Albert Schweitzer, um dos precursores do trabalho humanitario

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15 Agosto 2015

"Olivier Monod, engenheiro aeronáutico, de 85 anos, seu primo de segundo grau, é um leitor inflexível do 'Le Monde'. Ao primeiro anglicismo ele ataca o teclado e nos envia e-mails tão radicais (sobre a situação) quanto engraçados", escreve Francis Marmande, jornalista, em artigo publicado no jornal Le Monde e reproduzido pelo portal Uol, 11-08-2015. 

Eis o artigo.

Nascido em Kayserberg no dia 14 de janeiro de 1875, o doutor Albert Schweitzer morreu em 4 de setembro de 1965, em um vilarejo do Gabão cujo nome ele tornou conhecido, Lambaréné. Em 1875, Kayserberg (Alsácia-Lorena) se encontrava sob domínio do Império alemão. Entre 1920 e 1965, Albert Schweitzer foi cidadão francês, e sua língua materna era o alsaciano da Alta Alsácia.

Como ele nasceu raquítico, sua família se mudou a conselho de médicos de Kayserberg para Gunsbach, onde o ar era puro. O pai era pastor luterano e professor. Albert, conhecido como "Berri", tocava o órgão do templo desde os 9 anos de idade. Dotado de uma dupla formação em alemão e em francês, ele fez estudos de teologia e de filosofia em Estrasburgo, Berlim e Paris, onde praticou o órgão com o professor Charles-Marie Widor, professor de Dupré, Honneger, Milhaud e Varèse.

Em 1896, Albert Schweitzer decidiu se dedicar àquilo que pode ser considerado como uma pré-história das ONGs e do trabalho humanitário. Pastor luterano na igreja de São Nicolau em Estrasburgo, de onde foi organista titular, ele celebrou (sobriamente) o casamento de Theodor Heuss, em 1908, que viria a se tornar o primeiro presidente da República Federal Alemã. A tese de teologia de Albert Schweitzer sobre a Santa Ceia (1901) era bem engraçada, mas isso é outra história. Um de seus primos indiretos afirmava, de forma ainda mais implacável uma vez que a frase pode ser lida literalmente e em todos os sentidos: "A vida seria suportável sem os prazeres". Infelizmente...

Em 1904, depois de ler um artigo no "Le Journal de la Société des Missions Évangéliques de Paris", Schweitzer começou a estudar medicina tropical e foi para Lambaréné. Ele financiou sua fundação (onde cuidavam de pacientes de lepra) através de séries de recitais, e voltava regularmente para a comuna de L'Hôpital (Moselle), onde estava seu amigo Jean-Paul Meyer. Ali ele tocava seu órgão preferido. Preso em 1917, como prisioneiro civil, Albert Schweitzer obteve a nacionalidade francesa na Alsácia, que voltou a ser francesa em 1918. Ele foi o autor de uma monografia respeitada quando lida, e vilipendiada quando "não lida pessoalmente", sobre Johann Sebastian Bach. Seu tratado de filosofia, "Kulturphilosophie", merece ser relido.

Médico, teólogo protestante, filósofo, melômano, excelente organista, Albert Schweitzer recebeu o prêmio Goethe em 1928, foi nomeado grande oficial da Legião de Honra em 1950, foi membro da Academia Francesa de Ciências Morais e Políticas, recebeu o Prêmio Nobel da Paz em 1952, foi condecorado com a Ordem do Mérito pela rainha Elizabeth 2ª da Bélgica em 1955. Tudo isso por ter fundado o Village Lumière, leprosário em Lambaréné (situado então na África equatorial francesa), onde ele se instalou com sua esposa Hélène (com quem teve sua filha Rhéna), e transformou uma clínica básica em um hospital. Levado por seus pensamentos orientais, não-violentos e animalistas, ele criou também um refúgio para animais ao lado do Village Lumière.

