Será que os muçulmanos e cristãos da Nigéria deixarão o Boko Haram definir a sua agenda?

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01 Setembro 2015

Seria compreensível se os quase 1 mil cristãos nigerianos que hoje vivem num acampamento para pessoas deslocadas internamente chamado New Kuchingoro – localizado próximo da capital nacional Abuja – não estivessem nutrindo bons sentimentos para com os muçulmanos neste momento. Afinal de contas, eles são cristãos que foram expulsos de suas casas pelo grupo terrorista islâmico Boko Haram. Estas pessoas perderam suas fazendas onde, certa vez, trabalhavam para ter levar vida confortável, plantando soja, e que agora veem seus bairros arrasados.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 29-08-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Aqui, praticamente todo mundo já teve parentes mortos – às vezes por decapitação ou queimado vivo, e muitas vezes enquanto se estavam reunidos na igreja. Agora, estas pessoas enfrentam terríveis condições de vida no acampamento, onde pelo menos oito pessoas morreram desde que aí chegaram, um ano e meio atrás.

Não há trabalho, e pouco a fazer senão refletir sobre sua própria agonia.

No entanto, no acampamento tem também um pequeno grupo de 31 muçulmanos que foram aceitos e acolhidos pelos 923 cristãos. Eles jogam cartas juntos, eles compartilham comida, ajudam a cuidar dos filhos uns dos outros e se reúnem para assistir jogos de futebol em uma pequena TV comunitária.

“Somos amigos”, disse Philemon Emmanuel, líder e porta-voz informal do acampamento.

Quando pergunto a Emmanuel como evita o sentimento raiva, ele dá uma explicação simples:
“Se esses muçulmanos fugiram, quer dizer que não eram os bandidos. O fato de eles estarem aqui significa que são vítimas também”.

A comunhão do sofrimento no acampamento Novo Kuchingoro ilustra um dos aspectos menos apreciados da história do Boko Haram: que a ascensão do grupo não apenas separou alguns cristãos e muçulmanos; ela também os uniu de maneiras surpreendentes e imprevisíveis.

No nível local, este acampamento captura, talvez, a questão não resolvida mais importante levantada pelo Boko Haram, grupo responsável por 17 mil mortes desde 2009. A questão é: Será que a maioria dos cristãos e muçulmanos aqui irá superar as diferenças, dando ao mundo um exemplo precioso de uma sociedade que se recusa a entrar no jogo dos terroristas? Ou será que eles se afastarão ainda mais e acabarão simplesmente esperando que o próximo ciclo de violência venha a se irromper?

Honestamente, depois de passar a última semana na Nigéria, a sensação é que tudo pode acontecer.

Na quarta-feira à noite fui convidado a dar uma palestra sobre a perseguição aos cristãos no Centro Cristão Nacional de Abuja, catedral ecumênica neogótica construída pelo ex-presidente Olusegun Obasanjo, cristão, para rivalizar com a Mesquita Nacional da cidade.

Hoje, a catedral e a mesquita dominam a paisagem de Abuja, formando um símbolo de que os muçulmanos e cristãos estão vivendo juntos neste país.

O Cardeal John Onaiyekan, de Abuja, era o coordenador da noite de debates. Ele convidou vários amigos muçulmanos, pois não queria que o evento se transformasse em uma ocasião para criticar o Islã.

Um desses muçulmanos se levantou para me lembrar que havíamos nos conhecido oito anos atrás, quando estive em Abuja e visitei a mesquita. Ele disse que queria elogiar a minha afirmação de que os seguidores racionais de todas as religiões – aqueles que rejeitam a violência e acolhem abraçar o diálogo – têm mais em comum uns com os outros do que com os extremistas de suas próprias denominações.

Esta fala parecia ser um bom augúrio, mas em seguida ele acrescentou: a visita que eu fiz à mesquita em 2007 desencadeou, ao que parece, uma polêmica depois que saí. O meu amigo disse que foi questionado por colegas muçulmanos por ter trazido um “infiel” à mesquita.

“Desculpe-me por ter sido o infiel que o colocou em apuros”, respondi, tirando risos da multidão.
Esta mesma justaposição de esperança e de precaução pode ser encontrado em todo o país.

Aqui, encontramos histórias de muçulmanos unindo-se para defender comunidades cristãs aos domingos em localidades com a presença do Boko Haram, e cristãos devolvendo o favor protegendo as mesquitas às sextas-feiras. Podemos encontrar muçulmanos que dizem estar tão horrorizados com o que o Boko Haram tem feito que acabaram se esforçando ainda mais em fortalecer os laços fraternais com os cristãos.

