O Brasil numa sala da USP

Mais Lidos

  • “Meu pai espiritual, Santo Agostinho": o Papa Leão XIV, um ano depois. Artigo de Carlos Eduardo Sell

    LER MAIS
  • A mineração de terras raras tem o potencial de ampliar a perda da cobertura vegetal nas áreas mineradas, além de aumentar a poluição por metais tóxicos e elementos químicos radioativos que são encontrados associados às terras raras, afirma o pesquisador da UFRGS

    Exploração de terras raras no RS: projeto põe recursos naturais em risco e viabiliza catástrofes. Entrevista especial com Joel Henrique Ellwanger

    LER MAIS
  • EUA e Irã: perto de um acordo? O que se sabe sobre as negociações nos bastidores para pôr fim à guerra?

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Março 2015

"Eu não quero saber (o que é ser preto na periferia). Eu quero é ter aula de microeconomia"; "Papai trabalhou muito para pagar o meu colégio"; "É só estudar e entrar na universidade." São frases de um branco que ingressou na universidade pública graças a uma boa formação em escolas particulares e que desmerece as cotas", escreve Luiz Fernando Vianna, jornalista, em comentário publicado no jornal Folha de S. Paulo, 23-03-2015.

Eis o texto.

Quem digitar no YouTube "intolerância do movimento negro" encontrará um vídeo revelador do Brasil de hoje e indicativo do país do futuro.

Foi compartilhado por um "Canal da Direita", que busca denunciar o suposto autoritarismo de um grupo de estudantes negros. Eles interrompem uma aula de economia na USP para debater cotas raciais.

O grupo perde o controle. Manda alguém calar a boca, grita, acaba fazendo o jogo dos que, por serem donos da situação desde que o Brasil é Brasil, dão-se ao luxo de participar desses confrontos com voz baixa e toques de cinismo.

Não há, da parte dos estudantes brancos, nenhuma frase explicitamente racista. São falas de quem não quer que certas coisas se movam ""embora o vídeo seja a prova de que já se moveram"" e que veem a universidade como parte do caminho rumo ao mercado de trabalho, não lugar de politização. Para eles, 1968 é um ano que já terminou, se é que existiu.

"Eu não quero saber (o que é ser preto na periferia). Eu quero é ter aula de microeconomia"; "Papai trabalhou muito para pagar o meu colégio"; "É só estudar e entrar na universidade."

São frases de um branco que ingressou na universidade pública graças a uma boa formação em escolas particulares e que desmerece as cotas.

E vem o momento samaritano: "Você é igual a mim. Não fico me diferenciando de você". Resposta errada. Nunca foram iguais.

O que está em curso, graças às cotas e ao Prouni, é um choque por muito tempo represado. Dos conflitos, como o do vídeo, poderá sair um país melhor, no qual agressões e cinismos sejam trocados por vozes falando em pé de igualdade.

A tradição brasileira dos falsos consensos vem sendo corroída dia após dia, sobretudo pela juventude. É daí que surgirá o futuro, não dos que clamam pela volta ao passado.