"O monge pode entender os ateus mais do que outros, a partir de uma forma de solidariedade profunda com o nada". Entrevista com Enzo Bianchi, prior do mosteiro de Bose

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20 Janeiro 2007

Monge, sem batina, fundou em 1965 a comunidade ecumênica de Bose, no Piemonte, Itália, que hoje conta com setenta religiosos, homens e mulheres. Sua voz está entre as mais ouvidas da espiritualidade cristã, entre as mais severas e, ao mesmo tempo, mais abertas. “Não me parece que esta seja uma hora rica de profecia na Igreja e nas Igrejas”, diz. E convida todos, crentes e não crentes, ao silêncio, “o lugar onde nasce a verdadeira palavra”. A reportagem e a entrevista foi publicada pelo jornal italiano La Repubblica, 14-1-2007.

Somente o amor é digno de combater a morte. Enquanto vivermos, o que conta é amar os outros, aceitar ser amados e renovar o nosso amor.

Aqui em Bose, em 1965, só havia cabanas abandonadas e apenas dois habitantes: um homem com sua mãe anciã. Um vale entre as colinas da Serra de Ivrea, um Piemonte mórbido, mas também áspero, lugar remoto e adaptado à contemplação, àquele tipo de solidão que não é vazio, mas viagem. Hoje, Bose é uma comunidade monástica ecumênica formada por casinhas cor pastel e por setenta religiosos, homens e mulheres. Fundou-a Enzo Bianchi, o prior, um monge sem sotaina, mas com uma longa barba branca e dois olhos celestes e agudos. Sua voz está entre as mais escutadas da espiritualidade cristã e certamente entre as mais severas e ao mesmo tempo mais abertas. Seu último livro, ‘Era estrangeiro e me hospedastes’ (Rizzoli) fala de diversidades e acolhidas. E procura, na antiga austeridade da Bíblia, perguntas e respostas atualíssimas.

Para conhecer mais o mosteiro de Bose clique aqui.

Era estrangeiro e me hospedastes. Por que hoje esta porta está fechada?

“Há cerca de vinte e cinco anos, a nível mundial existe um retorno muito forte às identidades, identidades étnicas, confessionais, religiosas, locais. É uma tendência presente em todas as religiões e contradiz a mundialização galopante. No ecumenismo ainda existe um sopro irreversível, mas existe também quem no interior das Igrejas trabalha contra a unidade. Além disso, exasperaram-se as identidades locais, com uma ideologia de clã talvez de tipo tribal. A necessidade das raízes torna-se necessidade das raízes bárbaras. São todas identidades construídas sem os outros e contra os outros. Isto torna mais conflitiva a sociedade, e também as comunidades religiosas se tornam mais fragmentadas”.

Para procurar a unidade, há quem pense num novo Concílio. Não assim Enzo Bianchi. “Não o desejarei nesse momento. Primeiro deve ser levado a cumprimento o Vaticano II: muitas coisas estão ainda por realizar, porque a recepção de um concílio é sempre lenta e às vezes contradita. E depois, não me parece que esta seja uma hora rica de profecia na Igreja e nas Igrejas. O sentimento de hostilidade para com o estrangeiro parece mais intenso, mais maldoso”.

Mas, quem é hoje o estrangeiro?

“Há um tempo era aquele que vinha de longe e não falava a nossa língua. Hoje, o “estrangeirismo” se deslocou para o plano da diversidade. É estrangeiro quem é diferente de nós por religião, por ética, sobretudo eu temo por ética, por hábitos e costumes. Isto nos espanta: o estrangeiro se torna inimigo antes que entre em diálogo conosco, antes de ser conhecido. Em seu aparecimento no horizonte é realmente o ‘hostis’ latino, o inimigo, enquanto deveremos torná-lo ‘hospes’, hóspede. Não acolher a diversidade é um dos grandes males do nosso tempo”.

Acolher é um infinito empenhativo.