No entanto, existem exemplos tristes: é o caso de Musa Audu Badung, nigeriano evangélico que mora no estado de Plateau, ao norte do país. Badung disse que seu pai se converteu do islamismo ao cristianismo em 1973 e que cresceu ouvindo “coisas terríveis” sobre o Islã.

Em grande parte por causa de sua experiência, as suas atitudes ficaram mais rígidas: ele viu os cadáveres de 60 cristãos em uma vila próxima serem queimados até a morte dentro da igreja que frequentavam.

“Para mim, o cristianismo é uma religião”, diz ele sem rodeios, “mas o Islã é uma seita”.

A questão de se os cristãos e muçulmanos conseguem, ou não, viver em boa companhia aqui é mais do que um simples interesse local. A Nigéria é o maior país do mundo em que as populações aproximadamente iguais destas duas religiões vivem lado a lado; nas palavras do Imã Sani Isah, de Kaduna: “A Nigéria é a Arábia Saudita e o Vaticano em um só lugar”.

Inevitavelmente, portanto, o que acontece na Nigéria terá repercussões em todo o mundo.

Os nigerianos comuns, sejam eles cristãos ou muçulmanos, podem não ter condições de controlar o Boko Haram, embora a maioria aplaudiu animada quando o novo governo nacional, sob a liderança do presidente Muhammadu Buhari – muçulmano com uma reputação de seriedade religiosa –, prometeu dissipar o grupo num prazo de três meses.

O que é possível de ser controlado, no entanto, é se o Boko Haram irá, ou não, definir a forma como os nigerianos vão se relacionar entre si. Grande parte disso depende apenas deles e do que decidirem por si.

* * *

Cobertura nigeriana

A minha colega Inés San Martín e eu passamos a última semana escrevendo direto da Nigéria, focando-nos principalmente no grupo Boko Haram, mas também em outros assuntos de interesse católico. Aqui está um apanhado destas reportagens:

• Nigeria is a laboratory for testing solutions to religious persecution
http://www.cruxnow.com/faith/2015/08/23/nigeria-is-a-laboratory-for-testing-solutions-to-religious-persecution/

• In Africa’s superpower, this Catholic bishop is a ‘rabble rouser for peace’
http://www.cruxnow.com/church/2015/08/24/in-africas-superpower-this-catholic-bishop-is-a-rabble-rouser-for-peace/

• In Nigeria, Boko Haram is an equal-opportunity terrorist group
http://www.cruxnow.com/faith/2015/08/25/in-nigeria-boko-haram-is-an-equal-opportunity-terrorist-group/

• Key African prelate vows ‘no shaking’ in stand against homosexuality
http://www.cruxnow.com/church/2015/08/26/key-african-prelate-vows-no-shaking-in-stand-against-homosexuality/

• Christians in Nigeria debate taking up arms against Boko Haram
http://www.cruxnow.com/faith/2015/08/26/christians-in-nigeria-debate-taking-up-arms-against-boko-haram/

• On Chibok anniversary, Christians are caught between hope and experience
http://www.cruxnow.com/life/2015/08/27/on-chibok-anniversary-christians-are-caught-between-hope-and-experience/

• For Boko Haram victims, persecution is a never-ending story
http://www.cruxnow.com/faith/2015/08/28/for-boko-haram-victims-persecution-is-a-never-ending-story/

• Catholic bishops lead Nigeria’s anti-corruption charge
http://www.cruxnow.com/life/2015/08/28/catholic-bishops-lead-nigerias-anti-corruption-charge/

• Nigeria showcases the promise — and the peril — of Muslim/Christian friendship
http://www.cruxnow.com/faith/2015/08/29/nigeria-showcases-the-promise-and-the-peril-of-muslimchristian-friendship/

* * *

Dois memoriais contam a história de incontáveis tragédias individuais na Nigéria

São tantos os cristãos que morreram na Nigéria em meio à carnificina desencadeada pelo Boko Haram – de acordo com a Portas Abertas, observatório protestante, houve 2.484 mortes só em 2014 – que pode ser difícil lembrar que cada uma destas mortes é um drama em si mesmo.

Todavia, dois exemplos humildes, tirados de diferentes partes do país, servem para ilustrá-las.

Acerca de uma hora da capital nigeriana, Abuja, encontra-se a Igreja Católica de Santa Teresa, onde um carro-bomba do Boko Haram explodiu no dia de Natal em 2011, matando 46, incluindo 26 membros da comunidade paroquial.

