Rebelar-se contra o algoritmo. Artigo de Vito Mancuso

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10 Fevereiro 2026

"A infecção ameaça a todos nós, porque "os dados de tráfego mostram claramente que o algoritmo favorece conteúdo que gera raiva". E o fato de sermos todos cada vez mais vítimas de emoções negativas já é evidente em nossas vozes, na linguagem e nas expressões faciais. (...) Parece o mesmo mecanismo das drogas: sabemos que são prejudiciais, mas não conseguimos ficar sem elas", escreve Vito Mancuso, em artigo publicado por La Stampa, 08-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Até uma década atrás, muitos políticos e cientistas políticos ao redor do mundo acreditavam que a próxima grande inovação para o incremento da democracia seria a tecnologia, e até mesmo o Papa Francisco chegou a chamar a internet de "um dom de Deus" em 2014. Hoje, no entanto, não poucos suspeitam que a tecnologia seja um perigo para a democracia e que esse dom de Deus seja, na verdade, muito semelhante à mítica caixa de Pandora, criada pela inveja de Zeus: aquela que, ao ser aberta, despejou todos os males do mundo sobre a humanidade.

Sim, de fato, "algo deu errado", como intitula Riccardo Luna, um dos jornalistas de tecnologia mais renomados, em seu livro sobre redes sociais e inteligência artificial. Sua leitura explica como a internet desenvolvida em seus primórdios com a ambição de representar "a primeira arma de construção em massa", uma rede capilar de computadores que ajudaria a derrubar as barreiras e unificar a humanidade; e como hoje, ao contrário, mais de meio século depois, o resultado é dolorosamente diferente, com a tecnologia das mídias sociais e da inteligência artificial cada vez mais configurada como a maior arma de sedução em massa. De fato, a mesma ferramenta que levou Barack Obama à Casa Branca em 2008 (o primeiro presidente negro muito jovem: realmente parecia que o mundo poderia mudar, tanto que ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz quase antes mesmo de começar seu mandato) agora faz com que reine alguém tão constrangedor e vulgar quanto Donald Trump, e torna o não menos constrangedor e vulgar Elon Musk, o homem mais rico e poderoso do mundo. Sim, de fato, algo deu errado.

A análise de Luna mostra claramente que a vítima mais ilustre dessa distorção é a dimensão qualitativa da vida, ou seja, a primazia da verdade, do que é certo, correto e honesto. O algoritmo, de fato, não entende a qualidade, mas apenas a quantidade, e por essa razão, talvez o capítulo mais belo e perturbador do livro se intitule "o fim da verdade". Nele se lê: "A primeira vítima sacrificial dessa mudança foi a verdade". E isso porque "um conteúdo falso postado nas redes sociais circula muito mais rápido do que um conteúdo verdadeiro".

As coisas poderiam ser diferentes se o algoritmo tivesse sido projetado para recompensar a qualidade, mas a única coisa que importa para os donos das redes sociais é o aumento do tráfego e a consequente enxurrada de dinheiro. E o tráfego aumenta tanto mais quanto mais se tornam desenfreadas litigiosidade, mentiras, violência e pornografia. Os responsáveis estão plenamente cientes dos perigos psicológicos e éticos de seus sistemas, mas os ignoram tranquilamente para não diminuir seus enormes lucros, sem se importar com quem sofre as consequências. Processos judiciais já estão em andamento contra eles em todo o mundo, mas mesmo agora, enquanto se aguardam os veredictos, "uma coisa já emergiu dos autos do processo: a má-fé das empresas que administram as plataformas digitais".

Uma das páginas mais chocantes do livro para mim é a que descreve a notável diferença entre o algoritmo do TikTok na China (chamado Douyin lá) e aquele usado no Ocidente: aqui, entre nós, o TikTok "funciona sempre e oferece o pior conteúdo possível" (ou seja, o conteúdo que apela aos instintos mais baixos), enquanto a versão chinesa é "bloqueada em determinados horários" e programada de maneira completamente diferente: "Seu objetivo é educacional, fazer as pessoas sonharem em se tornar astronautas". O resultado? As crianças chinesas aspiram a ser astronautas (com toda a carga de estudo, dedicação e preparação física que isso implica). Por que nossos governos não obrigam o proprietário chinês do TikTok a introduzir também entre nós o algoritmo educacional usado na China?