“Também em âmbito católico há posicionamentos a favor de um acolhimento de todos, que certamente não pode ser suportado pela nossa sociedade. A caridade deve ser sempre inteligente. Sabemos que os pobres vão para onde há pão, e não é o pão que vai para onde estão os pobres. Porém, acolher cada um e sempre, sem interrogar-nos antes sobre nossa real capacidade, é um risco: podem criar-se situações intoleráveis. Se os estrangeiros são confinados no gueto, aumentaremos o desencontro e nos tornaremos verdadeiros desfrutadores que chamamos à colheita os escravos, querendo que continuem escravos. É isso é vergonhoso”.

Este homem fala com uma voz que parece quase uma melodia impostada pelas cadências dialetais piemontesas e se dirige a todos, também a quem não crê.

Mas, talvez o crente tenha mais instrumentos do que o leigo no acolhimento do estrangeiro?

“Direi que não. Capaz pessoa é capaz de ética, bondade e percursos de realização e diálogo com os outros. Sem dúvida, quem segue de maneira autêntica o Cristianismo, encontra-se constrangido a meditar sobre a qualidade do outro como irmão. E sobre o fato que os bens deveriam ser divididos entre todos os homens. Porém digamos a verdade, muitos crentes não chegam a esta reflexão, enquanto não crentes chegam a ela. Para a forte predominância da tradição católica, na Itália temos dificuldades para falar de espiritualidade dos leigos. Diversamente na França. A espiritualidade dos ateus se tornou o título de um ótimo livro do filósofo André Comte-Sponville. A vida interior existe em cada pessoa. Pode ser absolutamente cultivada por todos, crente se não crentes, fiéis e infiéis.”

O mosteiro de Bose é envolvido pelo “grande silêncio”. Que sentido tem, no mundo do grande rumor? E o que significa hoje a escolha monástica?

“Existe realmente tal quantidade de sons, estrondos e mensagens que tornam quase impossível o silêncio. O silêncio causa-nos angústia. Mas, é o lugar onde nasce a palavra verdadeira, a palavra elaborada e pensada, a palavra purificada: o silêncio é uma linguagem necessária, a palavra sem silêncio se torna rumor. É uma exigência antropológica antes que cristã e por isso os monges têm doze horas cotidianas de absoluto silêncio. É uma mensagem: do silêncio destilamos a autenticidade das palavras. Além disso, o silêncio nos traz uma grande paz, diminui a nossa agressividade e muda o nosso olhar sobre os outros”.

Como consegui-lo, se não se vive na quietude de um mosteiro?

“É uma decisão importante. Também quem tem uma vida muito empenhativa deve com coragem buscar tempo para si, por exemplo de manhã, quando os rumores da cidade ainda não se desencadearam. Encontrar o tempo para estar sós e pensar: tudo o que se faz com os outros, depois, adquire uma qualidade e força diversa. Pascal dizia: o grande drama dos homens é não encontrarem meia hora de silêncio por dia”.


É o mistério destas vidas que procedem por subtração, por espoliação de quase tudo. Mas, à força de tirar, o monge pode ser tentado pelo nada?

“Conheci grandes pessoas perpassadas pelo ateísmo, não só pela dúvida sobre Deus, e eu as conheci sobretudo na vida monástica. Pode parecer paradoxal, mas é precisamente porque o monge procura em sua existência simplificar, e diz tantos não, um atrás do outro, que pode haver a impressão que o “nada” o invada. Chamo-a de “nada” [“nientitá”] para distingui-la do niilismo, que é cínico. Naqueles momentos a fé do monge é provada, a vida aparece sem resultado, sem fruto. Quem mais se empenha na busca com Deus, deve tomar em conta o grande desafio do “nada”. Penso que o monge possa entender os ateus mais do que outros, a partir de uma forma de solidariedade profunda. Porque os não crentes muitas vezes não crêem no Deus narrado pelos homens religiosos, mas têm uma paixão por Deus que os crentes às vezes não tem.”

Enzo Bianchi escreveu que não é preciso pedir a Deus com a pretensão de que nos cure das doenças, e que a prece, mas do que pedir, é escutar.

Mas então, o “pedi e vos será dado”?