Hoje, dentro do complexo da igreja, há um humilde memorial para as vítimas do atentado na forma de uma lápide central, num lugar onde 16 delas estão enterradas. Talvez o mais evocativo de todos seja o nome de uma criança de sete meses de idade que estava entre os mortos: Chiemerie Nwachukwu.

Ao lado das sepulturas estão os restos enferrujados de dois carros que ficaram danificados quando a bomba explodiu.

Na sexta-feira, participamos de uma missa que ocorre todos os meses na comunidade de Santa Teresa em homenagem às vítimas. A celebração foi conduzida pelo Pe. Raphael Imelo.

“A perseguição aos cristãos é uma história antiga, motivo pelo qual a Igreja acredita que o sangue dos mártires é a semente da fé”, disse Imelo ao pequeno grupo, composto em sua maioria de pessoas feridas na explosão e de parentes dos que morreram.

“Oramos por outros cristãos que estão sofrendo o que nós sofremos aqui”, continuou. “Oramos para que o espírito de Deus venha sobre as autoridades do mundo, especialmente as autoridades das superpotências, e os faça proteger a liberdade religiosa”.

Após a missa, o grupo fez uma procissão do lado de fora do memorial para um breve momento de reverência. Imelo pediu a um homem e a uma mulher que conduzissem a oração. O homem se referiu diretamente aos militantes do Boko Haram que estão realizando os ataques.

“Por todos os que odeiam os cristãos, Senhor, vem em nosso socorro”, disse ele, “pois este problema é grande demais para nós sozinhos”.

Enquanto falava, Ejimbe Beneath, jovem mulher que sofreu uma lesão grave na perna como consequência do bombardeio e que permanece sem tratamento ainda hoje, chorava em silêncio.

Após as orações, o grupo começou a arrancar ervas daninhas do túmulo enquanto Imelo explicava que a paróquia está tentando arrecadar dinheiro para garantir que os filhos das vítimas tenham condições de frequentar a escola católica local.

Em Jos, cidade localizada no centro-norte da Nigéria, encontra-se a paróquia católica de São Finbar, chamado assim em homenagem a um eremita irlandês do século VI. Esta paróquia serve para lembrar, entre outras coisas, que foram missionários irlandeses que construíram grande parte da Igreja nigeriana.

No dia 11 de março de 2012 o Boko Haram detonou um carro-bomba na Igreja de São Finbar logo após o começo da missa de domingo. Na ocasião, morreram 14 pessoas.

O número de mortos teria sido muito pior, de acordo com o Pe. Peter Umoren. Isso só não ocorreu porque grupo jovens que prestavam segurança se recusou a deixar o carro entrar no local. Dessa forma, ele explodiu do lado de fora.

Hoje, um memorial de pedra marca o local onde a bomba explodiu. Ele possui uma pequena placa, feita de metal tão barato que já começa a dobrar. Nesta placa estão listados os nomes das vítimas. O mais angustiante de tudo: posto acima do memorial está a estrutura contorcida do carro que transportava a bomba.

Padre Peter Umoren, da comunidade de São Finbar, aponta para a placa de metal onde estão inscritos os nomes das vítimas do atentado realizado pelo Boko Haram. Os restos do carro que transportava a bomba estão também expostos no memorial.

Numa entrevista ao Crux, em 25 de agosto deste ano, Umoren disse que o ataque não teve o efeito desejado de aterrorizar o seu rebanho.

“No começo, os fiéis ficaram arrasados, especialmente os que perderam familiares”, disse ele. Hoje, no entanto, “a igreja está mais forte”.

“A fé destas pessoas está mais profunda, as missas ficam cheias”, informou. “O nosso povo está mais comprometido do que antes. Vejo isso no número de pessoas que vem se confessar e comungar…”.

“Estas pessoas não vão se intimidar”, disse Umoren, “quando se trata de sua fé”.

Nenhum dos memoriais (o de Santa Teresa e o de São Finbar) são o tipo de homenagem grandiosa para as vítimas de uma tragédia como se poderia esperar em nossos países ricos ocidentais. Condizente com um lugar em que 76% da população vive em situação de pobreza, são construções humildes e em pequena escala, que já mostram sinais de desgaste.

Esta simplicidade toda, no entanto, ajuda a contar histórias. Ela lembra os fiéis cujas vidas foram negligenciadas, e cujas mortes não atiçou sentimentos de indignação na comunidade internacional.

Joseph Stalin teria dito certa vez que uma única morte é uma tragédia, enquanto que um milhão é uma estatística. Os memoriais nas comunidades de Santa Teresa e São Finbar mostram o contrário: que, por debaixo de todas as estatísticas sobre a perseguição aos cristãos, jazem incontáveis tragédias individuais.

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