos jovens, aos não crentes, aos agnósticos, aos ateus? Quais são os seus problemas?". Ele pretendia partir daí. Isso o tornou tão criativo e aberto.

Quais perguntas ele fez e com qual linguagem?

O padre Martini foi, para muitos jesuítas, um modelo pelo modo com o qual ele sabia se fazer interrogações, não se limitando àquelas que permitem uma resposta fácil. Ele sabia fazer as perguntas importantes, que nunca têm respostas definitivas, porque se referem ao mistério de Deus – o mistério dos mistérios –, ao mistério da pessoa humana, ao mistério da história. Questões que permanecem abertas.

Acredito que foi o cardeal Ratzinger, em um livro de muitos anos atrás sobre a fé, que escreveu que todas as afirmações teológicas têm um valor que apenas se aproxima da verdade, porque buscam responder a grandes perguntas que não têm uma definição última. Como se pode definir Deus? E a pessoa humana? A pessoa, ao contrário, é livre, tem coração, sentimentos, liberdade. Permanece aberta. As questões que têm a ver com as pessoas e especialmente com os grupos humanos continuam sujeitas à liberdade, à pesquisa, à abertura. O padre Martini era consciente disso, e isso o tornava uma pessoa nunca satisfeita com as respostas limitadas.

Como apresentar isso de uma maneira orgânica dentro da Igreja, depois, é um problema diferente, de comunicação. Sempre tem alguém que tenta atacar uma expressão inexata ou que não compartilha. Até mesmo Marshall McLuhan, o grande especialista em comunicação, dizia com certa ironia: "Às vezes, citam as minhas frases para usá-las contra mim, mas as pessoas têm que entender que eu nem sempre estou de acordo comigo mesmo". Isso significa que as coisas mudam, há nuances, aspectos que mudam. E, naturalmente, as pessoas também.

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