Gilbert Cesbron (autor da peça "É meia-noite, Dr. Schweitzer") popularizou sua ação. André Haguet a adaptou para as telas, com Pierre Fresnay o interpretando. Ganhou uma popularidade tão sincera quanto ingênua e controversa, não somente pelas mãos de Noël Arnaud e Boris Vian como, evidentemente, por Bassek Ba Kobhio, cineasta franco-camaronês, que dirigiu "Le Grand Blanc de Lambaréné" (1995).

Olivier Monod, engenheiro aeronáutico, de 85 anos, seu primo de segundo grau, é um leitor inflexível do "Le Monde". Ao primeiro anglicismo ele ataca o teclado e nos envia e-mails tão radicais (sobre a situação) quanto engraçados, mas em geral se revela precioso em uma suposta modéstia protestante: "Só tenho um vago conhecimento de Albert Schweitzer. Algumas imagens de visitas a Versalhes, na casa dos meus pais, antes da guerra. Uma presa de elefante. E alguns relatos de mamãe, que tinha muita afeição por 'Berri': ele tinha quase 20 anos a mais que ela – e ela o considerava como um irmão mais velho."

E continua, em seu estilo inimitável: "É verdade que, assim como todo mundo, ouvi falar em Lambaréné e das controvérsias suscitadas por seu 'apostolado', uma vez que há quem o considere um messias, outros como um alemão colonialista". O avô de Albert, Philippe Schweitzer, era professor em Pfaffenhoffen (Baixo Reno): "Ele pediu demissão pois a comuna não lhe pagava o suficiente, teve uma mercearia e por fim foi prefeito de sua comuna. Seu filho mais velho, Auguste, é meu avô; e Charles, professor de alemão, era avô de Sartre, que escreveu algumas bobagens a respeito de nossos ancestrais comuns em 'As Palavras'."

O feiticeiro de Lambaréné

O terceiro irmão, Louis (pastor, é claro), era pai de Albert Schweitzer. O quarto, Paul, se casou com Emma Munch, irmã do regente da orquestra. Um dos descendentes dessa surpreendente tribo é o empresário Louis Schweitzer. Olivir Monod conclui: "É claro, li sua obra sobre Bach. Tenho gravações de algumas de suas interpretações em órgão. Agora estou escutando sua tocata BWV 565 que todos conhecem, e não posso dizer que ela me arrebata, pois falta ali uma alegria que outros organistas sabem colocar. (...) Mas diferentes interpretações convêm a meus humores do momento..."

Na rádio France Musique há especialistas em órgão que têm Albert Schweitzer em alta estima. Por outro lado, sua vocação pós-colonialista seria mais para desencadear polêmicas. Em 1959, Noël Arnaud escreveu o prefácio, com um retrato incendiário do feiticeiro de Lambaréné, para "Les Cantilènes en gelée", de Boris Vian, que costumava ser tão próximo de Sartre. Vian não o poupa: "Toque o órgão com os pés/Estude Bach se quiser, mas saiba que há cem anos/Em todos os sentidos/Seja meia-noite ou meio-dia/Você me irrita, doutor Schweitzer/Era importante dizê-lo..." Para contribuir com a nuance, Siné teria de ter ilustrado a obra.

Teria alguém notado que, entre um retrato vitriólico do abade Pierre e uma dissecção impiedosa do turismo exótico que estava nascendo ("Bichon chez le Nègres"), Roland Barthes, satírico até o fim, não dedicou nenhuma de suas Mitologias (de 1957) a Albert Schweitzer? Vian era tão próximo de Sartre... Barthes, tendo recebido a cultura protestante de sua mãe, filha do explorador Louis-Gustave Binger, no dia 2 de setembro de 1978 ele já havia respondido à revista "Réforme", salvando o "Grande Doutor Branco" de Lambaréné que tocava órgão à meia-noite: "Eu mantenho com o protestantismo uma relação sentimental..."

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