“Um verdadeiro crente diz sobretudo “fala, Senhor, que teu servo escuta”, e não diz “escuta, Senhor, que teu servo fala”. O Senhor nos fala nas profundezas do nosso ser, e não faz em italiano ou em hebraico. Há um ponto interior, aquele que a Bíblia chama simbolicamente de coração, o profundo da nossa profundeza, no qual devemos acolher a voz de Deus. Então posso iniciar um verdadeiro diálogo”. O senhor escreveu que talvez seja errado traduzir o Credo, dizendo “Deus é onipotente”: o que significa isso? “Já santo Agostinho escrevia que, quando se traduziu o termo grego com ‘omnipotens’, na realidade se deveria ter dito ‘omnitenens’: isto é, aquele que tem conjuntamente todas as coisas. O termo “onipotente” dá a idéia de um pai patrão absoluto e mágico: não é isto o nosso Deus. Mitos Padres da Igreja, com razão, sustentam que se deva falar de onipotência no amor, isto sim. No amor e por amor, Deus pode tudo. Mas não com aquela onipotência de mágico que cria o extraordinário, o milagre, ou então nos tira da nossa condição humana”.

Aqui no mosteiro o tempo transcorre com lenta exatidão. E vem do perguntar qual seja o sentido profundo desta palavra: Tempo.

“O Cristianismo sempre deu muita atenção à sua arquitetura: mas, o que o cristão deve viver é o hoje. Não o instante fugitivo, mas o hoje, aqui e agora. Deve ter memória do passado sem viver no passado, mesmo se nossa sociedade é a do futuro anterior: “quando terei feito isto”, agora a gente se exprime assim. Ao invés disso, a minha vida se decide agora. Qualquer fragmento do meu tempo é fundamental para minha vida, que está uma só vez no tempo. E o tempo tem um fim, a morte vencida para sempre pela vida e pelo amor”.

A morte: tão removida da nossa sociedade, tão afastada. Como dar-lhe sentido, principalmente se não se crê?

“Também a pastoral dominante esqueceu a morte, este evento absoluto que está diante de nós. A morte virá, ela não é uma hipótese. Ela age em nós a cada dia, envelhecemos e a sentimos operar. E advertimo-la como uma terrível injustiça. Passar, ser efêmeros, aceitar que o amor que temos a uma outra pessoa seja digno de morrer: quem o conseguiria? A morte é verdadeiramente uma grande contradição. Mas, o cristão sabe que Jesus ressuscitou em virtude da sua plenitude de amor. Somente o amor é digno de combater a morte, e é um empenho. E o amor conhecem-no todos, crentes e não crentes. Enquanto vivermos, o que conta é amaro os outros, aceitar ser amados e renovar o nosso amor. Se não formos capazes disso, a morte realmente pode ser a palavra definitiva”.

Amor, perdão. A voz de Enzo Bianchi é tão leve e, no entanto, suas palavras são gigantescas. Reboam no vazio da sala.

“Quase se poderia dizer que hoje existe uma mistificação do amor. E, no entanto, tenho esta confiança nos homens e na sua capacidade de discernimento do verdadeiro amor, de entender que do amor depende a possibilidade de salvar a própria vida. E o perdão é o amor até ao inimigo, até ao perseguidor e ao assassino. Para Jesus é uma lei, não uma opção, não uma variável possível. “Pai, perdoai-lhes”. No entanto, creio que o Juízo universal deva ser tomado muito a sério, pelos cristãos e por todos. Penso que, naquele dia, Deus misericordioso não nos pedirá contas com severidade daquilo em que tenhamos podido falhar para com ele. Mas, daquilo que tenhamos falhado em relação aos irmãos, ser-nos-ão pedidas contas de maneira muito precisa. Não ter amado, ter cometido um mal. Ai, se pensássemos que existe um abono geral, sem que Deus reporte à justiça o que sobre a Terra foi vivido na injustiça de tantos milhões e milhões de pessoas, os pobres, os últimos, os anônimos que só tiveram que sofrer, sem sequer poder defender-se. O Dia do juízo faz parte do credo cristão – “Ele virá julgar os vivos e os mortos” – e é um fundamento de fé. Se não houvesse um julgamento, então ousarei dizer que nada realmente tem sentido, que o Cristianismo é uma grande fábula e os cristãos são de lastimar mais do que todos os homens”.

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