A guerra santa e a alegria de ver o sofrimento do outro. Artigo de Jung Mo Sung

Sofrimento em Gaza. (Foto: Abdalhkem Abu Riash/Anadolu Ajansi)

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24 Abril 2026

"O fato de interpretar a reação corporal (especialmente no rosto e no olhar) do outro como um sofrimento implica que o meu corpo, ao perceber esse sofrimento do outro, entra em relação de empatia (um nível anterior de compaixão ou de opção ética solidária). O sofrimento do outro nos deixa mais tristes, assim como a alegria nos contagia. Frente ao sofrimento do outro, temos que optar por um dos vários caminhos possíveis", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Eis o artigo.

Ao vermos vídeos de israelenses sionistas – soldados ou não, judeus praticantes ou não – se alegrarem e comemorarem as mortes e sofrimentos dos palestinos ou dos iranianos, somos obrigados a repensarmos a nossa visão do ser humano e o papel da religião nesses conflitos. Alguém poderia dizer que esses fenômenos são frutos da “loucura” de uma guerra, que normalmente não somos assim. A princípio parece que sim, mas há uma palavra alemã, schadenfreude, que descreve exatamente esse sentimento de prazer, alegria ou satisfação de ver o fracasso ou o sofrimento de outra pessoa. O que mostra, além da riqueza do idioma alemã, que isso acontece também em tempos “normais”.

Nós humanos, além do princípio de dor e do prazer que compartilhamos com todas espécies animais, somos também seres de sofrimento e alegria. E o sofrimento, além do aspecto orgânico da dor, pressupõe e implica uma interpretação linguística para diferenciarmo-lo de outros sentimentos. Assim como a alegria. O alegrar-se com o sofrimento do outro revela a complexidade do ser humano e das relações intersubjetivas, incluindo aqui o ser humano religioso ou o aspecto religioso do ser humano.

No processo de aprendizagem da diferença entre o sentimento de sofrimento e um outro sentimento, por exemplo, alegria, as crianças precisam pelo menos dois elementos: o desenvolvimento neurológico que lhes permita a experiência da empatia, isto é, ser capaz de ver e sentir coisas do ponto de vista de outras pessoas e, ao colocar-se no lugar do outro e sentir a dor do outro (M. TOMASELLO, Michael. Origens culturais da aquisição do conhecimento humano) É nessa relação de empatia com outras pessoas que as crianças aprendem o que é sofrimento e alegria. Empatia é a base para a experiência da compaixão.

O segundo elemento é a aprendizagem cultural de como lidar com essa experiência da empatia (o saber que o outro está sofrendo). É aqui que temos uma questão ético-espiritual fundamental. É claro que quando o sofrimento é do próprio indivíduo, a pessoa o interpreta de um modo diferente do que quando se trata de sofrimento de outro. Mas, como não há neste pequeno artigo muito espaço, quero focar só no sofrimento do outro.

O fato de interpretar a reação corporal (especialmente no rosto e no olhar) do outro como um sofrimento implica que o meu corpo, ao perceber esse sofrimento do outro, entra em relação de empatia (um nível anterior de compaixão ou de opção ética solidária). O sofrimento do outro nos deixa mais tristes, assim como a alegria nos contagia. Frente ao sofrimento do outro, temos que optar por um dos vários caminhos possíveis.

Um primeiro pode ser o de “desviar” o olhar do outro. Isto é, o sofrimento dessa pessoa não me é importante porque ela não pertence à minha “comunidade moral”. Isto é, ela não pertence a um conjunto de pessoas a quem eu tenho uma obrigação moral, ou uma responsabilidade social, de ajuda-la. Em situação em que a visão desse tipo de sofrimento social se tornou impossível de evitar (p.ex., o sofrimento social dos pobres ou dos refugiados), uma estratégia é silenciar a conversa sobre esses problemas ou de colocar uma hierarquia de prioridades moral ou religiosas em que esse sofrimento não tem lugar. É o caso de comunidades religiosas ou igrejas que silenciam o problema dos sofrimentos dos pobres em nome da “salvação da alma” ou da missão “estritamente” religiosa.

Um segundo caminho é o de expulsar esses sofredores da “comunidade moral” e, mais do que isso, considera-los como inimigos que colocam em perigo a sobrevivência e a identidade dessa comunidade. A situação fica pior quando essa comunidade se auto identifica como “povo escolhido”. Esse é o caso que eu coloquei no início. Os israelenses judeus sionistas estão em uma “guerra santa” para defender a sua identidade, a sua fé e a sua teologia do povo escolhido. O sofrimento dos seus inimigos é a sua alegria e a comprovação de que estão atuando eficazmente. E esse tipo de guerra santa não está acontecendo somente no que ainda se chama Oriente Médio, mas também em outras em que se matam ou gerar sofrimento em nome de deus.

Um terceiro caminho frente ao sofrimento dos outros pode ser o de assumir a compaixão e agir solidariamente em defesa do direito de todos de viver com dignidade. Para isso, o primeiro passo seria a de assumir que a luta contra sofrimentos injustos e evitáveis é, ou deveria ser, o ponto de partida de qualquer discurso teológico que se considera cristã e/ou humanista.

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