"Na região missioneira triunfa nas igrejas, regidas por um clero esmagadoramente branco, o sotaque das migrações. E fica fora, quase silenciado, falando baixinho, o jeito de falar que traduz uma mentalidade e um afeto indígena, uma humanidade menos capitalista e mais comunitária, solidária no sofrimento, que poderia humanizar o Rio Grande, sacudir a indiferença dos migrantes para com os outros, originários e negros filhos de escravizados, e superar o dualismo que marca a história áspera do Rio Grande das duas metades, dos ximangos e maragatos", escreve Frei Luiz Carlos Susin, doutor em Teologia e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.
Pedro Ortaça, “o último tronco guarani” acaba de cair. Partiu levando consigo a dor dos guaranis, a “maldita sina de ser órfãos da Igreja”. Morreu perguntando sobre “o que sucedeu, nem na casa de Deus tem lugar pro guarani!” Ele denuncia em seu canto e em seu lamento: “A Igreja nem tá aí”.
Se juntarmos a este canto, carimbado como um testamento, cujo título é “Pena Guarani”, em coautoria com seu filho e herdeiro musical Gabriel e com Vaine Darde, também o seu outro canto, “De guerreiro a payador”, podemos entender melhor o seu grito de protesto e sua interrogação indignada à Igreja. Pedro Ortaça, na verdade, poderá nos ajudar a celebrar com mais honestidade e, quem sabe, com alguma eficácia, os 400 anos de Missões no Rio Grande do Sul. As sete cidades guaranis – os Sete Povos das Missões – foram o ponto alto daquele momento histórico único de encontro razoavelmente feliz de culturas. Confrontados os prós e contras daquela ação missionária, podemos concluir que houve um saldo positivo enquanto a destruição não chegou. Mas Ortaça, testemunha viva da “maldita sina” guarani, canta em “De guerreiro a payador”: “Sou o que os historiadores procuram lá nas ruínas, mas não sabem os doutores que esta saga não termina, que ainda restam descendentes da terra dos sete santos, e o passado está presente em tudo aquilo que canto”.
Esta é a questão: porque a Igreja abandonou completamente os descendentes da tragédia, da destruição das missões por parte dos reinos colonizadores de Portugal e Espanha? Porque nunca mais teve um projeto que contemplasse os indígenas do Rio Grande do Sul de forma minimamente justa? Como se explica a invisibilidade do que está aí pra todo mundo que quiser ver, as consequências sobre a população do Rio Grande do Sul? O fato é que, mesmo contra a vontade dos jesuítas missioneiros, a espada imperialista afinal apareceu lá onde tinha chegado a catequese sem espada, e destruiu um bom começo que a lógica colonial não permitia prosperar. Mas o que espanta é que a Igreja voltou atrás, abandonou e desprezou o que tinha começado bem. Ao contrário, no novo projeto romanizante da Igreja, erigiu cabeças indígenas esmagadas sob as paredes da catedral de Porto Alegre e anotou no livro-tombo que é representação da verdadeira religião esmagando a superstição.
Já são quase 300 anos de ruínas depois da fatídica guerra em que Sepé Tiaraju caiu na luta de resistência e defesa dos povos guaranis. Ele e todos os sete povos eram tão cristãos católicos como os portugueses e espanhóis que chegaram dispostos a praticar o genocídio. Depois da derrota, da dispersão e do vazio criado na região, os poucos açorianos e lusos que atingiram as cidades em ruína ganharam quase nada com a vitória sobre os guaranis. Mas depois vieram colonos alemães, poloneses e italianos buscando terras novas, e na região impuseram outra cara, outro sotaque, outra forma de lidar com o ambiente. Definitivamente os guaranis foram vistos como estranhos em sua própria terra, incômodos e, eventualmente, perigosos. Marginalizados, andando de um lugar para outro, acampando à beira das estradas onde ninguém pudesse reivindicar aquele pedacinho de chão marginal, tornaram-se facilmente, junto com os descendentes dos negros escravizados em seu triste destino paralelo, vítimas expiatórias, sobrecarregadas das acusações e das misérias dos novos ocupantes projetadas sobre eles.
Mas a história pós-missioneira não termina aí. Os guaranis levados para o Parque dos Anjos, atual Gravataí, ou dispersos pelas periferias das cidades interioranas, sabem sobreviver. Os caingangues, mais confrontativos, recuaram para as matas, mas os guaranis souberam se manter num silêncio resistente em meio a ambientes sociais hostis. Hoje, para quem toma um ônibus urbano nas periferias das cidades metropolitanas ou de qualquer cidade do interior gaúcho, encontra rostos, pele, olhos, cabelos, de biótipo marcadamente indígena: são milhares, alguns milhões, os descendentes, entre os 11 milhões de habitantes do Rio Grande do sul. É por isso que Ortaça canta “o passado que ainda está presente”.