O ponto mais doloroso, de fato, diz respeito aos nossos jovens, que estão lidando com a diminuição da capacidade de atenção (agora atestada em apenas oito segundos), o empobrecimento da linguagem, o aumento da ansiedade e os consequentes surtos de violência. Mas, é claro, a infecção ameaça a todos nós, porque "os dados de tráfego mostram claramente que o algoritmo favorece conteúdo que gera raiva". E o fato de sermos todos cada vez mais vítimas de emoções negativas já é evidente em nossas vozes, na linguagem e nas expressões faciais. Luna pergunta: "Mas se removermos a esperança da equação de nossas vidas, removermos os comportamentos construtivos, a generosidade, os pequenos passos à frente, o que resta?" A resposta: "Apenas uma raiva sem limites; sem a esperança, nos tornamos desesperados".

Parece o mesmo mecanismo das drogas: sabemos que são prejudiciais, mas não conseguimos ficar sem elas.

De fato, as redes sociais são tão sedutoras porque são regidas por um sorrateiro princípio de prazer, uma espécie de açúcar mental que busca apenas o prazer, especialmente nas formas mais imediatas relacionadas ao corpo e às emoções mais primitivas. Mas assim como o açúcar é prejudicial para o organismo, da mesma forma o princípio do prazer é prejudicial à mente, de modo que nossa saúde mental sofre severamente e desenvolve aquele tipo cada vez mais disseminado de obesidade espiritual chamada narcisismo. Quantos egos cada vez mais gordos e grosseiros! E como nos tornamos cada vez mais assim, se não prestarmos atenção ao açúcar psíquico que o uso das redes sociais injeta em nossa psique.

Portanto, algo deu errado, de fato, mas, após uma reflexão mais profunda, surge a seguinte questão: poderia ter sido diferente? Foi Kant, há mais de dois séculos, quem nos descreveu como uma madeira torta: "a madeira torta da humanidade". E perguntou: "Da madeira torta da humanidade, como conseguir algo reto?" De fato, não dá para contar com isso. No entanto, pelo menos às vezes, é exatamente isso que acontece: a madeira torta da humanidade gera "algo perfeitamente reto", ou seja, algo em conformidade com a lei moral. O paradoxo se confirma: da madeira torta, às vezes, emerge algo perfeitamente reto. O que permite essa operação não natural se chama educação, ou mesmo cultura, estudo, reflexão, meditação, recolhimento, silêncio interior. E é disso que nosso tempo e nossas escolas precisam mais do que nunca.

Em suma, não exatamente o que as redes sociais oferecem (embora, se soubermos usá-las, elas também poderiam contribuir nesse sentido). Riccardo Luna está ciente de que nossa madeira torta pode ser endireitada e, por isso, ao final do livro, apresenta uma série de valiosas dicas práticas: cultivo da consciência, gentileza, busca da beleza no cotidiano, consumo responsável, preparo da própria comida, sorriso e uso moderado e prudente da internet e da inteligência artificial. Seu livro nos convida a parar e refletir. Não oferece soluções fáceis, mas critérios para discernimento. Não defende um retorno ao passado, mas sim um amadurecimento do presente. Ele reconhece que nossa crise é acima de tudo espiritual e consiste na perda do nexo entre poder tecnológico e finalidade ética da existência.

Algo deu errado, mas atenção: continuará assim até que voltemos a nos questionar, de forma responsável, sobre o sentido mais autêntico da nossa existência no mundo. Até que retornemos à questão fundamental do que torna a vida boa e justa, nenhum algoritmo poderá nos salvar; pelo contrário, só poderá nos aprisionar ainda mais.

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