E “a Igreja nem tá aí”. Na região missioneira triunfa nas igrejas, regidas por um clero esmagadoramente branco, o sotaque das migrações. E fica fora, quase silenciado, falando baixinho, o jeito de falar que traduz uma mentalidade e um afeto indígena, uma humanidade menos capitalista e mais comunitária, solidária no sofrimento, que poderia humanizar o Rio Grande, sacudir a indiferença dos migrantes para com os outros, originários e negros filhos de escravizados, e superar o dualismo que marca a história áspera do Rio Grande das duas metades, dos ximangos e maragatos.
Hoje, convivendo há anos numa periferia de Porto Alegre onde meu rosto de branco e meu sotaque gringo é ínfima minoria, compreendo porque meus amiguinhos de infância, vizinhos de bairro em Caxias, quando eu perguntava porque não iam à missa no domingo, respondiam singelamente: “A mãe disse que nós não temos roupa!” Não tendo roupa e nem jeito para a igreja Católica branca, os descendentes de hoje se sentem mais identificados com as igrejas pentecostais. Basta uma observação empírica até superficial para constatar que os descendentes indígenas ainda “não têm roupa” para a Igreja Católica. Mas não só eles, muitos “pardos” e muitos negros somente sussurram sua real e inteira expressão religiosa, arriscando continuamente os mal-entendidos das interpretações puristas e autoritárias sobre eles. E “a Igreja nem tá aí” – não desenvolve um projeto, mesmo celebrando a grandeza do que já foi há 400 anos.
No entanto, canta o missioneiro: “a lança fez-se guitarra, e o guerreiro, payador”. Aos quatro grandes “troncos” guaranis missioneiros – Noel Guarany, Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá, Pedro Ortaça – sucedem agora muitos ramos payadores, advertindo o que Ortaça lembra ao cantar: “Ah, se Sepé fosse vivo, duvido tal abandono ... não haveria índio a mendigar nas esquinas”, “fósseis vivos da pampa”. E calca: “Sou filho dos sete povos, tenho sangue de Sepé”. No dia 07 de fevereiro de 1756, três dias antes do grande massacre de Caiboaté, na região de São Gabriel, terras do gado e do mate da cidade missioneira de São Miguel, Sepé Tiaraju foi morto defendendo seu povo. Sua convicção de fé cristã – já era cristão ao menos de terceira geração – é mais eloquente do que a de São Luís, rei francês, ou de Santa Joana d’Arc, a virgem guerreira. Ele deu a vida por uma causa sem misturas, justa e santa, a defesa da vida de muitos irmãos, mesmo sabendo-se em minoria bem mais frágil do que daqueles santos franceses. Ele se tornou, na memória popular, um eleito do céu pelo lendário símbolo do lunar em sua testa e por se tornar, após a morte, uma estrela do Cruzeiro do Sul que guia até hoje os sonhos e a esperança dos que resistem em sua dignidade e em seus direitos silenciados. Por isso é “São Sepé”.
Mas “a Igreja nem tá aí”. Foi preciso um bispo negro, Dom Gílio, querido bispo emérito de Bagé, levar com decisão e coragem a causa de reconhecimento de São Sepé – como o povo chama Sepé Tiaraju até hoje – para que em Roma, acima de bispos adormecidos ou distraídos daqui e que cultivam a mesma má consciência de todos nós, o Dicastério da Causa dos Santos reconhecesse a consistência histórica e teológica da santidade excepcional de São Sepé, inclusive seu martírio usque ad sanguinem. Aqui, contra a documentação histórica, foi posta em dúvida até a sua existência! Ou considerada, mais uma vez, inoportuna a atenção ao que está debaixo do tapete da consciência e de seu recalque, apelando para outras prioridades. Isso tem coerência com a atual pastoral: é a negação da existência dessa multidão de “filhos de Sepé”, mantendo a porta fechada para quem “não tem roupa”! As comunidades evangélicas pentecostais agradecem! A essa multidão de gaúchos “peões” – sem cavalo e sem carro, que se encontram agora nos ônibus lotados das periferias –as comunidades pentecostais são hospitaleiras, nelas podem ter amparo, dignidade reconhecida, e ali “conseguem roupa”, “encontram Jesus” e se sentem em casa.
Assim está o Rio Grande do Sul diante de suas duas esfinges recalcadas: Sepé Tiaraju e o Negrinho do Pastoreio, a realidade histórica e a interpretação lendária, que indicam os porões a céu aberto, indígenas e negros que não tiveram projetos políticos e sociais, e nem, menos ainda, religiosos. Só os colonizadores tiveram projetos. Continuaremos com má consciência, os que temos roupa. Olhando para as ruínas de São Miguel, como denuncia Ortaça, valorizamos mais “a carcaça de um templo quase no chão que os descendentes da raça que vagam changuiando pão!”. E que “nem na casa de Deus têm lugar” – “a mãe disse que não temos roupa”.
São Sepé Tiaraju, agora Servo de Deus, aceito por Roma para um processo de reconhecimento de santidade, dá roupa afro-indígena para bispos, clero e povo católico do Rio Grande do Sul, para justiça e gratidão da Igreja com os guerreiros de guitarra e canto, para os que podem redimir nossa má consciência diante do “retorno do recalcado” que assombra nosso inconsciente gaúcho coletivo, e para nos alegrarmos quando houver espaço nas igrejas para todos, independentemente da roupa.